16 de mar. de 2014

39) O Pequeno Tirano

                                                    
Um Convite da Fonte ao Guerreiro/a



O PEQUENO TIRANO e o MINÚSCULO PEQUENO TIRANINHO


O xamã Don Juan Matus, mestre de Castañeda, ensinava - na prática - que é uma grande sorte para UM GUERREIRO encontrar um Pequeno Tirano. Como?! Perguntava Castañeda desconfiado.

Don Juan Matus entre Castañeda e uma senhora.


E continuava mais ou menos assim: Como pode ser bom para um guerreiro encontrar alguém que quer escravizá-lo e matá-lo, caso se rebele? Como vocês yaquis chamam estes assassinos bárbaros, que dizimaram a sua tribo e cultura e tantas outras, de pequenos tiranos?"

E Don Juan respondia algo como: um xamã precisa de toda a sua energia para seguir o caminho do conhecimento que o levará a novos mundos. Não há nada que gaste mais energia do que a auto-importância. E não há nada que acabe com a importância pessoal a não ser um pequeno tirano. E o pequeno tirano ainda vai te treinar a não reagir com RAIVA, MANTER SEU CONTROLE, TER DISCIPLINA E PACIÊNCIA. Isto é impecabilidade.

Ele prossegue a explicação dizendo: "Comparado à Fonte de tudo, os homens mais assustadores e tirânicos são bufões; em consequência disso, foram classificados como pequenos tiranos, pinches tiranos."

E esta categoria tem 2 subclasses:

1) Aqueles que perseguem infligindo injúrias, mas sem causar morte de ninguém, são chamados de pequenos tiraninhos, e

2) os exasperantes e aborrecidos ao extremo são os minúsculos pequenos tiraninhos. 

Estes ainda são divididos em 4 categorias:

a) os que atormentam com brutalidade e violência;
b) os que criam uma ansiedade intolerável por meio da desonestidade;
c) aqueles que oprimem pela tristeza e
d) os que fazem os guerreiros se enraivecerem. 

Estes nomes não pretendem ser debochados ou menosprezar a força e a importância de um pequeno tirano, mas mostram seu tamanho diante da totalidade da Existência e a orquestradora Fonte. Esta fonte infinita é o objetivo de um guerreiro, por isso a importância de ter um excelente treinamento com um tirano para alcançar o conhecimento e ter energia.

Estes ensinamentos, segundo Don Juan, não são deduções ou razão da nossa existência, mas é o que os videntes xamãs viram e por isso resolveram criar estratégias para lidar com o que acontece.

Quando um guerreiro perde a cabeça por causa de um pequeno tirano, ele é derrotado. Então deve se preparar mais para enfrentá-lo novamente, ou aceitar ficar ao lado dos pequeninos tiranitos.

Tudo isso para dizer que quando se encontra um Minúsculo Pequeno Tiraninho pelo caminho, é sinal de que se está sendo chamado para desenvolver o potencial de guerreiro e sabe-se da sua força  pelo tamanho do seu tirano.


Capa do livro no qual estão estes ensinamentos
 Castañeda, Carlos. O Fogo Interior. Rio de Janeiro: Nova Era, 2008

38) A Arte da Ajuda


A arte de ajudar, segundo Hellinger, se sustenta em uma compensação: a retribuição por se ganhar a vida. Como não se pode recompensar os pais diretamente por este presente sem precedentes, se “paga” esta dádiva, ajudando aos outros, como um rio nutrindo suas margens em seu caminho para o oceano. Também, quando recebemos algo de alguém, que não nos é superior, damos algo em troca.



foto de Sebastião Salgado



No primeiro caso, compensa-se o que se recebeu dos pais dando para os filhos, se dedicando ao trabalho com afinco, ao papel que se quer assumir na sociedade e a algum serviço desinteressado. Estas são formas de compensar o que se ganhou dos progenitores, professores, pessoas dedicadas à vida pública, pessoas que arriscaram ou perderam a vida por nós, etc. Pessoas que são ou estão em papel superior e de que recebemos algo que não temos condição de pagar diretamente. Não se tem condições de pagar a vida que se recebeu dos pais diretamente para eles, só promovendo a vida para outras pessoas, tendo filhos e/ou estando a serviço da vida em suas ações. Esta noção libera o caminho para a humildade e o seguir em frente e, em casos mais difíceis, para não se submeter às chantagens parentais.


