15 de nov de 2018

78) Depressão




Quando eu li pela primeira vez que a depressão, segundo as observações do Bert Hellinger nas Constelações Familiares, era, geralmente, a falta de um dos pais, eu não acreditei. Afinal esta sombra que puxa a gente para baixo de uma areia movediça psíquica parecia ser muito mais complexa do que isso. Eu que nem sabia o quanto era complexo caminhar para os pais em algumas situações.

Nesta época, a depressão ainda estava pequena em mim, mas ela me pegou para eu, enfim, mergulhar no que faltava. Durante anos eu tentei, em vão, me curar desta dor como se ela fosse me deixar continuar errando. Então, meu analista me disse, em cinco minutos de entrevista, sem me conhecer, sem a gente saber entraríamos em análise:

- O que você fez com o teu pai?

Eu não vou me alongar aqui para explicar que nascer da mãe e ficar em sua esfera durante anos não nos completa, apesar de ser vital. Nem vou explicar que caminhar para o pai é uma das nossas tarefas heroicas, com muitas barreiras sem forma ideal de acontecer.

Eu só vou me fixar no resultado de 2 semanas de análise: minha depressão de anos acabou! Meu analista me deu a mão e me levou ao meu papai. Me fez ver como eu o desprezei, não o valorizei e o excluí do meu coração. Ele é e sempre foi um pai maravilhoso, mas eu nem via. Tomar a vida que veio dele, então, nem me passava pelo coração.

Claro que houve obstáculos entre nós dois, como sempre há, e erros dele também, que eu nem lembro, mas eu criei um novo caminho, sem ir pela estrada antiga que nos separava. Foi uma rua nova, florida, cheia de sinal para eu nunca mais me perder desta conexão. Quando eu descobri o pai que eu tinha, me senti abençoada! Era como aquelas histórias espirituais, quando o guru tira um véu de nossa vida e vivemos um pouco mais do extraordinário. Nunca mais eu senti depressão.

Tem pessoas que excluem a mãe e deprimem também. Suas vidas ficam paradas, sem saídas e pobres. Às vezes, esta exclusão é porque houve um afastamento de um dos pais muito cedo. A isso chamamos de movimento interrompido. Ele também tem cura: dar o primeiro passo, para dentro da dor, da raiva e do desespero, para a construção de uma nova avenida até o pai ou a mãe excluída do nosso coração.

Pode ser que o pai ou a mãe não correspondam a sua caminhada até eles porque não podem. Estão mortos, ou eles mesmo estão deprimidos, ou ainda cegos por um emaranhamento. Neste caso, você ainda pode tomar a vida que veio deles com amor, todo dia, até que se sinta preenchido. A impossibilidade deles NUNCA É as suas expectativas do que eles deviam ser. Este é o teu problema ou as mentiras que te contaram.

Se você tiver expectativas de como deve ser este encontro, esqueça. Sempre é melhor e nunca é para atender as nossas fantasias de perfeição. E ainda tem mais uma coisa, como disse Mimansa[1]: “nunca é tarde e sempre é a primeira vez.”




[1] Erica Farni, ou Mimansa, é uma alemã residente no Brasil,  facilitadora de Constelação Familiar, Professora da Hellinger Schule que trouxe as Constelações para o Brasil. Ela acompanha os grupos de Bert Hellinger na Alemanha há mais de 30 anos, quando a Constelação ainda estava nascendo.

2 de nov de 2018

77) Portas Místicas para a Reconciliação



“No More Galaxies for Today, Timmy!" by Eugenia Loli

        Qualquer um de nós já foi ferido ou feriu alguém. É muito doloroso ser machucado e machucar outra pessoa sem encontrar uma saída. Dependendo da agressão feita (ou sofrida), podemos atrapalhar muito a vida de uma pessoa por gerações. Como lidar com a dor e a culpa? Como pedir ajuda ao perdão e à reconciliação?

        No século XX, na Índia teve um grande mestre de yoga, Shrii Shrii Anandamurti que recebeu um discípulo pedindo ajuda para salvar o seu filho de uma doença incurável. Este pai, rico, já havia levado o rapaz a vários hospitais de ponta no mundo inteiro. Bába, como era chamado Anandamurti, disse que o único médico que podia ajuda-lo morava em uma cidade pequenina nas redondezas.  Este clínico era um ancião, pobre, que ajudava muita gente. Ao ver o jovem, se compadeceu tanto pelo seu sofrimento e se afeiçoou tanto pelo rapaz, que fez de tudo para curá-lo.

