20 de mar de 2017

55) Rapunzel e o Poder Materno




O aniversário astrológico de 2017 aqui no Brasil começou hoje, 20 de março às 7:17 da manhã, 0 graus de Áries, signo regido por marte e que rege, arquetipicamente, o ascendente calculado pela hora do nascimento.

Hoje também começa um período de 36 anos da regência de Saturno. O limite entre o ego, o Self e o mundo. Lembrando que o Self é si mesmo: centro ordenador do psiquismo e que é representado pelo Sol.

O Sol, por falar nisso, estava nos regendo anteriormente, elevando nossa consciência para o centro do coração. Aqui no meio do peito, onde apontamos para dizer eu! Chegamos assim até a era do self, fotos nas redes sociais comprovando os 15 minutos de fama em números de curtidas. E também na era de novos protagonismos – Sol – e suas sombras.

O que quer dizer que milhares de Africanos, por exemplo, não têm mais acesso à terra para cultivarem suas plantações, enquanto nossos computadores e Smartphones têm a cassiterita e o tungstênio dela, privatizada a sangue. Os commons digitais destroem os commons da natureza e dos povos que vivem em harmonia com ela sem a gente nem saber.


Esta força que abre os portais, como os aríetes forçavam as fronteiras, e este limite de Saturno que diz até onde deveríamos ir, podem ser encontrados em várias situações da vida, mas a que mais profundamente afeta o humano é quando a mãe começa as contrações. Os primeiros movimentos do corpo para colocar o filho/a no mundo não são os únicos. Antes, ela já mudou toda a sua vida para cuidar, amamentar, deixar de dormir para manter seu filho/a vivo, amado e com saúde até que possa enfrentar a vida com mais autonomia.

Ela também dará a mão para ele/a começar a dar os primeiros passos, e se for sábia, fará isso, nesta época, levando o/a filho/a em direção ao pai que, se for sábio, estará lá para este encontro. E depois eles continuarão a prepara-lo/a para o mundo.

Dar à Luz tem a ver com o Sol em relação ao Ascendente, mas empurrar o filho para o nascimento, depois para o pai e, então, com ele para o mundo tem a ver com Marte e com Áries, que estão a serviço de todos. Em algumas pessoas com Sol, Lua e Ascendente em Áries, estão como destino.

Ter autonomia e poder estar em relação ao mundo com potência, tem a ver com os desafios que Saturno – e tudo o que possa ser limite e preparação - porá em nossa vida. E como decidimos e poderemos enfrenta-los.  Toda a discussão entre mais ou menos Estado regulando o mercado, por exemplo, tem a ver, simbolicamente, com os limites de Saturno.

Em homenagem à força que marca os nascimentos, ao aniversário astrológico de 2017 e ao novo ciclo de 36 anos de Saturno - senhor do Tempo e professor exigente -, quero falar sobre os dois lados do Poder Materno no conto Rapunzel. Especificamente como eles aparecem no desenho animado “Enrolados”.

No próprio título em português e em inglês, Tangled (emaranhado), já temos uma pista de como é difícil se desvencilhar da mãe, quando o poder sobre os seus filhos, que a princípio serviria para mantê-los vivos no início de suas vidas, é desvirtuado para iludir a morte.

E como a filha compactua com isso, com o pensamento mágico de uma criança  que acredita poder salvá-la de seu destino.



RAPUNZEL E O PODER MATERNO

Bert Hellinger, criador das Constelações Familiares, fala que:

 “O poder que os pais percebem ter sobre os filhos – e, sobretudo, as mães o sentem de uma forma particularmente profunda, na medida em que vivem tanto tempo em simbiose com eles – deve ser vivenciado como uma missão. Não como um poder pessoal, mas como um poder temporário, a serviço da criança. ”

No desenho animado Enrolados (tem spoiler), Rapunzel, com 18 anos, vive com a sua mãe em uma torre, sendo alertada de todos os perigos e decepções que o mundo lá de fora pode oferecer se ela pensar em sair de lá. Seu cabelo longo dourado, que nunca foi cortado, é a fonte de juventude de sua genetriz.


Mesmo assim ela sonha com o Sol, com os horizontes, com as viagens de descobrimento e este anseio se torna realidade quando um bandido sedutor, Flynn, sobe a torre e tenta roubar a moça. Com uma frigideirada certeira, Rapunzel não só escapa do assalto como faz o moço ajudá-la a sair de lá para conhecer o mundo.


Quando a sua mãe descobre o que aconteceu, contrata dois capangas, (ex) parceiros do rapaz, que agora já está enamorado da heroína, para assustá-la e trazê-la de volta para a Torre. Nesta armadilha, a mãe faz com que Rapunzel se decepcione com Flynn, comprovando o que disse a vida inteira: “o mundo de fora só tem sofrimentos e decepções. Fique com a mamãe que é mais seguro!”