 No segundo caso, há as trocas de igual para igual: nas parcerias românticas e de amizades, com outros adultos que estejam em pé de igualdade, cônjuges, etc.. O próprio pagamento por um trabalho é uma forma de compensação promovendo um movimento, com o qual ninguém fica maior do que o outro. Muitas relações amorosas e de amizade se quebram por esta diferença entre o dar e o receber. Por exemplo, ao impor e exigir muito quando alguém quer e tem o direito de trocar pouco ou dar muito sem saber receber nada. Portanto, há REGRAS PARA A AJUDA gerando movimento. Quando estas regras não são observadas começam os emaranhamentos que desorganizam a ordem no sistema familiar e social.


Bert Hellinger chegou a estas ORDENS DA AJUDA (livro publicado em 2005)[i] observando os movimentos da alma e as ações que tinham força nas Constelações Familiares.  Pode-se dizer que elas “hidratam” os vínculos pelo correto ato de dar e receber, que acontecem em dois níveis:

1) entre pais e filhos, ou entre superiores (ex: professor, babá, bombeiro) e necessitados (ex: aluno, criança, acidentado). Neste último caso não há equiparação, mas um rio que recebe as águas da ajuda, e não podendo devolver à fonte, deixa as suas águas fluírem para nutrir algo adiante;

 2) e o de igual para igual, quando há reciprocidade. Como no caso dos casais e amigos;

 “O ajudar dessa maneira aumenta o que foi presenteado. Aquele que ajuda é tomado e inserido em algo maior, mais rico e duradouro” (Hellinger, 2008: 14).

Se, realmente se toma a vida e o cuidado dos pais, aguentando o sentimento de  culpa de receber a vida sem poder pagar isso para eles, tem-se a necessidade de passar algo de bom para frente, e quem recebe esta ajuda deve realmente necessitar e querer o que se tem para dar. Não se pode impor a nossa ajuda a alguém. Nesta condição se sustenta a primeira Ordem da Ajuda.

Eu tomei a liberdade de dar alguns nomes para as ordens, mantendo o cerne do que o Hellinger observou e compartilhou:

1) PRIMEIRA ORDEM DA AJUDA -  IMPECABILIDADE ENTRE O DAR E O RECEBER

Dar o que se tem, “e somente esperar e tomar o que se necessita” (Hellinger 2008: 14).  Dar o que não se tem ou tomar algo que não se precisa causa desordem. Também exigir de alguém o que ela não pode e não quer dar ou dar para alguém algo que ela mesma pode dar para si mesma ou tem que carregar e fazer por si mesma desrespeita o equilíbrio entre o dar e o receber.

Assim, aquele que se submeter aos limites do dar e receber cria força, porque trata a todos e a si mesmo com impecabilidade.

Como disse Don Juan Matus, mestre de Castañeda, "os Guerreiros não se ajudam, não tem compaixão por ninguém. Para ele, ter compaixão significa que você desejava que o outro fosse como você, e você o ajuda só para isso. A coisa mais difícil do mundo é um Guerreiro deixar os outros em paz. A impecabilidade do Guerreiro é deixar os outros como são, e apoiá-los no que forem. Isso significa, naturalmente, que você confia que também eles sejam Guerreiros impecáveis.”

Com isso, chega-se a segunda ordem:

2) SEGUNDA ORDEM DA AJUDA  -  A ARTE DA ESPREITA

 Esta ordem se funda no aceitar e se submeter às circunstâncias da pessoa, sem compaixão. Isto não quer dizer frieza diante das doenças hereditárias, consequências de acontecimentos, da culpa de alguém, mas apoiar até onde o destino dela permite. Isto é discreto e tem força.  

