11 de mai de 2017

56) O Círculo Fascista - jogos de poder nas relações



Ilustração de RamsesMorales Izquierdo
 Stockholm Syndrome


O Círculo fascista é um jogo transacional que uma pessoa, família ou grupo faz para que uma outra pessoa (ou grupo) se sinta subjugada pelo jogador. Na maioria das vezes a vítima deste jogo se sente – é levada a se sentir como - a louca ou o problema da família, ou da empresa, ou do grupo. E assim, o verdadeiro problema fica encoberto.

Geralmente o jogador do círculo fascista consegue angariar a família toda, ou muitas pessoas para pensar como ele.


Como?

Desestabilizando quem ele quer atacar até a loucura e levando outros a fazer o mesmo jogo com a vítima, sem se tocarem que são cúmplices.

Por exemplo, o jogador pode assediar moralmente ou sexualmente um empregado, no mundo do trabalho, mas ninguém vê. Um dia, implica com a vítima em frente a todas as pessoas até ela estourar.

E então ele/a diz:

- Viram? É meio desequilibrada (ou louca).


Ou nem precisa falar nada, porque fica parecendo que a pessoa é louca.

Assim, quando a pessoa atacada for buscar ajuda dizendo o que está acontecendo por trás da cena, a maioria dirá:

"Mas será mesmo? Ela é meio desequilibrada, né? Não sei se posso confiar no que ela está relatando."

Se for em casa é mais difícil ainda. Um pai ou mãe podem atacar a criança o tempo todo, sem o outro genitor e irmãos verem. Um dia fará algo na frente de todos os familiares, levando a criança à loucura, que gritará e perderá o juízo.

Então o jogador do círculo fascista dirá:

- Não aguento mais esta mal criada (mal criado)!

Nem se tocam que estão falando deles mesmo, porque quem cria um mal criado são os adultos que os xingam. E complementam:

- Parece louca/o! Vai para o castigo!

Nas lutas políticas criam inimigos chamando aquele que luta contra o racismo, por exemplo, de terrorista, como aconteceu com o Mandela, preso por quase 30 anos.

Aqui no Brasil tiram até a dignidade humana das pessoas quando dizem que aquela pessoa morta na guerra contra as drogas era traficante e, por isso, não importa se foi assassinada. Isto aconteceu com o pedreiro Amarildo, que não era traficante, mas tentaram fazer a população acreditar neste "inimigo criado" encobrindo um política de extermínio de pobres e negros num país de maioria pobre e negra.

O Movimento sem Terra também é noticiado como o agressor, eles com a foice bem visíveis e a polícia com seus fuzis por trás da cena. E não estou falando mal da polícia, que é usada como braço de uma classe que a treina para servir a seus interesses e não ao da população como um todo.


Tentar sair do círculo fascista não é fácil e não se consegue até entender como ele acontece.

Isto porque toda família vai acreditar no jogador fascista, uma vez que ninguém vê o assédio que o pai ou mãe faz com a criança. Porque o noticiário, que quer proteger uma dada classe, vai contar uma versão dos fatos onde a vítima vira o agressor e assim a mídia pode envenenar todo o seu público contra quem deveria ser protegido.

No trabalho, a mesma coisa: a mulher assediada sexualmente, por exemplo, é a que deu algum mole ou é a desequilibrada, porque o assédio nunca é na frente das pessoas. E o machismo corrobora para que coloquemos a mulher como a culpada. O assédio moral também, mas ele, às vezes, aparece na frente do grupo que pode se unir e indicar a agressão com mais facilidade.

A vítima, geralmente, chega a um ponto onde pode reagir com violência ou se desequilibrando emocionalmente, uma vez que a meta deste jogo transacional é justamente esse: fazer a vítima perder o seu centro e assim reafirmar o controle do algoz sem que ninguém - nem a vítima - perceba a manobra; mostrar que ela é a desequilibrada e, portanto, não pode ser levada a sério em suas justas reivindicações e, finalmente,  tornar o algoz invisível diante da "loucura evidenciada".

Controle este que só traz sofrimento ao jogador, porque pensa que pode controlar algo. A vida continuará a ser um acontecimento incontrolável.

Outro exemplo que aconteceu em uma mesa, ao lado da minha,  num bar onde eu estava em 2015. A filha disse:

- Ela perdeu o olho!

- Também, quem mandou ir à passeata.

- Teu filho foi à passeata dos verde e amarelos que nunca foram repreendidas.

- Mas era uma passeata organizada, gente que não estraga o patrimônio público.

- Ah, jura? Eu fui nas outras passeatas. Nós não estragamos o patrimônio público. Mas fomos atacados assim mesmo. Os fogos, gás e água eram da polícia. E um olho vale mais do que qualquer patrimônio público.

