13 de ago. de 2017

58) Hoje é dia de agradecer aos pais!

Hoje (e sempre) é dia de honrar e agradecer os pais!

E tem um eclipse solar chegando para constelar nossas relações com eles!


Hoje é dia de honrar os pais pela vida que criaram e os cuidados oferecidos. Até mesmo quando seus esforços não são reconhecidos, como a sombra da Lua encobre o Sol em um eclipse. Mas não é só esta dinâmica que o obscurecimento celeste vai acionar em nossa psique no dia 21 de agosto de 2017. Mas antes de falar sobre elas, vamos saber mais um pouco sobre este evento no Céu.

Haverá um eclipse total solar em Leão daqui 8 dias. Este signo é regido pelo Sol, estrela que se refere, entre outros significados, ao pai e também à mãe. O Eclipse Solar Total é quando a Lua fica entre a luz do Sol e a Terra, escondendo totalmente o disco solar para o observador terreno. Este deslocamento orbital criará uma sombra visível em alguns lugares do planeta: na América do Norte, um pouco na América Central e terminando ao Norte da América do Sul. Em Carbondale, Illinois, é onde a sombra ficará mais tempo.


Como projetamos as nossas estruturas psíquicas na lousa celeste, o que acionará em nós esta dinâmica das estrelas? O que será constelado quando avistarmos um gigante engolir outro maior ainda trazendo a noite para o dia?

A relação com os nossos pais em nossa psique!

Didaticamente falando: a relação (Luz do Sol) com os nossos pais (Sol e Lua) em nossa (Terra)  psique (Sombra), entre outras coisas.

Por exemplo:

Se uma mãe, ou família, ficou entre a filha ou filho e seu pai, com apegos excessivos ou até alienação parental, não foi feito o caminho para ele ainda. Não adianta brigar com a mãe, mas sair da sombra criada e seguir adiante até ele. O caminho para o pai, mesmo sem barreiras, é como aprender a andar novamente.

Se tem uma mágoa entre um filho/a e o pai, “as-sombra-ndo” a relação permanentemente, vai ser constelado que ninguém é perfeito, muitas vezes nos empurrando a fazer algo errado também. Não adianta culpar o eclipse! Tem é que aprender com ele: o pai (ou a mãe) não tem que corresponder às expectativas de ninguém, apesar do apoio deles fazer toda a diferença. Que eles busquem ajuda se não estão conseguindo fazer isso. E aos filhos, que a gente se desapegue da mágoa e das expectativas irreais e construa nossa relação com o nosso pai. Se for preciso, que busquemos ajuda para isso com um bom analista. 

Lembrando que toda relação deve dar ao menos 60 % de chance para os erros, como disse Bert Hellinger criador das Constelações Familiares. O índice é alto? Sim, a criatividade e as soluções precisam de terreno para florescer, assim como todo o resto do planeta continua recebendo a luz do Sol num eclipse que tem o nome de “total”.

Falando nisso, como disse a antropóloga Luciane Coccaro, o pai e a mãe não devem agir como um totem enorme sombreando o filho porque concordam em tudo em relação à criação dele. Esta rigidez de horizontes faz com que a criança não tenha nenhuma chance nem saída. Mas quando o pai e a mãe discordam em alguns pontos, o filho fica aliviado e ganha mais ângulos para o pensamento. Da nossa parte, temos que permitir também que o nosso pai e mãe sejam diferentes, inclusive na demonstração de amor. Reconhecer isso, ajuda a entender que os afetos assumem muitas formas.



Se o pai morreu quando o filho era pequeno, a penumbra do esquecimento pode impedir de acessar algum sentimento. Por trás dela, no entanto, ainda está o Sol já que metade da gente tem o pai e toda a linhagem dele. Somos que nem um pássaro: uma asa é a linhagem da nossa mãe e a outra do nosso pai. Quando estas duas asas estão conscientemente integradas, mesmo que um deles tenha partido tão cedo, podemos voar para nosso destino. Uma boa maneira de fazer isso é manter contato com a família do pai.

Se o pai magoou a mãe de verdade, ou vice-versa, este é um desafio doloroso deles. Não cabe ao filho tomar partido, a não ser que queira ficar partido também. Desculpe o trocadilho, mas é isso que acontece e chamamos de coração partido. Se os filhos não se meterem, como a Lua fica entre o Sol e a Terra, há mais chances dos dois buscarem ajuda para se entenderem.