        Depois de algum tempo, o pai muito agradecido voltou para o mestre  e perguntou o que realmente havia acontecido? Por que os outros médicos tinham falhado e ele não? Bába respondeu no estilo daquela sabedoria milenar:

        - Na última vida, seu filho foi patrão do pai deste velho médico. Em dado momento despediu o homem sem nenhuma razão ou compensação pelo trabalho dele. A família passou tanta fome que morreram muitos filhos e o próprio pai do médico, deixando ele ainda criança sob os cuidados de uma mãe despedaçada de dor. Sua revolta foi tão grande que até aquele momento alimentava muito ódio por aquele patrão. Quando o senhor chegou lá com o seu filho, que foi em outra vida o responsável por  tanta desgraça na família dele, os dois puderam ter outra chance. O sofrimento do seu menino despertou a compaixão e o amor do médico. A vontade de o rapaz melhorar fez com que o ódio do seu coração já tivesse sido o suficiente. E a culpa inconsciente do teu filho desde a outra vida pode olhar nos olhos de quem causou tanta dor. Por isso agora ele se curou, ele está bem.

Observamos nas constelações que se responsabilizar por uma ação que causou um dano a alguém não é se culpar ou até atrair uma doença, mas ser capaz de responder e confrontar o conflito para resolvê-lo.  Por exemplo, se olhamos para uma pessoa a quem causamos uma dor e pedirmos perdão, como se ela pudesse tirar de nós o peso das nossas ações, nossa culpa e a dívida com a vítima não vão diminuir.

Ao invés disso, se dissermos de coração (e sem intenções egoístas de sermos perdoados) "eu te causei aquela dor, sinto muito, prometo não fazer de novo e te cuido mais no futuro", assumimos nosso ato, entendemos que causamos uma dor, estamos sentidos com o ocorrido e ainda lançamos a perspectiva de uma ação que compense o dano causado. 

O que geralmente acontece, no entanto, é que muitas vezes a sensação de culpa não consegue mais olhar a vítima e quer se livrar deste sentimento projetando a culpa nos outros ou se punindo inconscientemente, com aquela doença do exemplo acima. 

E por que o perdão da vítima não resolve a culpa e nem diminui a dívida do agressor? Porque pretende tirar dele a possibilidade de se responsabilizar pela solução, que é a nova conduta que compensa o ato e nos leva além. O perdão sem a compensação não reconcilia. Tampouco alivia a vítima do fardo, porque impede o agressor de fazer o que lhe cabe. Como disse Hellinger: 

“o ato de perdoar não funciona como substituto para um confronto necessário. Com isso apenas se encobre e adia o conflito, em vez de resolvê-lo. Os efeitos do perdão são especialmente nocivos quando a vítima absolve o agressor de sua culpa, como se tivesse o direito de fazê-lo. Para que aconteça uma verdadeira reconciliação, a vítima tem não somente o direito, mas também o dever de exigir reparação e compensação e o culpado tem não apenas o dever de assumir as consequências de seus atos, mas também o direito de fazê-lo.” (Hellinger, 2011:22).

A vítima, em sua justa exigência, não deve virar um algoz pior do que seu agressor, se tornando um perseguidor implacável de quem lhe fez mal. Até o ódio justtificável daquele médico cedeu diante do sofrimento humano.

É o que acontece com algumas pessoas traídas, por exemplo, que passam anos da relação punindo seus parceiros/as pela dor que sofreram, mesmo que elas tenham tido a compensação com um “sinto muito” sincero e a promessa e ações concretas do parceiro/a de cuidar da relação com mais zelo e amor. 

Mas sabemos também que na maioria das vezes quem fere ou não assume seus atos ou assume mas não se compromete a compensar o que fez, ou acha que pedir desculpas sinceras é o suficiente. Não é.


        Bert Hellinger conta a história de um casal que buscou ajuda de um terapeuta. A moça havia abandonado o marido e queria voltar para a relação. Mas ela pediu isso sem nenhum compromisso. Sem oferecer nenhuma reparação. 

Ao saber pelo terapeuta que precisava fazer algo de verdade, refletiu, olhou para o parceiro e disse: “Sinto muito o mal que lhe fiz. Por favor, deixe-me ser de novo sua mulher. Eu o amarei, cuidarei de você e, no futuro, você poderá realmente confiar em mim.” (Hellinger, 2011: 22).