E o conto continua com a reconciliação e a nova fuga do casal, perseguição dos capangas, fúria da mãe, a polícia do vilarejo perseguindo Flynn e outras aventuras, revelando para Rapunzel que aquelas lanternas que ela via no céu todos os anos, da janela de sua masmorra na mesma data do seu aniversário, era a tentativa dos Rei e da Rainha acharem a sua filha perdida, que tinha cabelos dourados.



Rapunzel também descobre que fora raptada por uma bruxa, que até então pensava ser a sua mãe. Esta se mantinha jovem graças aos longos cabelos da moça, verdadeira filha do casal real.

Se uma pessoa chega no seminário HISTÓRIAS QUE ATUAM – Constelação Familiar e Contos de Fada – e me diz que seu conto predileto é a Rapunzel, tentaremos saber se houve alguma adoção na família e qual a relação da pessoa com a sua mãe e o pai.

Mas aqui, quero ressaltar O QUE É A BRUXA, A RAINHA, O REI, FLYNN E RAPUNZEL, e como DEIXAR DE FICAR ENROLADO.

A Bruxa pode ser compreendida como o poder materno que deveria ser usado como missão durante um tempo, mas é desvirtuado para manter o/a filho preso. Este poder cega a mãe em relação à criança. Só o seu desejo de ser mãe e de se manter jovem, porque tem alguém para estar ao seu lado e projetar seus anseios, existem para ela que vive da energia da/o filha como fazia a Bruxa com os cabelos solares de Rapunzel.

Pode ser também um pai bruxo, com o seu poder (mal) canalizado para manter seus filhos seguindo os anseios, sonhos e desejos dele.

Rapunzel só consegue romper esta ligação simbiótica com a mãe depois de muitas lutas e com a própria bruxa colocando a vida do Flynn em risco.  Mas ele ainda consegue cortar os cabelos da namorada, que, finalmente, retorna aos seus pais verdadeiros.

Em outras palavras, quando a gente para de se relacionar e alimentar o lado nefasto do poder materno mal aplicado, conseguimos um pai e uma mãe de verdade e não só um vínculo doído com o lado sombrio deste poder. E claro, o anseio por ser livre e ter uma relação boa com os pais só pode ser encarado como bandido (Flynn) pela bruxa.




Enquanto o vínculo for vivenciado como a prisão sugadora da juventude e sonhos dos filhos, não têm como querer ter outro tipo de ligação com ninguém. Primeiro porque não tem espaço para isso e segundo porque a lembrança do sofrimento desta ligação tão estreita não vai permitir que ninguém mais se aproxime. 


Mãe ou o pai que vive os sonhos dos filhos como se fossem os deles ou impõem seus sonhos sobre os filhos, atuam como a bruxa da Rapunzel. Filhos ou filhas que têm medo de sair para a vida e também de deixar seus pais passarem por esta fase de separação, agem como a Rapunzel. 

Portanto, algumas mães e pais mantém esta ligação com chantagens, criticando e gerando medos do mundo em seus filhos/as. E os/as filhos/as aceitam este domínio porque sentem em sua carne o medo dos pais pela própria finitude da vida. Farão qualquer coisa pelos pais, como se tivessem o poder de salvá-los. Como se fossem Deus.

Ainda não tiveram coragem de aceitar, como Hellinger diz, que o amor é impotente diante do destino daqueles que amamos. Ficam como a mãe e a filha na torre de Rapunzel, projetando uma na outra seus medos, anseios, forças e fraquezas. A filha nunca achará que dará conta de se casar, ser mãe, ter seu dinheiro, ser feliz em uma vocação. Toda esta potência criativa estará projetada na mãe, mas ainda assim a filha terá a ilusão de ser o Deus que pode salvar vidas.  E a mãe sempre se achará forte, poderosa e jovem com um futuro a sua espera, afinal a sua filha e todo futuro dela é um apêndice seu.

Só quando o jovem adulto aceita que não pode salvar seus pais é que poderá se libertar do poder opressivo da mãe bruxa ou do pai bruxo e, enfim, construir uma relação com o Rei e a Rainha – pai e mãe verdadeiros.

Mas a saída também é 1) ter o pai e é 2) ir para o pai. Dois movimentos: do/a filho/a para o pai e do pai para o filho.

1)    A filha tem que construir o caminho para o pai como a "apenas filha" e não como mãe, esposa, namorada ou juiz do pai. E no caso do filho, ele também constrói um caminho para o pai não como pai dele, não como namorado da mãe que disputa com o pai a mulher, nem como médico ou professor do pai.

Os/as filhos/as terão que fazer este caminho sem mapa, sem modelos pre-estabelecidos. E não serve dizer que “o meu pai é fechado, não se abre com a gente”. Você não é terapeuta dele.

2)    E o pai, que não vai em direção ao filho/a porque sempre esteve lá até seu filho/a se tocar disso, tem que estar presente para eles/as. Aqui temos também um problema. Muitos pais ainda não se tocaram da importância da presença deles no corte da simbiose mãe e filho. E quando se tocam, alguns ainda tentam fazer isso desprezando algumas características da mãe ou até atacando. Na verdade, usam este precedente para brigar com a esposa ou ex-mulher. Isso já é outro mito, o da "Sêmele, Hera e Zeus" com seu triângulo amoroso. 