Há ainda outras ações escondidas como culpa, que serão acionadas com o eclipse, como convites para novas soluções. Há os pais que não reconheceram ou abandonaram o filho ou a filha. Uma pena, mas a gente, se for o filho, ainda pode se permitir reconhecer um amor de sangue que, como seiva, nos sustenta no inconsciente. Portanto, excluir o pai do coração porque ele mesmo fez isso com a gente, não age tão profundamente quanto aceitar que o pai quis ir embora, mas temos ele no peito. E se ele cair em si e tentar voltar..., há sempre chances de reconciliação. Nenhuma sombra fica para sempre. Encarar a culpa também será um convite. Não adianta sentir pena de si mesmo ou se condenar com auto sabotagem para o resto da vida, porque continuaremos a não olhar para os nossos filhos.

Se o pai é cruel e violento conosco, o eclipse vai nos lembrar dos limites e os limites dos limites. Nos afastamos dele para impedi-lo de machucar o bem mais precioso que ele nos deu: a nossa vida. Mas no coração guardamos o lugar dele. Não é fácil, mas cada um de nós tem desafios para nos fortalecermos para alcançar o infinito. Com o tempo ele pode melhorar também.

Se o pai culpou a mãe pela gravidez, como se ele fosse uma vítima inocente corrompida pela malévola mulher, dá raiva mesmo! Ainda bem que não é eclipse lunar da Lua Sangrenta! Mas a dor na mulher e na criança é imensa. Novamente, como filhos, não podemos ser o psicólogo ou juiz dele. Os pais e mães existem para a gente viver o papel de filho e deixar com eles o que é deles. Se um pai fez isso, o eclipse vai fazer ele querer buscar ajuda por algo que falta, como a Luz do Sol, mas que não sabe exatamente o que é. Virar adulto sendo capaz de responder pelos seus atos? Quem aceita ajuda especializada erra menos, porque é bom descobrir que servir à vida é sempre um acerto e sempre uma escolha, mesmo que inconsciente.

Se o pai é tão ausente, mesmo trazendo toda segurança e sustento para casa, não se pode acreditar que os problemas dos filhos na escola e nas relações são do caráter deles. Toda criança cria crises, inconscientemente, para ter seu pai (ou mãe) presente. A linguagem do amor dos filhos é o beijo ou as crises. Um bom analista ajudaria aos pais. Mas sabemos que é o filho quem vai parar no consultório. Se for o caso, lembre-se, não é o filho o problema. Ele é a solução.

Se os pais estão se separando de forma litigiosa, deixe que os advogados cuidem disso, porque eles, os profissionais, não têm o menor interesse em brigar. Quem busca advogado não quer brigar. Já quem busca os filhos como juiz, ou os filhos se colocam neste lugar...

Se uma criança tem dois pais homens e geneticamente ela é filha de um deles, a mãe tem que ser incluída! A Lua não passa na frente do Sol, fazendo um eclipse TOTAL, porque não quer ser vista. Novas formas de família não podem excluir, se não, não é nova família mesmo.

Da mesma forma, se duas mães têm um filho que geneticamente é de uma delas, o pai tem que ser incluído. A criança tem o direito de saber de onde vem a sua história pessoal. Isso evita neuroses futuras. Se a gente está abrindo o amor em tantas esferas, que todos que fazem parte sejam incluídos. Se não a caretice e a dor serão as mesmas. Com relação aos bancos de sêmen, ou óvulos de outra mulher, eu acho mesmo que a criança tem que ter o direito de conhecer seus pais e sua história. Porque ela vai querer isso em algum momento.

Nesta mesma linha e sem julgamentos: se a mãe não revela, mas sabe quem é o pai, ou mente a verdadeira origem dizendo que o filho é de outro pai, o eclipse dura até 3 minutos, mais que isso mata o planeta.

Se um filho vem de outros pai e mãe, a melhor maneira é aceitar que antes de você(s), ele/a teve estes genitores, que se encontraram e teceram ele do infinito. A sombra do abandono, ou a morte prematura dos pais, não pode esconder que o Sol ficou de frente para Lua quando a Terra escureceu. O amor em suas origens e o amor dos pais adotivos por todos eles pertencem. Quando adotamos uma criança, adotamos toda a linhagem dela.

Por último, nossa mãe nos deu o nosso pai com tudo o que implicava para ela, até a morte algumas vezes, para trazer a nossa vida. E ele nos deu a nossa mãe. Os melhores presentes. Quanto mais tomamos a vida que nos deram, e agradecemos tudo o que custou para eles, mais seguimos em frente. 

Hoje é o dia dos pais para lembrar que devemos todos, honrar eles! Porque a nossa vida está antes do pai e da mãe, como futuro deles.

Feliz dia dos pais e minha imensa gratidão!





16 de mai. de 2017

57) Mãe tóxica uma ova!