        O parceiro se manteve inabalável até o terapeuta confirmar que ele tinha sofrido muito. Só nesta hora ele chorou pela primeira vez. Então o conselheiro lhe disse: “Uma pessoa contra a qual foi cometido tanto mal sente-se no direito de rejeitá-la, como se não precisasse dela. Contudo, contra tal inocência o culpado não tem chances. ” (Hellinger, 2011: 23)

         Ao escutar isso, o homem sorriu para a sua esposa. Ele tinha sido pego em sua inocência imaculada, que não dava chances para mais nada. Se eles voltaram, não ficamos sabendo, mas tiveram uma chance de reconciliar como o médico e o doente.

         Assim, aprendemos que “existe um modo bom de perdoar que preserva a dignidade do culpado e a do agressor. Ele requer que a vítima não faça exigências exageradas e aceite a compensação e a reparação que lhe forem oferecidas pelo ofensor. Sem tal perdão, não existe reconciliação.” (Hellinger, 2011: 22).

Tem também aqueles que manipulam tudo isso que estamos falando. Eles não foram feridos, mas interpretam ou distorcem os atos de outras pessoas como se tivessem sido feridos e ficam perseguindo ou se fazendo de vítima inventando um inimigo. Ou ferem e chamam a vítima de louca, ou se justificam dizendo que tinham o direito de fazer o que bem quisessem. Com relação a estes comportamentos, não há muito o que fazer além de nos mantermos atentos e fortes.


A culpa, o perdão, a reconciliação, as verdadeiras vítimas e os algozes arrependidos aparecem na literatura ocidental desde a peça Oréstia de Ésquilo, escrita há mais de 2.500 anos. Tanto lá como agora, nem o “olho por olho”, nem o ato de perdoar sem um ato de reparação do algoz, equilibraram a balança. A justa e consciente compensação sim. E as portas das graças divinas, que colocaram o algoz doente sob a espada do médico, também!



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Hellinger, Bert. O Amor do Espírito. Goiânia: Atman, 2011


29 de out de 2018

76) Yogapsicologia e as Nossas Propensões Mentais


PR Sarkar - 1979 - Aeroporto de Geneva - foto Donald Acosta

O filósofo e mestre de Tantra Yoga, PR Sarkar, em muitos de seus livros, práticas e palestras falou das propensões mentais nos centros de energia. Ele deu o nome de yogapsicologia ou biopsicologia a este conhecimento.

Em sânscrito as propensões ou vórtices mentais são chamadas de vrtts e os centros de energia são conhecidos como chakras. No primeiro chakra, na base da coluna, por exemplo, está a Kundalini adormecida (a energia que precisa ascender para a realização da espiritualidade) e mais 4 vrtts:

desejo psicoespiritual (dharma), 
desejo de natureza psíquica (artha), 
desejo de natureza física (Káma), 
desejo espiritual (Moksa). 

Para elevar a kundalini até o sétimo chakra, no topo da cabeça, precisa de muita energia - que os atritos da vida proporcionam - e que os vrtts não a sequestrem. Somos exigidos a “administrá-los” como as práticas do yoga propõem. (O Mahabharata, segundo Sarkar, é um épico indiano que fala desta jornada de aprendizado: como controlar todos os 1000 vrtts para chegar à liberação espiritual - Krshna.)

Sarkar ensinou sobre vrtts e sobre as glândulas associadas e seus hormônios correlatos. Indicou posturas de yoga para equilibrá-las e mostrou como o mantra atua para despertar a kundalini. Além do tantra yoga, ele criou uma filosofia - o Anandan Sutra - e  teve uma obra vasta em várias áreas do conhecimento correlacionando tudo com as questões políticas. Como?

Os vrtts tem uma função evolutiva: por exemplo, o torpor mental (murccha) no segundo chakra é necessário quando um animal é atacado. Assim ele parece morto e seu predador pode desistir de devora-lo pensando que ele estivesse morto há mais tempo.

Ficamos muitas vezes com a mente parada no vrtt murccha quando temos um trauma ou quando um sistema político nos aterroriza de verdade, com ações que colocam em risco direto a nossa vida. 

A inveja (Iirsha) no terceiro chakra também é importante para a pessoa sentir tristeza quando começa a se comparar com os outros. Sem esta infelicidade ela não conseguiria voltar para si mesma e/ou buscar ajuda para ser mais feliz. Imagina se dentro da gente não tivesse um programa destes que nos alertasse a parar de se comparar e seguir em frente? Mas ela também nos tira no torpor mental, afinal começamos a ver que existe um horizonte maior já que alguém conquistou alguma coisa que não temos. A inveja não vai fazer ninguém conseguir nada, mas vai alfinetar a letargia.