Esta força está lá no silêncio da relação entre ser vivo e suas circunstâncias. Nisso, como diz Maturana, se conserva a correspondência estrutural entre o organismo e meio (Maturana,  1997: 72) . Ao negar as potencialidades criativas entre a pessoa e seu destino - suas circunstâncias -, enfraquece-se a ajuda, o ajudante e aquele que busca a ajuda. Neste caso o ajudante se acha maior que o que busca ajuda, como se fosse os seus pais, e não se pode mais ajudar.

Portanto, o ajudante nas Constelações Familiares nunca é maior ou menor do que aquele que busca ajuda. E é por isso quem constela não é o constelador, mas o constelando. Diz-se, “eu fiz a minha constelação”, não se diz “eu fui constelado”.

Eu diria que aqui a frase seria: Eu te vejo e às tuas circunstâncias, sem reduzi-los aos meus desejos de te ajudar e aos teus desejos de ser salvo do que pode te dar força.

Nesta postura, chegamos à terceira ordem:

3) TERCEIRA ORDEM DA AJUDA – MOVIMENTO DA ALMA

Esta é a ordem que diferencia a Constelação Familiar e seu movimento da alma da psicoterapia habitual.

O ajudante se coloca como adulto e trata aquele que busca ajuda como adulto. Com isso ele não faz o papel dos pais, e recusa que a pessoa o coloque na posição de filho ou necessitado. É preciso CORAGEM, muito AMOR e RESPEITO, para desapontar a pessoa que busca o pai e a mãe no terapeuta, assim como coragem e humildade para ser criticado como duro e insensível ao fazer isto. Porque não é dureza, é fazer aliança com o que escapa ao nosso controle, onde tem mais força. Toda pessoa que força o outro a cuidar dela atua como uma criança exigente em relação aos seus pais.

Onde está a maior força, no adulto que se faz de criança exigindo o que o terapeuta, cônjuge, amigos, não podem dar? No terapeuta, cônjuge, amigo que trata o que precisa de ajuda como criança, indicando mil técnicas para que ele “melhore”? Ou naquele que aceita o seu próprio destino e no terapeuta que o apoia em seu destino se abrindo para um movimento que leve à solução?

 "Muitas vezes a solução propriamente dita não vem à luz, mas apenas o movimento em direção a ela. Isso já é o suficiente. Não se procura, portanto, um fecho. Quando o decisivo vem à tona, isso atua. O trabalho se torna muito mais modesto, muito mais forte, com muito mais respeito pela pessoa e também pelas forças maiores que determinam as nossas vidas e as dos outros" ( Hellinger, 2008).

A sensação desta ordem me soa como o amor: “não dá para explicar as razões do coração, só se sabe que o amor atua e com ele algo acontece”.

E o amor se sustenta na alma coletiva:

4) QUARTA ORDEM DA AJUDA: TODOS TÊM DIREITO AO PERTENCIMENTO

 Não se pode ver a pessoa que é ajudada como um ser isolado, mas como parte de um sistema onde todos devem ser honrados e têm o direito ao pertencimento. Para isso é preciso saber quem pertence e quem não pertence ao sistema. A desordem aqui começa quando se exclui alguém, como talvez toda a família da pessoa ajudada faça, aprofundando a dor sistêmica. Se esta empatia sistêmica for sentida como dura pela pessoa que está constelando, porque inclui quem ela acha que deveria ser excluída, ela se coloca como criança e não como adulta.

Num caso dificílimo e extremo, quando um pai abusa de uma criança, se o constelador julgar este pai e o excluir, não há solução. Ele tem que saber que este pai pertence ao sistema, tem seu lugar, é responsável pelo o que fez, e é o pai desta criança. Não se trata de perdoar – isto é arrogante – nem de encobrir o que foi feito. Trata-se de não excluí-lo nem julgá-lo no coração, mesmo que a criança tenha que conviver afastada do pai por segurança. Esta é uma visão sistêmica e não pessoal. A criança se sente mais segura com quem coloca o pai no coração do quem julga seu pai como criminoso. Ela é filha dele. Ele pode pagar a pena do que fez, mas no coração do ajudante ele tem um lugar, não por benevolência e santidade, mas porque sistemicamente ele pertence e a alma busca reconciliação.