Agnes Moorehead na personagem Endora - Mãe da Feiticeira

Se eu fosse fazer uma nova tese, que não farei, o nome seria
MÃE TÓXICA UMA OVA!


Nela eu ia pesquisar os compêndios de psicologia, psiquiatria e publicações acadêmicas e não acadêmicas que insistem em se aproximar das relações difíceis com a mãe demonizando a mulher e interpretando suas dificuldades como mãe, alegando falta de amor pelos filhos. Como se o amor pudesse ser categorizado ou fosse mais essencial do que a vida ter vencido. Afinal se alguém reclama da mãe é porque nasceu dela com todo sangue, dor e expectativas sociais sobre ela.


Na tese eu tentaria provar meu pressuposto: de que este caminho que chamam de vazio sombrio por conta da relação com a mãe “incapaz de amar” os filhos é um terreno fértil para ser conhecido e de lá renascer mais inteira.


Ia falar, como falou Liz Greene, da mer, mar, mor, raízes indo-europeias que significam morrer, mas também mors que é sorte, e é raiz de Moira, destino, aquilo que rege o mundo da matéria e tece o caminho para nossa morte. A mãe. Se a gente nasceu, a morte veio junto como destino. Existe vazio mais tenebroso do que o rosto de nossa morte, mas a mãe é que é tóxica, sei?!


E ia falar de como a Lilith foi excluída, porque desafiou tudo o que se esperava da mulher. E de como viramos a cara para tudo o que não entendemos, culpando e chamando a mãe de sei lá o quê.


Não que algumas mães não sejam terríveis mesmo, mas se estamos vivos, que presente ela nos deu naquela zona tenebrosa do desamor?




E eu, de cabeça baixa, bem baixa em reverência, ia falar de Eresquigal. Me dá até medo escrever este nome da deusa das profundezas mais assustadoras da Pisque Humana. O Reino dela, como diz Liz Greene, possui sete portões e uma estaca para pendurar o visitante. Estas suas paisagens são subjetivas e nos levam para os humores, sentimentos, sonhos e fantasias (1985:47). E nestas grutas, onde nossa subjetividade está fazendo depósitos, estão também todas as fendas que irão nos buscar em forma de angústias, nos levando até o mais fundo, mas não até o Último.


Sim, dizem os mestres, a gente pode chegar até Deus pelo caminho da bem-aventurança ou pela ponta afiada da amargura.


Eresquigal representa um arquétipo da psique humana que pode ser  vivido com certo treinamento. O gosto acrimonioso tem o dom de curar o coração doído. O mesmo que sentiu a falta de amor ainda muito pequeno. Mas temos que reverenciar ela antes de conseguir este unguento. E aceitar, sem julgar, que às vezes é impossível ficar muito perto.


E finalmente eu escreveria algo sobre aquele filme "Águas Rasas": 

Uma surfista vai para uma praia deserta e paradisíaca, a mesma em que a mãe esteve quando estava grávida dela. De repente a heroína é atacada por um tubarão vingativo que comia uma baleia morta.


Ah o ventre paradisíaco da mulher que engravida e não sabe se será capaz de cuidar dos seus filhos, mantendo-os vivos. Que feras assombram quem tem medo de morrer no parto, portal da vida, irmã gêmea da morte? Que sonhos uma mãe tem que adiar ou até matar para poder gerar uma vida?
E que mal tem para um filho aceitar este sacrifício sem se sentir vítima disso? 

É claro que uma mãe pode usar isso como chantagem emocional e vai ser muio difícil se soltar desta armadilha, mas quando conseguir...


Voltando aos símbolos do filme, que monstros a surfista encontrou naquele Mar, Mer, Mor? A baleia, símbolo da boa mãe, morta e o tubarão, símbolo da mãe tóxica, vivo. Será que ela vai vencê-los, tal como vencerá a mãe tóxica que a assombra nos livros de psicologia e em seus devaneios mais ofensivos que negam a sua própria sombra?


Se sair viva da luta contra o tubarão, como nasceu de sua mãe aterrorizada, que filha será essa? E como ela falará de sua mãe depois disso? Será que continuará a chama-la de mãe tóxica ou a confundi-la com a Deusa do submundo que a fortaleceu para vencer a escuridão?


Como me disse Susan Andrews, num quarto, às 2 horas da manhã, depois de um dia com mortes e sofrimento: “a vida foi feita para fortalecer a gente para realizar o infinito”.


Mas eu não vou escrever esta tese. Quem sabe eu escreva um livro chamado Rochedos e a Sereia. Nele o mar não será fácil, muito menos a rabo-de-peixe.