Aí o pai fala assim, por exemplo:

“Eu quero me aproximar de você minha filha, mas você tá ficando que nem a sua mãe, materialista...blá, blá, blá”.

Em uma frase, disfarçado de ajuda para a filha, ele ataca a mãe no corpo da adolescente. Olha o triângulo se tatuando aí.

É direito da sua filha e do seu filho ser igual à mãe ou ao pai se eles quiserem!

Ninguém nasce do pai e da mãe errados! Todos têm algo para aprender com os pais e mães de onde receberam a vida. Imitá-los/as é importante para a própria alma ou é sistêmico: fazem isso porque sentem a rejeição do outro pai ou mãe e querem incluir o excluído imitando. E fazem isso também para ter a salvo os pais unidos no coração, alicerce da autoestima. Sim, esta propensão mental está no centro do coração, como falei lá em cima na introdução.

No desenho Enrolados, este pai não existe nos termos que descrevi, mas existe como o Rei, o que já é uma dica: se você tem um laço simbiótico nocivo com o poder materno distorcido e continua com medo e pena de deixar a "bruxa" sem a sua juventude, você não tem pai, mãe e nem a sua vida. Mas quando conseguir "cortas os cabelos" (simbióticos) poderá ter os dois. E até relacionamentos.

Flynn, na perspectiva junguiana, é o animus da Rapunzel. Aquele arquétipo inconsciente que vai mobilizá-la a construir um caminho para o pai e a vida. Este anseio sofrerá investidas de destruição da mãe/bruxa, como no filme aparecem os capangas atacando o rapaz.

Carregamos estas outras “entidades” dentro da gente, quando as chantagens, medos e críticas que nossos pais fizeram para nos prender na torre começam a fazer parte dos nossos pensamentos.

Quem já sonhou com bandidos perseguindo o sonhador sabe do que estou falando. Eles são a gente se criticando, se censurando no dia anterior ao sonho por querer estudar fora, fazer um teste para uma peça de teatro ou em ligar para o boy magia. 

Mas nada disso é resolvido lambendo as feridas das críticas e opressões desmedidas dos nossos pais. A saída é usar isso como pesos numa academia de ginástica. Fazer as dificuldades trabalhar para você. Pai e mãe tiveram o maior gasto de energia para nos dar esta carga. Agora usamos isso a nosso favor.

Não me refiro às opressões que chegam a aniquilar os filhos. Estas são de fato muito danosas. Mas na maioria das vezes, se a gente deixa de querer ser Deus para salvar os pais, se tivermos coragem de enfrentar a bruxa construindo o caminho para o pai (sem julgá-lo), e se o pai estiver lá para gente, sem brigar com a nossa mãe, uma força incrível surge para nos tirar da torre em direção ao nosso destino.

Às vezes, só o que teremos é o "Flynn" nos empurrando para frente ou então contamos com aliados poderosos, como um bom psicanalista ou uma experiência com a Constelação Familiar. 

Florais como o CHICORY + CENTAURY + WALNUT + HELIANTHUS (MINAS) auxiliam também.  

E só mais uma dica: por favor, não atrapalhar a Rapunzel dizendo como o pai e a mãe dela deveriam ser para ela poder se libertar da Bruxa da Torre. Ela não tem tempo, como Saturno a ensinou, para ficar desejando pais e um passado diferentes.  Os que ela teve, até o desafio de viver com a Bruxa, são os certos para ela. Lhe deram força e um destino especial, só dela. E então, pela primeira vez, o reino estará completo com pai e mãe e um futuro pela frente.

  








10 comentários:

  1. Não sei nem o que dizer com esse texto neste exato momento da minha vida. Acho que saí da torre com Flynn e estou em volta de todos os alertas de medo/pedidos de socorro ("ninguém cuida de mim como você") da bruxa. Isso está me minando emocional e fisicamente. Estou resistindo e espero caminhar para ver nascer ali uma relação com a rainha. E o ingrediente diferente da minha vida é que não é com minha mãe, é com minha avó (mãe da minha mãe). Minha mãe viveu algo bem semelhante com ela e acabou dando sua própria vida pra essa relação. Eu mesma pensei em dar a minha própria vida, quando me vi a minha iminente saída da saída da torre.
    Obrigada por compartilhar coisas tão ricas!

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    1. Oi Izabel, muito obrigada por compartilhar tua experiência.
      E se lembra da solução - o pai.
      Abraços!

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  2. Genial. Seus textos são, sempre, muito ricos. De uma sensibilidade e profundidade incríveis. Caiu como uma luva pra mim. Gratidão.

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    1. Oi querida! Muito obrigada! É muito importante sua opinião para mim! Beijos

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  3. Cá estou....A Lembrar de quantas saídas da Torre já fiz e retornei. E nesse momento quase estou retornando a ela outra vez com um Flynn que não desiste e assim me deixo enredar num ninho que mais parece uma armadilha...Vou assistir o filme. Grata por estar no meu caminho com esse Lindo serviço.

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