A melhor postura que consigo imaginar para esta ordem é  abrir o coração para todos da família, sem julgar, porque no nível da Grande Alma todos têm o direito de pertencer e de arcar com o que fizeram.


5) QUINTA ORDEM DA AJUDA – A RECONCILIAÇÃO

A reconciliação, sobretudo com os pais. O ajudante ao colocar a pessoa excluída no coração o aceita como ele é. Quando, por diversos fatores, o ajudante escolhe ficar contra um dos pais, até porque a opinião pública assim o determina, ele favorece o conflito. A Reconciliação não é cega e não retira de ninguém sua responsabilidade, mas ela une no coração o que estava separado.

As tragédias são sempre pautadas em situações onde a reconciliação é impossível. Ela tem uma chance, quando no coração - sem nenhum sentimento de compaixão, perdão, pena ou negação – todos pertencem.

Assim, eu tenho aprendido que a reconciliação, quando a alma encontra a sua cura, é um caminho sereno e fértil, ou árduo e duro, no meio de dois polos aparentemente separados.



Finalmente, COMO SE DEIXAR ATUAR POR ESTAS ORDENS?

A postura do facilitador da Constelação e da pessoa que constela se abre a estas ordens quando se centra e abre mão do querer saber, do medo, da intenção e da compaixão. Escrevi mais sobre isso aqui.

As Ordens da Ajuda acontecem por meio da percepção durante o processo e não por meio do pensamento, portanto não devem ser aplicadas de forma rigorosa nem metódica. Elas surgem como um rio seguindo o seu próprio curso. Para isso, como foi dito acima, é necessário estar centrado, sem pressupostos, intenções, medos ou compaixão. É preciso não saber e principalmente não saber o que virá e se expor aos acontecimentos. Isto não é fatalismo, mas se abrir para dimensões ainda não conhecidas onde algo atua.

        É como aquela pequena poça, que um dia foi o mais corajoso dos rios desbravando vales e montanhas. Ele só se abriu a novas soluções depois de ter enfrentado sem sucesso o indecifrável deserto escaldante, que secou quase toda a sua água. Nesta hora, uma nuvem, totalmente diferente do que ele jamais sonhou, surgiu levando-o acima do deserto até o topo de outro desfiladeiro onde desaguou como chuva.

A Arte da Ajuda, então, não é um manual de regras, mas um rio  que se sustenta no próprio exercício 1) da impecabilidade entre o dar e o receber, 2) da arte da espreita que vê e aceita sem compaixão ou julgamentos, 3) do movimento da alma, quando algo atua porque não se tem intenções nem se busca explicações, 4) do direito ao pertencimento de todos e 5) da reconciliação, que não é “fofinha” nem cega, mas aceita o fato de todos pertencerem e que, em um nível muito profundo, tudo se harmoniza no amor do Espírito.



foto: não sei quem é o autor

       





[i] HELLINGER, Bert. Ordens da Ajuda. Tradução de Tsuyuko Jinno-Spelter. Patos de Minas: Atman, 2005.

9 de mar. de 2014

37) Yoga e o Campo Espiritual



foto da página Yoga Inspiration no Facebook


ásanas - postura confortável do yoga;

meditar - estado que se entra depois de praticar sádhana;

sádhana - esforço para ter na mente/corpo/espírito o trampolim para o infinito;

meditação – sádhana;



Assim, pratica-se ásanas e "conquista-se" o meditar, ou se é meditado.  Por isso, quando se diz, “eu não consigo meditar”, está de acordo com o yoga, porque ninguém consegue meditar, já que este é um estado que se consegue depois do esforço da meditação. Fazemos meditação, sádhana.
Todo  o “resto” do yoga  - todas as práticas e pensamentos filosóficos para atingir o objetivo do yoga, que é unir o luar (mente), refletido em uma gota d´água (corpo), na Lua (ser meditado pelo infinito).



O Campo Espiritual na Nova Constelação Familiar e o Yoga -
durante anos me dediquei ao Tantra Yoga proposto por P.R.Sarkar como praticante e pesquisadora,  inclusive fazendo um mestrado em Educação e um doutorado em Saúde Pública com este tema. Acabo fazendo aproximações entre a Constelação familiar e o Yoga, sem, no entanto, reduzi-los um ao outro. Também vejo suas diferenças e o quanto isso enriquece a possibilidade de interpretação do mundo.