11 de mai. de 2017

56) O Círculo Fascista - jogos de poder nas relações



Ilustração de RamsesMorales Izquierdo
 Stockholm Syndrome


         O "Círculo fascista" é um jogo transacional que uma pessoa, família ou grupo faz para que uma outra pessoa (ou grupo) se sinta subjugada pelo jogador. 

        Na maioria das vezes, a vítima deste jogo se sente – é levada a se sentir como -  a louca ou o problema da família, ou da empresa, ou do grupo. E assim, o verdadeiro problema fica encoberto. 

        Geralmente o jogador que "arma" o círculo fascista consegue angariar a família toda, ou muitas pessoas para pensar como ele. 

Como?

        Desestabilizando quem ele quer atacar até a loucura e levando os outros a fazerem o mesmo jogo com a vítima, sem se tocarem que são cúmplices.  

        Por exemplo, o jogador pode assediar moralmente ou sexualmente um empregado, no mundo do trabalho, mas ninguém vê os abusos. Um dia, implica com a vítima na frente de todas as pessoas até ela estourar. E então ele diz: 

- Viram? É meio desequilibrada! Parece louca! 

Ou nem precisa falar nada, porque fica parecendo que a pessoa é louca, raivosa ou abusiva mesmo. 

        Quando a pessoa atacada por baixo dos panos for buscar ajuda, dizendo o que está acontecendo por trás da cena, a maioria não vai acreditar nela e dirá: "Mas será mesmo? Ela é meio desequilibrada, né? raivosa. temperamento difícil. Não sei se posso confiar no que ela está relatando." 

        Se for em casa, com sua família, é mais difícil ainda. Um pai ou mãe abusadores podem atacar a criança o tempo todo, sem o outro genitor e irmãos verem. Ou pode jogar um dos pais contra o filho e o filho contra o pai, criando a maior briga entre eles. Um dia fará algo na frente de todos os familiares, levando a criança à loucura, que gritará e perderá o juízo. Então o jogador do círculo fascista dirá: 

        - Não aguento mais esta filha malcriada! 

    Este jogador, nem se toca que está falando dele mesmo, porque quem cria um malcriado são os adultos que os xingam. E complementam: 

    - Parece louca! Vai para o castigo!  

    Nas lutas políticas desleais acontece o mesmo. Um grupo cria inimigos chamando aquele que luta contra o racismo, por exemplo, de terrorista, como aconteceu com o Mandela, preso por quase 30 anos por lutar pelos direitos do povo do seu país. 

    Aqui no Brasil tiram até a dignidade humana das pessoas, quando dizem que aquela pessoa morta na guerra contra as drogas era traficante e, por isso, não importa se foi assassinada.  

    Isto aconteceu com o pedreiro Amarildo, que não era traficante, mas tentaram fazer a população acreditar neste "inimigo criado" encobrindo uma política de extermínio de pobres e negros num país de maioria pobre e negra. 

    O Movimento sem Terra também é noticiado como o agressor. Nas imagens televisionadas eles estão com suas foices bem visíveis e a polícia com seus fuzis e arsenal de guerra, ou os capangas pagos para exterminá-los, bem invisíveis. Não aparecem nas imagens. E não estou falando mal da polícia, que é usada como braço de uma classe que a treina para servir a seus interesses e não ao da população como um todo. 

        Tentar sair do círculo fascista não é fácil e não se consegue, até entender como ele acontece. Isto porque toda família vai acreditar no jogador "fascista", uma vez que ninguém vê o assédio que o pai ou mãe faz com a criança. E na vida coletiva, também, não conseguimos ver o jogo, porque o noticiário que quer proteger uma dada classe, vai contar uma versão dos fatos onde a vítima vira o agressor. E o agressor a vítima. Assim, a mídia pode envenenar todo o seu público contra quem deveria ser protegido. 

    No trabalho, a mesma coisa: a mulher assediada sexualmente, por exemplo, é a que deu algum mole ou é a desequilibrada, porque o assédio nunca é na frente das pessoas. E o machismo corrobora para que coloquemos a mulher como a culpada. O assédio moral também, mas ele, às vezes, aparece na frente do grupo que pode se unir e indicar a agressão com mais facilidade.        

        A vítima, geralmente, chega a um ponto onde pode reagir com violência ou se desequilibrar emocionalmente, uma vez que a meta deste jogo transacional é justamente esse: fazer a vítima perder o seu centro e virar "agressora" (por que não vemos que foi atacada e está se defendendo).

        E, assim, reafirma o controle do algoz sobre ela, sem que ninguém - nem ela mesma - perceba a manobra. A manobra é mostrar que ela é a desequilibrada e, portanto, não pode ser levada a sério em suas justas reivindicações e, finalmente, torna o algoz invisível diante da "loucura ou justa raiva evidenciada". 