Tem uma propensão, no entanto, que parece não fazer sentido nenhum para a evolução - o sadismo (pishunata) no terceiro chakra também. Susan Andrews, uma das maiores pesquisadoras no assunto sempre se indagou sobre a função deste vrtt para a evolução.

Qual a função evolutiva de sentir prazer em fazer alguém sofrer? Até ontem eu não tinha esta resposta. Mas aconteceu de uma moça postar em uma rede social, rindo, logo depois das eleições brasileiras que colocaram um presidenciável que incentiva a violência no poder: “kkkkkk já posso dar uns tirinhos agora?”

Sabemos que o Brasil é um país muito violento, não de hoje, mas qual a diferença agora?  É que sentir prazer com a morte dos outros ficou pública e virou moda, símbolo de poder político. A isto damos o nome de sadismo. 

Tem cartazes que dizem “Viva um torturador” depois de uma declaração destas no congresso nacional. 

A minha hipótese é de que o sadismo pega algumas pessoas à serviço por dois motivos.

1)  É preciso que algumas pessoas façam este papel para que outros possam crescer. Estas pessoas com seu sadismo escancarado, inadvertidamente nos treinam a ter paciência, estômago, perseverança, disciplina e tudo aquilo que Don Juan ensinou para Castanheda sobre os pequenos tiranos e a impecabilidade do guerreiro espiritual. Texto aqui.

Não ficar com raiva de um sádico e continuar a lutar por um mundo mais inclusivo exige muito da gente. Exige, por exemplo, que estejamos muito mais unidos e sejamos mais democráticos ainda.

2) E como colocar a mente no mamata vrtt (compaixão) que fica no quarto chakra, ou no vrtt phat (colocar a teoria em prática) no quinto chakra exige muito mais energia do que ficar nos vrtts do terceiro chakra, que são importantes também, imagina o treinamento que passamos para evoluir? 

A função evolutiva do sadismo então, talvez seja 1) criar força interior para escaparmos do prazer que ele gera e assim evoluirmos e 2) nos unir em direção oposta ao que ele faz. Digo isso porque tem muito mais amor explicitado nas mãos dadas de pessoas que querem criar outras realidades de convivências. 

É verdade que o amor também faz isso sem o sadismo de outros no reboque, mas quando os nossos egos ficam tão grandes a ponto de nos dividir, o sadismo (de outros) pode nos lembrar daqueles vínculos que nos mantém. Não é o vínculo de interesses ideológicos, mas do que nos torna humanos.

Por isso eu acho que o sadismo é o contrário radical de JUNTOS, mas também um dos percursos que a evolução usa para nos lembrar de algo mais profundo quando esquecemos o que nos mantém em sociedade.



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Susan Andrews no Parque Ecológico Visão Futuro é quem oferece uma das melhores formações nesta área. No RJ temos a Joana Amaral, o Ruy Marra e outros. Em SP a Cristina Ibiapina, Germana Lucena, Silvia Fuller e outros, em Porto Alegre tem a Naila Sarkar, a Janaína Farias, a Jaqueline Lessa e outros e todos os monges da Ananda Marga são treinados em biopsicologia (yogapsicologia) direto da Fonte - PR Sarkar.

25 de out de 2018

75) Scripts - A Burra e o Covarde / O Sol e o Corajoso

Meus dias em Bad Reichenhall 1 - 2018
Script - Roteiros de Vida com Rudiger Rogoll
Bad Reichenhall - Hellinger Schule


Rudiger Rogoll é médico psiquiatra, analista transacional (terapia criada por Eric Berne que influenciou a criação da Constelação Familiar) e amigo íntimo de Bert Hellinger.

O que me fez ir para Bad Reichenhall no Encontro Internacional de Constelação Familiar da Hellinger Schule este ano (2018), além de sempre ser maravilhoso, foi poder fazer o seminário com ele.


O script é aquele drama que nos conduz interiormente, mesmo que as evidências externas mostrem o contrário.

Por exemplo, mulheres super inteligentes, competentes, chefes de família com o script “burra”.

Não importa todo sucesso, títulos acadêmicos, filhos bem criados, empresas que criaram ou gerenciam, elas, inconscientemente, se acham inferiores aos homens, porque a cultura da época as desqualificou e em sua família ancestral as mulheres eram consideradas inferiores.