O que tenho observado, e nos foi orientado por Bert e Sophie Hellinger, é que o Campo que se abre na Nova Constelação Familiar também não se chega pela intenção, mas pelo deixar-se agir por algo que surge em uma dinâmica. Eu diria que estamos fazendo uma meditação do “nós juntos”.

36) Vício e Pertencimento


O Farol de Setembro

Havia um farol que só aparecia em setembro, ao contrário do resto do ano quando era um fantasma esquecido nos mares daquela gente. Durante décadas, milhares de peregrinos passavam por lá para ver a aparição do monumento. Nos meses seguintes, porém, o povoado bebia a sua falta, sem saber que eles mesmos desapareciam com ele.



Qual a característica básica de todo  vício?

O tomar. 


Por que no vício este tomar ultrapassa todas as medidas? 

Durante as Constelações Familiares Bert Hellinger observou que há um desejo por um objeto essencial por trás do tomar, que nunca será preenchido pelo objeto substituto do vício, e, além disso, ele, o objeto real, foi esquecido.


Por que o objeto essencial do desejo foi esquecido?

Por conta de alguma proibição ou por julgamentos de certo e errado, bom e mau.

Por exemplo: “seu pai me traiu, você não deve gostar dele”, “sua mãe te abandonou, sou agora melhor mãe para você do que ela”, “não contei para o seu pai da sua existência, mas te dei outro muito melhor”, “sua mãe não é direita, você devia ser totalmente diferente dela”, “a sua terra natal é uma vergonha”, “você não tem direito a nenhuma identidade, só a me servir”, etc.

Assim, quando há algum vício, pergunte-se: 

1) O que é essencial para ter chegado a este mundo?
2) Qual deles foi proibido?

Então, toda vez que for tomar o objeto falso de vício imagine que se toma o objeto essencial com toda a voracidade de tê-lo no coração: ou o pai, ou a mãe, ou a terra natal, ou o protagonismo da própria vida que podem ter sido excluídos por alguma razão.

Com o tempo, o desejo pelo objeto substituto do tomar exagerado no vício se tornará fraco diante do objeto essencial honrado no coração, que agora não é mais esquecido.

E honrado não pelo que é ou fez, mas porque pertence.

17 de nov. de 2013

35) Helena e a Morte Social dos Afetos



Cate Blanchett

       

        Há, na fronteira borrada do compreensível, o mundo dos sentimentos. Aventura-se neste universo os que têm sede de viver o inconcebível sem as pranchas das racionalizações, e, bem de longe com seus martelos, estão os que explicarão e legislarão sobre ele. Uma mulher ou um homem mergulhados em seus sentimentos, sem a ansiedade do controle, acaba por romper as represas emocionais dos outros, mesmo sem ter esta intenção. Quando esta vocação vem acompanhada de beleza e destemor da inconsciência, a pessoa se torna Helena.

        Ela é uma personagem mitológica, constelada em tantos humanos e situações com o mesmo dom de catalisar, sem saber, mudanças em corações estreitos. Por que entendo Helena desta maneira?

Desde a infância foi desejada por homens como Teseu e seu próprio padrasto. Adulta, teve que casar por consenso social e questões políticas com Menelau e, sem nenhum escrúpulo, largou o marido para desfrutar do amor do belo e jovem Páris. Tudo isso graças a  mãozinha da deusa Afrodite em disputa com as deusas Atená e Hera, desencadeando a guerra de Troia e depois  a odisseia de Ulisses (Odisseu).

Helena e Páris, 1788
de Jaccques-Louis David


Nem toda beldade causa tantos transtornos, por que então os homens disputavam-na com tanto fervor? O que realmente buscavam quando lutavam por Helena, além de vingar Menelau e saquear as riquezas da cidade sagrada de Troia? Será que algo nela os impulsionava a entrar em contato com uma parte essencial de si mesmos ainda latente e encoberta pela brutalidade? Quantas cabeças precisavam ser cortadas e peitos abertos para chegar ao coração dos sentimentos?