Outro dia, em 2015, eu estava em um restaurante e testemunhei o jogo em uma mesa ao lado da minha, misturado com a guerra política que estávamos atravessando. A filha disse: 

 - Ela perdeu o olho, coitada!

 - Também, quem mandou ir à passeata?! 

Disse a mãe.

    - Teu filho foi à passeata dos verde e amarelos, e ninguém foi atacado. 

Disse a filha.

    - Mas era uma passeata organizada, gente de bem que não estraga o patrimônio público. 

Refutou a mãe.

    - Ah, jura, mãe? Eu fui nas outras passeatas e não estragamos o patrimônio público. Mas fomos atacados assim mesmo. Os fogos, gás e água eram da polícia. E um olho vale mais do que qualquer patrimônio público, não acha?

        - Viu só! Vocês são uns vândalos! Estragam as coisas. Fazem greve em dia de trabalho, um horror! 

A conversa foi para temáticas políticas, usada para falar o que não podiam das suas relações mãe e filha. Até que a mãe falou para sua filha:

 - Você é vagabunda também! 

          Esta era a armadilha para a filha ficar histérica e raivosa, mas ela disse: 

        - Mãe, eu te amo! E não, você não vai conseguir me fazer me sentir uma merda.  

- Louca, louca, louca! 

Dizia a mãe. O Pai chega do banheiro: 

- O que você fez, menina?! Tá deixando sua mãe enfurecida novamente?! Nunca vai aprender? 

 - Eu não fiz nada, pai. 

 A Mãe fala com carinho: 

- Deixa, amor. É coisa de mãe e filha. 

 Mas o pai já estava indisposto com a filha e nunca iria saber o que aconteceu nos bastidores, afinal o rosto, de repente, cheio de compreensão magnânima da mãe escondia os dentes que tentavam rasgar a sanidade da filha, agora confusa.

  A filha também ficou mal por conta da atitude do pai que só escutou a versão da mãe (louca, louca, louca) e, por isso, se afastou dele se aproximando da mãe que a atacou até antes do pai chegar. Seu rosto ficou pálido e cheio de culpa. Acho que ela pensava: "Será que eu sou louca mesmo?" 

Imagino que o que a filha queria dizer era: 

 - Mãe, eu te amo! E não, você não vai conseguir me fazer me sentir uma merda para que eu acredite que não valho nada e você continue a viver simbioticamente através de mim.

       E em relação ao pai...a filha terá que fazer análise para entender que ele e ela não são inimigos e que o pai não é um tosco. Eles são manobrados pelo jogo que a mãe faz (sem ter consciência), para que eles se indisponham e a filha nunca se emancipe dela, a mãe jogadora. Muitos filhos neste jogo não conseguem se sustentar, porque o mandato por trás é: "você não serve para nada, só para cuidar de mim." 

          A mãe (e podia ser o pai, ou o marido, ou a esposa, ou o chefe etc.) joga o pai e a filha um contra o outro, sem que os três tenham consciência disso. E não adianta exigir que o pai - um adulto - saiba como defender a filha, ele não vê o que acontece por trás das costas dele. Nem a filha tem consciência do porquê o pai a ataca, ela foi criada para pensar que é a louca, desequilibrada e difícil da família e  "provou" isto várias vezes se alterando na frente de todos, graças ao jogo por baixo dos panos. 

        E o pai, possivelmente, foi atacado por esta mãe, fazendo a filha não acreditar nele.  

        Vemos a mesma situação quando dois grupos se digladiam por conta de um círculo fascista que os lançou uns contra os outros para que não vejam o real problema. Neste caso, a armação é mais consciente, mas ainda tem um componente perverso atuando no nível do inconsciente coletivo. 

        O jogador do círculo fascista pode ser um pai também, mas o exemplo que testemunhei foi este. E pode ser um chefe, uma liderança, uma esposa, um marido, ou um grupo atacando outro grupo em situação de vulnerabilidade. Tem que haver uma relação de poder para o jogo acontecer. 

        A questão é: como sair dele? Como conseguiu a moça até que o pai fosse envolvido.

        Não se deixar manipular até a loucura e, portanto, não cair na raiva ou no ódio, ou naquela pergunta: “por que isto está acontecendo comigo? O que eu fiz para merecer tamanho tormento?”  Ou afirmar para si mesmo que "é uma pessoa difícil mesmo." 

        Um animal ferido não fica com raiva e nem fica se perguntando o porquê do ataque e quem o atacou. Assim, ele pode usar toda a sua energia para se salvar e buscar a ajuda que precisa.  

        E, claro, existe mais orientações de como sair desta emboscada, mas o melhor caminho é buscar ajuda com um bom psicanalista, se for um jogo que acontece na família.  