Pode ser que se casem e compensem este script bancando o marido, ou o desqualificando, ou tendo problemas ginecológicos porque projetam seu Sol, seu brilho, sua inteligência no homem.

Rudiger disse para pegar este Sol projetado e colocar dentro de si. Dó, Ré, Mi, Fá, Sol lá Si!

Tem também outro script muito comum entre os homens como aquele é para as mulheres. O “covarde”.

Claro que alguns homens se sentem inferiores às mulheres e algumas mulheres também são covardes. Mas o “covarde” é um dos scripts mais comuns entre os homens porque os pais não estavam presentes na criação deles.

Nossa cultura, agora mudando, não valorizava o papel do pai na educação dos filhos. “Isto é para as mães.” Diziam. Então muitos meninos não puderam ir para a esfera do pai para virarem homens.

E tem também os abandonos paternos tão “normais”.

Os homens com este script compensam de duas maneiras: ou ficam muito tímidos ou viram machistas querendo resolver tudo a bala e pancada.

Rudiger disse que o contra script deve ser falado para aquela criança que se sentia tão vulnerável: corajoso!

Tiveram outros scripts e muito aprendizado, mas estes dois falavam de homens e mulheres aqui no Ocidente. Agora o Sol, pra mim é feminino, como é na Alemanha, e todos os meninos são CORAjosos.

Amaterasu - Deusa da mitologia Japonesa Xintoísta - Aquela que Bilha como o Sol
Amaterasu - Omikami - Grande Deusa Augusta que Ilumina o Céu
(Dica da Consteladora Priscila Carvalho)

12 de set de 2018

74) A Mulher Ártemis - um conto

Quando Apolo Morreu 
(Quando escrevi este conto o nome era este, porque ele, Apollo - deus do Sol - é o irmão gêmeos de Ártemis - uma dimensão da Lua -  e exite uma dinâmica entre os dois deuses que a mulher Ártemis vai integrar ao longo da vida)

Tem trilha - Hard Sun - Eddie Vedder


A menina Ártemis nasceu amando os cavalos. Ela se sentia como se fosse um deles, selvagem, cheio de determinação com as crinas balançando na língua dos ventos. Ninguém podia dominá-la quando subia nas grades do berço para alcançar os unicórnios. Seu pai deu para ela uma colher de mingau torta com a qual jogavam golfe. A bola era o rolo de tricô de sua bisavó guarani. A crina brilhante e grisalha da anciã tinha sido como a de sua bisneta. As duas se entendiam só de olhar.

Sua mamãe tentava ensina-la a cuspir o caroço de azeitona delicadamente no garfo cobrindo com as mãos, mas ela mirava a testa do seu irmão gêmeo e acertava o ensopado. Se o pai não gargalhasse e a mãe não prendesse o riso, a educação teria sido um sucesso.

Seu corpo belo e ágil não buscava os olhares dos garotos, mas uma montanha para escalar, um jogo para vencer, uma arte para expurgar os seus demônios. Sua fúria ainda teria que ser conquistada e transformada em empatia, mas só quando enfrentasse o maior dos seus desafios, respeitar a receptividade e vulnerabilidade, atributos que ela rejeitava em sua mãe.

Casar? Não! Isso ela nunca pensou! Seria uma mulher livre como nenhuma cultura jamais aceitou. Não importava que a sua maior chaga fosse a rejeição de todos pelo seu comportamento livre, ela seria fiel aos seus ideais até se as chamas de uma fogueira iluminassem a Lua escura! E foi assim até conhecer Órion, o seu grande amor. E foi assim até o Céu desabar sobre a sua obstinação.

Apolo, seu irmão gêmeo, era lindo e, como a irmã, cheio de talentos. Bastava ver seus cabelos de raios de Sol e a perfeição do seu corpo para se enamorar dele. Até quando engatinhava arrumando os brinquedos para as estrelas seguirem o caminho, o mundo se alegrava. Na fase adulta, se dedicou às cidades e à civilização como a sua irmã se dedicava ao mundo selvagem. Sem ele não haveria a sociedade e sem os dois não haveria o equilíbrio entre a natureza e a cultura humana. Eles eram uma dupla incrível e imbatível!

Irmãos, amigos e parceiros até Ártemis se apaixonar.

- Você tinha prometido ser virgem para sempre! Se mantendo fiel aos teus ideais sem deixar nenhum homem te atrapalhar! E agora o teu coração dispara na presença de Órion!