Hoje em dia as Helenas, mulheres lindas e catalisadoras dos tesouros inconscientes para o processo de individuação, continuam sendo objeto de desejos de alguns homens poderosos. O que chamo de homem poderoso? Aquele que tem e consegue controlar alguns símbolos de poder de acordo com o que é valorizado em seu meio social.

 Eles a buscam para lhe dar o posto de outra personagem mitológica, Hera, a esposa ideal para manutenção do “estado”. Mas ela não é. Os próprios homens poderosos podem ter o dom de Helena, mas ter estas características (beleza e poder) não garante este potencial catalizador de dimensões profundas. Na verdade, nem precisa ser lindo/a ou poderoso/a, basta estar em sintonia com o inconsciente sem perder o contato com a realidade, mantendo-se fiel a si mesmo/a.

Alguns dos homens poderosos querem fazer de Helena um troféu, uma mulher enfeite, inclusive com a permissão da moça. Algumas cedem algum tempo, porque lhes convêm, e porque tanto ele como ela não têm clareza do potencial de transformação deste encontro, mas sentem algum perigo imediatamente protegido com a coisificação deles e da relação.  Neste caso, Helena e seu dom são saqueados como foi Troia.

A morte social dos afetos, principalmente os mais doloridos, com os remédios tarja preta e a ditadura da euforia deixam as Helenas à beira da loucura. Não da loucura dionisíaca que questiona o status quo, mas da loucura vinda do abafamento dos sentimentos sem nomes, das caveiras num cemitério clandestino em busca de suas famílias ou do seu lugar na história. É que o mundo dos sentimentos, onde as Helenas reinam, é rico de cantos sem cantores, emoções esquecidas de pessoas excluídas que não encontraram legitimidade no mundo. Lá eles são vistos e entoados pelas Helenas que enlouquecem quando este universo é soterrado.

Comecei a pensar sobre esta personagem insondável e a asfixia dos afetos depois de assistir ao último filme de Woody Allen, Blue Jasmine. Nele, Cate Blanchett interpreta uma bela mulher que se separa do marido rico perdendo todas suas posses, menos alguns dos símbolos da riqueza como algumas joias, roupas e malas de marca que garantiam a faixada do seu status. Ela precisa recomeçar sua vida em outra esfera social. Em seu casamento ela se comportou, como disse uma amiga minha, como a deusa Hera: mulher prefeita para os homens poderosos e, terrivelmente vingativa quando seu lugar ao lado do parceiro é ameaçado.




Na história, os valores de classes são confrontados, o orgulho da personagem – como bem pontuou outro amigo meu - é irredutível, e sua disponibilidade em encontrar um novo marido é acirrada ao longo dos obstáculos enfrentados. Em uma das cenas, quando percebe que conseguirá, novamente, o posto de "esposa enfeite de luxo”, expressa suas emoções tomando seus remédios. Seus talentos e o luxo, deixo claro, não são enfeites, são competências e linguagem, mas atrelados aos valores de classe ganham outras dimensões.

Há também na película as mazelas de qualquer personalidade que não são explicadas simplesmente porque se é rico ou pobre, se os motivos são nobres ou fúteis ou se nisso está o valor do que é mau ou bom. E, em nenhum momento, vi o diretor, também autor, explicando o sofrimento da personagem como o resultado de alguém sem capacidade de recomeçar ou de ser frívolo. Sim, Jasmine sofre muito.


Cena de Blue Jasmine

O sofrimento não escolhe classe social, não é patrimônio só dos empobrecidos materialmente ou espiritualmente pelas aberrações políticas e sociais do capitalismo. E não há como desqualificar, chamando de fúteis os fatores que o precipitam em Jasmine, sem forçar uma mesma escala a todos os envolvidos. A complexidade humana exige um pouco mais da gente, como seguir juntos. É arriscado, não há a clareza do distanciamento, mas seguir junto não é estar misturado. Isto porque o próprio sofrimento, como um dos terrenos rochosos por onde todos inevitavelmente passarão numa vida, faz dos viventes parentes corroborando para esta postura contígua.