        Este texto era para falar um pouco sobre o círculo fascista e como ele atua, afinal é um jogo e não um destino de vida, então qualquer pessoa  pode sair dele, parando de jogá-lo quando o entende, sem destruir as relações familiares.

 

  

 

  

 

  


20 de mar. de 2017

55) Rapunzel e o Poder Materno




O aniversário astrológico de 2017 aqui no Brasil começou hoje, 20 de março às 7:17 da manhã, 0 graus de Áries, signo regido por marte e que rege, arquetipicamente, o ascendente calculado pela hora do nascimento.

Hoje também começa um período de 36 anos da regência de Saturno. O limite entre o ego, o Self e o mundo. Lembrando que o Self é si mesmo: centro ordenador do psiquismo e que é representado pelo Sol.

O Sol, por falar nisso, estava nos regendo anteriormente, elevando nossa consciência para o centro do coração. Aqui no meio do peito, onde apontamos para dizer eu! Chegamos assim até a era do self, fotos nas redes sociais comprovando os 15 minutos de fama em números de curtidas. E também na era de novos protagonismos – Sol – e suas sombras.

O que quer dizer que milhares de Africanos, por exemplo, não têm mais acesso à terra para cultivarem suas plantações, enquanto nossos computadores e Smartphones têm a cassiterita e o tungstênio dela, privatizada a sangue. Os commons digitais destroem os commons da natureza e dos povos que vivem em harmonia com ela sem a gente nem saber.


Esta força que abre os portais, como os aríetes forçavam as fronteiras, e este limite de Saturno que diz até onde deveríamos ir, podem ser encontrados em várias situações da vida, mas a que mais profundamente afeta o humano é quando a mãe começa as contrações. Os primeiros movimentos do corpo para colocar o filho/a no mundo não são os únicos. Antes, ela já mudou toda a sua vida para cuidar, amamentar, deixar de dormir para manter seu filho/a vivo, amado e com saúde até que possa enfrentar a vida com mais autonomia.

Ela também dará a mão para ele/a começar a dar os primeiros passos, e se for sábia, fará isso, nesta época, levando o/a filho/a em direção ao pai que, se for sábio, estará lá para este encontro. E depois eles continuarão a prepara-lo/a para o mundo.

Dar à Luz tem a ver com o Sol em relação ao Ascendente, mas empurrar o filho para o nascimento, depois para o pai e, então, com ele para o mundo tem a ver com Marte e com Áries, que estão a serviço de todos. Em algumas pessoas com Sol, Lua e Ascendente em Áries, estão como destino.

Ter autonomia e poder estar em relação ao mundo com potência, tem a ver com os desafios que Saturno – e tudo o que possa ser limite e preparação - porá em nossa vida. E como decidimos e poderemos enfrenta-los.  Toda a discussão entre mais ou menos Estado regulando o mercado, por exemplo, tem a ver, simbolicamente, com os limites de Saturno.

Em homenagem à força que marca os nascimentos, ao aniversário astrológico de 2017 e ao novo ciclo de 36 anos de Saturno - senhor do Tempo e professor exigente -, quero falar sobre os dois lados do Poder Materno no conto Rapunzel. Especificamente como eles aparecem no desenho animado “Enrolados”.

No próprio título em português e em inglês, Tangled (emaranhado), já temos uma pista de como é difícil se desvencilhar da mãe, quando o poder sobre os seus filhos, que a princípio serviria para mantê-los vivos no início de suas vidas, é desvirtuado para iludir a morte.

E como a filha compactua com isso, com o pensamento mágico de uma criança  que acredita poder salvá-la de seu destino.



RAPUNZEL E O PODER MATERNO

Bert Hellinger, criador das Constelações Familiares, fala que:

 “O poder que os pais percebem ter sobre os filhos – e, sobretudo, as mães o sentem de uma forma particularmente profunda, na medida em que vivem tanto tempo em simbiose com eles – deve ser vivenciado como uma missão. Não como um poder pessoal, mas como um poder temporário, a serviço da criança. ”

No desenho animado Enrolados (tem spoiler), Rapunzel, com 18 anos, vive com a sua mãe em uma torre, sendo alertada de todos os perigos e decepções que o mundo lá de fora pode oferecer se ela pensar em sair de lá. Seu cabelo longo dourado, que nunca foi cortado, é a fonte de juventude de sua genetriz.


Mesmo assim ela sonha com o Sol, com os horizontes, com as viagens de descobrimento e este anseio se torna realidade quando um bandido sedutor, Flynn, sobe a torre e tenta roubar a moça. Com uma frigideirada certeira, Rapunzel não só escapa do assalto como faz o moço ajudá-la a sair de lá para conhecer o mundo.