O rosto iluminado de sua irmã dizia “eu não sabia o que era o amor”.

- Sim, eu o amo! Quem disse, meu irmão, que vou largar os meus ideais por causa de um homem?! Eu posso ter os dois, não é?! Mesmo que o mundo ainda não aceite isso, eu posso ter os dois. Eu vim para ter carreira e casamento, ideal e amor. Eu não vim para casar ou ter uma carreira, amar ou ter um ideal. Não vim fazer uma escolha! O meu destino é a multiplicação!

O coração de Apolo partiu e o ciúme o desfigurou. Enquanto caminhavam calados para ver o pôr do Sol numa tarde de ondas quietas, Apolo a desafiou.

- Duvido você acertar aquela folha flutuando no mar!

Competitiva e alegre de estarem novamente se dando bem, Ártemis mirou sua flecha e atingiu em cheio o alvo! Não fosse o sangue que espirrou ela gritaria de alegria.

- Ártemis, minha irmã! Sua impaciência e competitividade não te deixaram ver. E ainda pensa que podes viver um amor...

Oceano trouxe o corpo de Órion até os pés da sua amada. A dor foi tão grande que Zeus, seu pai, aceitou fazer de Órion uma constelação perto de escorpião, para ela nunca mais esquecer a raiva da traição do seu irmão. Desde então, os marujos sabem que não se navega em dia de Sol Vermelho.

Ártemis passou a odiar e desconfiar dos homens e das cidades. E estas urbes que Apolo cuidava, começaram a dizimar a vida nas florestas.

Até quando vai ser “nós dois” assim?

Ainda hoje existem moças que tentam reconciliar os gêmeos dentro de si. Então nem percebem que têm tanta raiva das mentiras e trapaças masculinas, e tanto desprezo pela receptividade e vulnerabilidade de suas mães, que mantam cada Órion que aparece em sua vida com ciúme, inseguranças e impaciência. Exatamente o que condenou em seu irmão.

Ainda hoje alguns rapazes pegam as suas mochilas e vão para fora da civilização tentando reconciliar estes dois irmãos. Negam, como Ártemis, toda e qualquer relação com as cidades, e se envenenam até a morte no meio da natureza selvagem. Mas esta ainda não é a melhor forma de compensação. Como entendeu Alexander Supertramp, "A felicidade só é real quando compartilhada”.

21 de ago de 2018

73) A Visão Xamânica Africana das Doenças Mentais

Nova Constelação familiar em Porto Alegre setembro de 2018 - informações aqui.

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Como o Xamanismo Africano lida com o que chamamos de Doenças Mentais? 

O site Mystical Haven publicou partes de artigos sobre o Xamanismo Africano e como o xamã Dr. Malidoma Patrice Somé encara fenômenos que nós, ocidentais, e nossa medicina chamamos de distúrbios psiquiátricos.

É importante entender que cada cultura desenvolve formas de ver o mundo e instrumental para lidar com o que veem e interpretam. A medicina, por exemplo, é uma só, a arte de curar, mas as formas como se manifestam depende de cada cultura. Temos a Medicina Ayurvédica, a Medicina Chinesa a Biomedicina (Medicina Ocidental) e outras medicinas que têm suas próprias filosofias, anatomias, fisiologias, estratégias terapêuticas etc.. A esta diversidade da arte de curar, e suas 6 dimensões, foi dado o nome de Racionalidades Médicas pela socióloga brasileira Madel Luz.

Como o Xamanismos Africano enxerga, então, o que a nossa medicina chama de doença mental?

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A VISÃO XAMÂNICA DAS DOENÇAS MENTAIS

O texto publicado no site Mystical Raven está em inglês aqui.
Abaixo está a tradução:

(Um texto mais completo em inglês, no site Jason Gaddis, está aqui )