Cate Blanchett como Blue Jasmine

É neste sentindo que acompanhei o sofrimento da personagem Blue Jasmine: junto sem julgá-la. Nesta jornada me encontrei com o dom de Helena às avessas e sucateado no mundo prozac luxuoso. Não por Jasmine representá-la, mesmo sendo incrivelmente bela e fascinar alguns homens que não guerreariam por ninguém, mas pelo o que era mobilizado nela (e nos outros) até a sua loucura.

Os encontros geram mudança, é fato, mas com Blue Jasmine, triste Jasmine, o reencontro com sua nova velha condição de vida, ao perder tudo, desnudava sentimentos soterrados que não conseguiam dizer suas próprias palavras. A personagem virou muitas vezes o rosto para os conflitos da vida, por isso sua agonia recebia os mesmos diálogos - agora solitários - que estavam em sua memória, daquilo que perdeu, mas apontavam para dimensões emocionais mais profundas. Algo de verdadeiro e mais cheio de vida vinha à tona, nunca por linhas retas ou de forma agradável, ao mesmo tempo em que se transformava em velhas conversas que viravam o rosto mais uma vez.

Este confronto entre os sentimentos, a tentativa de escamoteá-los com a ajuda do orgulho e remédios e de dar vozes do passado para eles, também mobilizava algo nas pessoas, como aconteceu com o dentista, sua irmã, com o namorado da irmã, no próprio marido, no diplomata, e em seu enteado.

Não estou dizendo que uma dor e a incapacidade de lidar com as perdas não desencadeie a loucura, mas prefiro acompanhar a insanidade nela mesma. Será que  há sentimentos na loucura buscando seus rostos e nomes, buscando serem vistos e nomeados por quem nunca, nunca?

Nem seu orgulho imenso, nem seus genes maravilhosos, segundo sua irmã e mãe adotiva, puderam deter ou teriam tanta força para precipitar a miserável angústia do seu abandono e a sua falta de ar. Nem mesmo suas belas roupas ao final da película podiam confortá-la. Havia algo mais. Havia diálogos que ela repetia ao Deus dará como se pudessem dar palavras aos "sem vozes" dentro dela. 

Dores remotas a assombravam? De quem eram e desde quando? Talvez por ter sido abandonada pela mãe e pai e depois ser adotada.  Este precipício de amor que não pode ser tampado pela frase “quem cria é a mãe e não quem pari”, e que não pode ser explicado com os nomes de pais biológicos e de pais adotivos, mas está lá.  Talvez por ter desejado fugir vorazmente de si mesma, como se sua intensidade pudesse tragá-la e atrair aqueles de quem deveria fugir com algum Páris. Acho que ela não fugiria com nenhum Páris porque está longe de ser fiel a si mesma. Talvez pelo medo e anseio dos mimos que não aplacavam nada, mas estavam lá como amparos e contornos.  

 Sabe-se lá! 

Para além do filme, penso que se produz muita invisibilidade quando queremos explicações ao invés de acreditar em nossas vivências, ou quando estamos no pensamento abissal, aquele que separa quem tem direito e lugar na sociedade e quem pode ser morto e saqueado, inclusive com as bênçãos da lei, da religião e do saber científico (Boaventura da Souza Santos, 2007). Por isso há tantos sentimentos abafados, pessoas desconhecidas, vidas esquecidas e até invisíveis que não puderam ter suas faces e direitos legitimados, que precisam do dom de Helena para ser vistos. 


Quase ao final do filme (não vou contar nada, mas pule este parágrafo se você ainda não o assistiu), é revelada mais uma ação desesperada de Jasmine com a qual outros rostos velados e as consequências de virar a cara para eles são confrontados: os que foram saqueados  e os exploradores se encaram nesta atitude da personagem. Havia neste ato não só a vingança dela contra o marido, mas a vingança de muitos contra ele e ela. E a punição aos saqueadores não recaiu só sobre o magnata, mas na própria vida de Jasmine desde então. Nela todos existiam, vigaristas e vítimas e suas punições e recompensas.

Muitas vozes de muitas pessoas falam na loucura. O louco é aquele que as acolhe.