Quando a sua mãe descobre o que aconteceu, contrata dois capangas, (ex) parceiros do rapaz, que agora já está enamorado da heroína, para assustá-la e trazê-la de volta para a Torre. Nesta armadilha, a mãe faz com que Rapunzel se decepcione com Flynn, comprovando o que disse a vida inteira: “o mundo de fora só tem sofrimentos e decepções. Fique com a mamãe que é mais seguro!”

E o conto continua com a reconciliação e a nova fuga do casal, perseguição dos capangas, fúria da mãe, a polícia do vilarejo perseguindo Flynn e outras aventuras, revelando para Rapunzel que aquelas lanternas que ela via no céu todos os anos, da janela de sua masmorra na mesma data do seu aniversário, era a tentativa dos Rei e da Rainha acharem a sua filha perdida, que tinha cabelos dourados.



Rapunzel também descobre que fora raptada por uma bruxa, que até então pensava ser a sua mãe. Esta se mantinha jovem graças aos longos cabelos da moça, verdadeira filha do casal real.

Se uma pessoa chega no seminário HISTÓRIAS QUE ATUAM – Constelação Familiar e Contos de Fada – e me diz que seu conto predileto é a Rapunzel, tentaremos saber se houve alguma adoção na família e qual a relação da pessoa com a sua mãe e o pai.

Mas aqui, quero ressaltar O QUE É A BRUXA, A RAINHA, O REI, FLYNN E RAPUNZEL, e como DEIXAR DE FICAR ENROLADO.

A Bruxa pode ser compreendida como o poder materno que deveria ser usado como missão durante um tempo, mas é desvirtuado para manter o/a filho preso. Este poder cega a mãe em relação à criança. Só o seu desejo de ser mãe e de se manter jovem, porque tem alguém para estar ao seu lado e projetar seus anseios, existem para ela que vive da energia da/o filha como fazia a Bruxa com os cabelos solares de Rapunzel.

Pode ser também um pai bruxo, com o seu poder (mal) canalizado para manter seus filhos seguindo os anseios, sonhos e desejos dele.

Rapunzel só consegue romper esta ligação simbiótica com a mãe depois de muitas lutas e com a própria bruxa colocando a vida do Flynn em risco.  Mas ele ainda consegue cortar os cabelos da namorada, que, finalmente, retorna aos seus pais verdadeiros.

Em outras palavras, quando a gente para de se relacionar e alimentar o lado nefasto do poder materno mal aplicado, conseguimos um pai e uma mãe de verdade e não só um vínculo doído com o lado sombrio deste poder. E claro, o anseio por ser livre e ter uma relação boa com os pais só pode ser encarado como bandido (Flynn) pela bruxa.




Enquanto o vínculo for vivenciado como a prisão sugadora da juventude e sonhos dos filhos, não têm como querer ter outro tipo de ligação com ninguém. Primeiro porque não tem espaço para isso e segundo porque a lembrança do sofrimento desta ligação tão estreita não vai permitir que ninguém mais se aproxime. 


Mãe ou o pai que vive os sonhos dos filhos como se fossem os deles ou impõem seus sonhos sobre os filhos, atuam como a bruxa da Rapunzel. Filhos ou filhas que têm medo de sair para a vida e também de deixar seus pais passarem por esta fase de separação, agem como a Rapunzel. 

Portanto, algumas mães e pais mantém esta ligação com chantagens, criticando e gerando medos do mundo em seus filhos/as. E os/as filhos/as aceitam este domínio porque sentem em sua carne o medo dos pais pela própria finitude da vida. Farão qualquer coisa pelos pais, como se tivessem o poder de salvá-los. Como se fossem Deus.

Ainda não tiveram coragem de aceitar, como Hellinger diz, que o amor é impotente diante do destino daqueles que amamos. Ficam como a mãe e a filha na torre de Rapunzel, projetando uma na outra seus medos, anseios, forças e fraquezas. A filha nunca achará que dará conta de se casar, ser mãe, ter seu dinheiro, ser feliz em uma vocação. Toda esta potência criativa estará projetada na mãe, mas ainda assim a filha terá a ilusão de ser o Deus que pode salvar vidas.  E a mãe sempre se achará forte, poderosa e jovem com um futuro a sua espera, afinal a sua filha e todo futuro dela é um apêndice seu.

Só quando o jovem adulto aceita que não pode salvar seus pais é que poderá se libertar do poder opressivo da mãe bruxa ou do pai bruxo e, enfim, construir uma relação com o Rei e a Rainha – pai e mãe verdadeiros.