“ Dr. Malidoma Patrice Somé,  xamã da África Ocidental, tem uma visão diferente da doença mental em comparação com as pessoas no mundo ocidental, onde nos concentramos na patologia e na ideia de que o comportamento exibido por aqueles diagnosticados com a doença é algo que precisa parar.
O Dr. Somé propõe que o que chamamos de depressão, bipolaridade, psicose e esquizofrenia talvez seja uma intensa transformação da consciência e um passo inevitável para o desenvolvimento humano.
O Dr. Somé e o povo Dagara apoiam a visão xamânica que sinaliza a doença mental como “o nascimento de um curador”. Eles acreditam que essa pessoa foi selecionada como um meio para uma mensagem para a comunidade. O que os ocidentais veem como “doença mental”, o povo Dagara vê como “boas notícias do outro mundo”.
"Transtorno mental, transtorno comportamental de todos os tipos, sinalizam o fato de que duas energias obviamente incompatíveis se fundiram no mesmo campo", diz Dr. Somé. "Distúrbios resultam quando a pessoa não consegue obter assistência para lidar com a presença da energia do reino espiritual."
Durante a primeira visita do Dr. Somé aos Estados Unidos em 1980, ele testemunhou como o país lidava com a doença mental. Ficou surpreso ao notar que os pacientes na enfermaria psiquiátrica estavam exibindo os mesmos sintomas que ele tinha visto em sua aldeia.
“Então é assim que os curandeiros que estão tentando nascer são tratados nessa cultura. Que perda! Que perda desperdiçar uma pessoa que finalmente está sendo alinhada com um poder do outro mundo”.
Ele reconheceu que o Ocidente não é treinado em lidar com a existência de fenômenos psíquicos e do mundo espiritual. Quando essas energias emergem, o indivíduo, que não tem a capacidade de reconhecer o que está acontecendo, é rotulado de "insano" e recebe altas doses de drogas antipsicóticas que impedem a evolução espiritual.
Os xamãs e médiuns também são capazes de ver “entidades” ou “seres” que permanecem na presença desses indivíduos. Os gritos e gritos exibidos pelos pacientes na enfermaria psiquiátrica sinalizaram para o Dr. Somé que as entidades estavam tentando livrar a medicação de seus corpos e sua dor estava aumentando no processo.
Na tradição de Dagara, esses indivíduos são vistos como uma ponte entre o mundo físico e espiritual e a comunidade ajuda a pessoa a se reconciliar com as energias dos dois mundos. Não fazer isso aborta o nascimento de um curador e sustenta a desordem inicial de energia.
Ele descreve a esquizofrenia como tendo "receptividade a um fluxo de imagens e informações, que não podem ser controladas".
“Quando esse tipo de entrada ocorre num momento que não é escolhido pessoalmente e, particularmente, quando se trata de imagens assustadoras e contraditórias, a pessoa entra em frenesi.”
Os xamãs limparão as energias estranhas da aura do indivíduo usando uma prática conhecida como "varredura". Isso ajuda a acalmar a energia espiritual que está sendo recebida e acalma a pessoa. O xamã tentará, então, alinhar a energia de alta voltagem do espírito que tenta sair do outro mundo e, por sua vez, dar à luz ao agente de cura.
Bloquear isso é o que cria problemas e agrava a situação. Nos casos em que a energia canalizada é negativa e não promove a cura, os xamãs procuram removê-los da aura em vez de os alinhar.
Enquanto nos EUA, Dr. Somé estava curioso para saber se suas técnicas seriam universalmente aplicadas a todos os pacientes. A pedido, ele levou um paciente mentalmente doente de 18 anos de volta à sua aldeia africana. Após quatro anos de hospitalização e sofrendo de alucinações e depressão severa, os pais do menino ficaram sem saber o que fazer.
O Dr. Somé relata que depois de oito meses, o filho deles se tornou “bastante normal” depois de participar de rituais de cura xamânica e entender seus dons como curador. Ele continuou a viver na aldeia por mais quatro anos como curador antes de retornar aos EUA para completar seu curso de psicologia em Harvard. "Ele descobriu que todas as coisas que ele precisava fazer tinham sido feitas, e ele poderia seguir em frente com sua vida", disse Dr. Somé.
Um dos dons que os xamãs podem trazer ao mundo ocidental é ajudar os indivíduos a redescobrirem um ponto de vista espiritual que é necessário para se viver. Adotando o reino espiritual da vida reduz a probabilidade de sofrimento mental que decorre do fato de que "eles são chamados por seres do outro mundo para cooperar com eles em fazer o trabalho de cura."
O Dr. Somé sugere que “alguns dos espíritos que tentam passar, como descrito anteriormente, podem ser ancestrais que querem se fundir com um descendente na tentativa de curar o que não puderam fazer enquanto estavam em seu corpo físico”.
Ele continua, “a menos que a relação entre os vivos e os mortos esteja em equilíbrio, o caos se inicia. Os Dagara acreditam que, se tal desequilíbrio existir, é dever dos vivos curar seus ancestrais. Se esses antepassados não forem curados, sua energia doentia vai assombrar as almas e psiques daqueles que são responsáveis por ajudá-los ”.
O Dr. Somé sugere que adotar uma abordagem ritualística à doença mental cria uma série de oportunidades e pode mudar a vida do indivíduo para melhor.
Partes extraídas do guia de medicina natural para a esquizofrenia, páginas 178-189 e The Natural Medicine Guide to Bi-polar Disorder. Based on Jayson Gaddis’ article.  – Via ForeverConscious




7 de jul de 2018

72) Óculos e a nossa maneira de enxergar




Este artista cria óculos feitos de materiais achados do lixo de Nairobi
para expressar potentes reflexões políticas e sociais.