Por que eu escrevo estas coisas em um blog de Constelação Familiar? Por causa da fluidez dos muitos sentimentos e rostos vistos e vividos nas dinâmicas das constelações sem a necessidade de elucidação ou da lei que diz quem pode ou não existir. Como Helena nós apenas acompanhamos o movimento indecifrável do encontro dos nossos sentimentos com os do que não foram assistidos, sem precisar tratá-los como "nunca" nas grades de um hospício, de uma prisão, do esquecimento ou de milhares de explicações. 

6 de nov. de 2013

34) A Reconciliação




 Não falarei a seguir da justa justiça necessária às vítimas 
e aos agressores, mas de liberar o caminho em 
nosso coração para a reconciliação.




Nos movimentos de amor que curam, aquilo que se opõe encontra no outro sua completude, serenando. Pode ser o encontro de um homem com uma mulher em seu filho ou no relacionamento do casal; ou do Céu e da Terra em nosso corpo; do grande (avós e pais) e do pequeno (filhos) em nosso trabalho e sucesso; do passado e do futuro no presente de nossas escolhas; de dois homens ou duas mulheres em seu amor, e tantas outras esferas - verso e reverso de uma mesma imensidão. 

Quero dizer, as oposições são mais as dobras de uma mesma substância onde tudo é, do que instâncias separadas. Se são do mesmo estrato, de um único tecido, opõem-se em diferentes desdobramentos de si mesmo para se reconhecer na diferença. Por isso, a reconciliação não é um objetivo, mas um acontecimento seguindo em frente como se fosse latente, como se estivesse dentro de nós prestes a desabrochar nos encontros e a nos socorrer durante os desencontros, costurando amores, remendando as dores.

 Vivenciamos esta conexão entre tudo e todos quando acompanhamos o movimento de amor na Grande Alma numa constelação, sem agir, nos deixamos atuar por algo que acompanhamos, desembocando na reconciliação.

Nós, como oposição do totalmente outro, como avesso senciente de outro avesso senciente, também geramos energia quando nos atritamos, ou quando buscamos encontrar novos horizontes nas terceiras vias, caminhos ou soluções para duas necessidades aparentemente díspares.

Mas há oposições difíceis de reconciliação: quando a mãe abandona ou quando o pai é cruel, se a esposa é isso e o marido é aquilo, quando um país ataca e rouba outro, ou quando há um assassinato, um aborto e a morte traumática no parto. Ou, “simplesmente”, quando o que é proibido em uma família ou povo acaba por determinar a exclusão dos membros do clã. Por exemplo, ainda hoje, casar com alguém de outra classe social, outra religião, outra nacionalidade, ter afinidades sexuais e afetivas diferentes do que se espera tornam-se oposições muitas vezes difíceis de reconciliar num grupo. Estas proibições fecham a garganta do movimento do amor.

Idealmente, como diz o filósofo P.R.Sarkar, precisamos manter e alimentar nossa cultura para termos nossa identidade tanto na família como nos povos, mas é necessário abrir mão dos sócios-sentimentos (só a minha religião e crenças são certas) e  geo-sentimentos (o meu país é melhor e tem mais direitos que o teu) que impossibilitam a convivência dentro do próprio grupo e com outros, causando injustiças.

Como se vê, não só os abusos, as mortes prematuras e assassinatos dificultam o movimento de reconciliação na alma, mas também a consciência de grupo. A  menos que se expanda para a consciência do espírito que se abre para tudo e todos sem distinção. E é isso o que fazemos durante a Constelação: nos centramos, nos afastamos para ver melhor e colocamos todos no coração sem distinção ou julgamentos, principalmente os excluídos. Tanto a aceitação do que aconteceu, como a reconciliação com o oponente ou situação de exclusão fica livre dos entraves e assim podem atuar (Hellinger, 2012). 

Neste sentido, a reconciliação, quando a alma encontra a sua cura, é um caminho sereno e fértil no meio de dois polos aparentemente separados. 


Foto de Osvaldo Luiz da página Lá no pé da serra 








627) Stellium em Áries nas 12 Casas Astrológicas

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