Mas a saída também é 1) ter o pai e é 2) ir para o pai. Dois movimentos: do/a filho/a para o pai e do pai para o filho.

1)    A filha tem que construir o caminho para o pai como a "apenas filha" e não como mãe, esposa, namorada ou juiz do pai. E no caso do filho, ele também constrói um caminho para o pai não como pai dele, não como namorado da mãe que disputa com o pai a mulher, nem como médico ou professor do pai.

Os/as filhos/as terão que fazer este caminho sem mapa, sem modelos pre-estabelecidos. E não serve dizer que “o meu pai é fechado, não se abre com a gente”. Você não é terapeuta dele.

2)    E o pai, que não vai em direção ao filho/a porque sempre esteve lá até seu filho/a se tocar disso, tem que estar presente para eles/as. Aqui temos também um problema. Muitos pais ainda não se tocaram da importância da presença deles no corte da simbiose mãe e filho. E quando se tocam, alguns ainda tentam fazer isso desprezando algumas características da mãe ou até atacando. Na verdade, usam este precedente para brigar com a esposa ou ex-mulher. Isso já é outro mito, o da "Sêmele, Hera e Zeus" com seu triângulo amoroso. 

Aí o pai fala assim, por exemplo:

“Eu quero me aproximar de você minha filha, mas você tá ficando que nem a sua mãe, materialista...blá, blá, blá”.

Em uma frase, disfarçado de ajuda para a filha, ele ataca a mãe no corpo da adolescente. Olha o triângulo se tatuando aí.

É direito da sua filha e do seu filho ser igual à mãe ou ao pai se eles quiserem!

Ninguém nasce do pai e da mãe errados! Todos têm algo para aprender com os pais e mães de onde receberam a vida. Imitá-los/as é importante para a própria alma ou é sistêmico: fazem isso porque sentem a rejeição do outro pai ou mãe e querem incluir o excluído imitando. E fazem isso também para ter a salvo os pais unidos no coração, alicerce da autoestima. Sim, esta propensão mental está no centro do coração, como falei lá em cima na introdução.

No desenho Enrolados, este pai não existe nos termos que descrevi, mas existe como o Rei, o que já é uma dica: se você tem um laço simbiótico nocivo com o poder materno distorcido e continua com medo e pena de deixar a "bruxa" sem a sua juventude, você não tem pai, mãe e nem a sua vida. Mas quando conseguir "cortas os cabelos" (simbióticos) poderá ter os dois. E até relacionamentos.

Flynn, na perspectiva junguiana, é o animus da Rapunzel. Aquele arquétipo inconsciente que vai mobilizá-la a construir um caminho para o pai e a vida. Este anseio sofrerá investidas de destruição da mãe/bruxa, como no filme aparecem os capangas atacando o rapaz.

Carregamos estas outras “entidades” dentro da gente, quando as chantagens, medos e críticas que nossos pais fizeram para nos prender na torre começam a fazer parte dos nossos pensamentos.

Quem já sonhou com bandidos perseguindo o sonhador sabe do que estou falando. Eles são a gente se criticando, se censurando no dia anterior ao sonho por querer estudar fora, fazer um teste para uma peça de teatro ou em ligar para o boy magia. 

Mas nada disso é resolvido lambendo as feridas das críticas e opressões desmedidas dos nossos pais. A saída é usar isso como pesos numa academia de ginástica. Fazer as dificuldades trabalhar para você. Pai e mãe tiveram o maior gasto de energia para nos dar esta carga. Agora usamos isso a nosso favor.

Não me refiro às opressões que chegam a aniquilar os filhos. Estas são de fato muito danosas. Mas na maioria das vezes, se a gente deixa de querer ser Deus para salvar os pais, se tivermos coragem de enfrentar a bruxa construindo o caminho para o pai (sem julgá-lo), e se o pai estiver lá para gente, sem brigar com a nossa mãe, uma força incrível surge para nos tirar da torre em direção ao nosso destino.

Às vezes, só o que teremos é o "Flynn" nos empurrando para frente ou então contamos com aliados poderosos, como um bom psicanalista ou uma experiência com a Constelação Familiar. 

Florais como o CHICORY + CENTAURY + WALNUT + HELIANTHUS (MINAS) auxiliam também.  

E só mais uma dica: por favor, não atrapalhar a Rapunzel dizendo como o pai e a mãe dela deveriam ser para ela poder se libertar da Bruxa da Torre. Ela não tem tempo, como Saturno a ensinou, para ficar desejando pais e um passado diferentes.  Os que ela teve, até o desafio de viver com a Bruxa, são os certos para ela. Lhe deram força e um destino especial, só dela. E então, pela primeira vez, o reino estará completo com pai e mãe e um futuro pela frente.

  








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