Em um seminário, o psicoterapeuta e filósofo Bert Hellinger falou sobre os óculos e o movimento sistêmico ligado ao seu uso. É como se ainda fossemos crianças, guiados pelo olhar da mãe. Isso se dá quando temos algum movimento interrompido (trauma) como a morte precoce dela, desmame ou falta de amamentação, afastamento da mãe na infância por doenças, adoção e outras dinâmicas que ainda buscam alguma solução. Nem todos que passaram por estas provas de vida (e todos nós as temos) terão problemas com os olhos, mas o contrário tem mostrado a sua relevância para compreensão sistêmica do uso dos óculos.

Rudijer Dahlke em seus livros sobre o significado da doença observa os problemas dos olhos como movimentos que devem ser seguidos, para saber o que revelam. Por exemplo, ele diz para a pessoa com astigmatismo olhar de forma diferente para o mundo, assumindo seu jeito de enxergar para daí tirar as suas conclusões e reflexões sobre a sua vida.

            Na verdade, o médico Dahlke usa este esquema em quase todas as doenças, indicando a intensificação dos caminhos mesmos delas a serem perseguidos por nós, para, ao final, tirarmos alguma solução a partir do desequilíbrio. Para as Constelações Familiares é também assim: a doença (a)guarda o caminho de amor perdido em alguma situação familiar atual ou ancestral.

            Então, sempre pedimos para os representantes e constelandos tirarem seus óculos quando estão em um seminário. Assim eles começam a ver com os seus olhos, sem correções, mas com a sua maneira de enxergar. Com a dificuldade, outros sentidos são mobilizados, o aprendizado entra por mais “poros” e o olhar se torna mais pessoal. Único.

            Por exemplo, se a nossa mãe ou pai usam óculos, talvez eles precisem ainda de algo da mãe deles. Como não são eles que estão lendo este texto, talvez seja a gente que deva ir até a nossa avó e colocá-la no coração. Se usamos óculos, podemos escolher parar de ver como a mamãe e seguir em frente. Talvez ela esteja lá, esperando o nosso abraço com um sorriso cheio de coração. Podemos também encontrar medo, raiva e outros sentimentos, mas estarão no lugar certo e não mais sentados no nosso nariz.







25 de jun de 2018

72) O trabalho Doméstico é a Experiência da Consciência Cósmica


O trabalho doméstico é a experiência direta da Consciência Cósmica. Ilimitado, Infinito e Invisível.

Este aforismo surgiu de lavar a louça e sempre aparecer mais. De ver a minha mãe cuidando da casa e nunca terminar. De não ter o reconhecimento necessário, como se toda esta dedicação fosse algo natural e não sustentasse o mundo e a vida há milhares de anos. De que o mundo material precisa de tantos cuidados que, ou a gente desiste dele virando um espiritualista sem os pés no chão, ou agradece tudo o que temos e criamos.

É a luta interna de me sentir presa em tarefas que “me roubam o tempo” ou a gratidão de estar na presença, sem precisar de nenhum self ou de me sentir vítima de uma sociedade injusta. Chega uma hora em que o fluxo se torna divino. O dualismo “matéria X espírito” desaparece nesta ação devotada. É a hora do “White people problems” me mostrar como posso ser ridícula de resmungar da quantidade de coisas que tenho que guardar.

Acima de tudo é eu fazendo a minha mãe rir, quando milhares de roupas sujas aparecem e ela acabou de guardar outras tantas. Foi ela quem me ensinou a agradecer ao invés de reclamar das tarefas, afinal temos algo para cuidar.

E para você, como são as tarefas diárias? Um fardo ou elas rindo de você (se levar tão a sério) enquanto te mostram o infinito e a impermanência? Um campo para  brigas ou as flores do jardim que você plantou?





78) Depressão

Quando eu li pela primeira vez que a depressão, segundo as observações do Bert Hellinger nas Constelações Familiares, era, geralment...