- Viu! Vocês são uns vândalos! Estragam as coisas. Fazem greve em dia de trabalho, um horror!

- Ah, tirar a Dilma sem crime de responsabilidade é o que?

- Ela acabou com o Brasil. Merecia isso mesmo.

E a globo news estava lá, passando nos quatro cantos do bar.

- Quem acabou com o Brasil foi este congresso corrupto.

- O PT é corrupto e quem apoia ele é vagabundo. A passeata do povo brasileiro é outra.

A senhora falava dos verde e amarelos, eu imagino, que saia domingo e não em dia de trabalho.

- E nós saímos depois do expediente de trabalho, no terceiro turno, e possivelmente estaríamos trabalhando domingo, cuidando das crianças de quem tem final de semana para descansar e não quer ficar cuidando dos filhos que nunca os veem.

- Tem que trabalhar domingo mesmo, já que a Dilma acabou com o Brasil. Vagabundos e sujos.

Se a pessoa que está sendo chamada de vagabunda ou suja começasse a gritar, o que a idônea senhora iria falar?

- Tá vendo, histérica. Vagabunda, suja.

Mas a conversa que testemunhei entre a filha e a mãe acabou assim:

- Mãe, eu te amo! E não, você não vai conseguir me fazer me sentir uma merda. 

- Louca, louca, louca!

O Pai chega do banheiro:

- O que você fez, menina?! Tá deixando sua mãe enfurecida novamente?! Nunca vai aprender?

- Eu não fiz nada, pai.

A Mãe fala com carinho:

- Deixa, amor. É coisa de mãe e filha.

Mas o pai já estava indisposto com a filha e nunca iria saber o que aconteceu nos bastidores, afinal o rosto, de repente, cheio de compreensão magnânima da mãe escondia os dentes que tentavam rasgar a sanidade da filha agora confusa.

A filha também ficou mal por conta da atitude do pai que só escutou a versão da mãe (louca, louca, louca) e, por isso, se afastou dele se aproximando da mãe que a atacou até antes do pai chegar. Seu rosto ficou pálido e cheio de culpa. Acho que ela pensava: "Será que eu sou louca mesmo?"

E imagino que o que a filha queria dizer era: 

- Mãe, eu te amo! E não, você não vai conseguir me fazer me sentir uma merda...para que eu acredite que não valho nada e você continue a viver simbioticamente através de mim.

Na esfera pública seria:

"Não! Nós não somos vândalos nem vagabundos e vocês não vão continuar nos escravizando para viver através da nossa energia nos fazendo nos sentir a escória da humanidade.”

E em relação ao pai...a filha terá que fazer análise para entender que ele e ela não são inimigos e que o pai não é um tosco, mas manobrados pelo círculo fascista que a mãe (sem ter consciência) cria para que eles se indisponham e a filha nunca se emancipe dela, a mãe jogadora. Aqui está um jogo sutil de alienação parental que ninguém vê. 

A mãe com o círculo fascista joga o pai e a filha um contra o outro, sem que os três tenham consciência disso. E não adianta exigir que o pai - um adulto - saiba como defender a filha, ele não vê o que acontece por trás. Ou a filha possa ter consciência do porquê o pai a ataca, ela foi criada para pensar que é a louca da família e  "provou" isto várias vezes se alterando na frente de todos.

Vemos a mesma situação quando dois grupos se digladiam por conta de um círculo fascista que os lançou uns contra os outros para que não vejam o real problema. Neste caso, a armação é mais consciente, mas ainda tem um componente perverso atuando no nível do inconsciente coletivo.

O jogador do círculo fascista pode ser um pai também, mas o exemplo que testemunhei foi este. E pode ser um chefe, uma liderança ou um grupo atacando alguém ou grupo em situação de vulnerabilidade. Tem que haver uma relação de poder para o jogo acontecer.

A questão é: como sair dele?

Como conseguiu a moça até que o pai fosse envolvido.

Não se deixar manipular até a loucura e, portanto, não cair na raiva ou no ódio, ou naquela pergunta: “porque isto está acontecendo comigo? O que eu fiz para merecer tamanho tormento?”

Um animal ferido não fica com raiva e nem perguntando o porquê e quem o atacou. Assim ele pode usar toda a sua energia para se salvar e buscar a ajuda que precisa. 


E claro, existe mais orientações de como sair desta emboscada, mas o melhor caminho é buscar ajuda com um psicanalista, se for um jogo que acontece na família. E este texto era para falar sobre o círculo fascista e como ele atua, afinal é um jogo e não um destino de vida.

  

  


2 comentários:

  1. Maravilhoso texto, como sempre!
    Obrigada por compartilhar seu conhecimento e brilhante visão de mundo conosco.

    Thais

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    1. Oi Thaís! Muito obrigada por ler e comentar aqui! Obrigada pelo incentivo! Abraços

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