16 de mar de 2014

38) A Arte da Ajuda


A arte de ajudar, segundo Hellinger, se sustenta em uma compensação: a retribuição por se ganhar a vida. Como não se pode recompensar os pais diretamente por este presente sem precedentes, se “paga” esta dádiva, ajudando aos outros, como um rio nutrindo suas margens em seu caminho para o oceano. Também, quando recebemos algo de alguém, que não nos é superior, damos algo em troca.



foto de Sebastião Salgado



No primeiro caso, compensa-se o que se recebeu dos pais dando para os filhos, se dedicando ao trabalho com afinco, ao papel que se quer assumir na sociedade e a algum serviço desinteressado. Estas são formas de compensar o que se ganhou dos progenitores, professores, pessoas dedicadas à vida pública, pessoas que arriscaram ou perderam a vida por nós, etc. Pessoas que são ou estão em papel superior e de que recebemos algo que não temos condição de pagar diretamente. Não se tem condições de pagar a vida que se recebeu dos pais diretamente para eles, só promovendo a vida para outras pessoas, tendo filhos e/ou estando a serviço da vida em suas ações. Esta noção libera o caminho para a humildade e o seguir em frente e, em casos mais difíceis, para não se submeter às chantagens parentais.


 No segundo caso, há as trocas de igual para igual: nas parcerias românticas e de amizades, com outros adultos que estejam em pé de igualdade, cônjuges, etc.. O próprio pagamento por um trabalho é uma forma de compensação promovendo um movimento, com o qual ninguém fica maior do que o outro. Muitas relações amorosas e de amizade se quebram por esta diferença entre o dar e o receber. Por exemplo, ao impor e exigir muito quando alguém quer e tem o direito de trocar pouco ou dar muito sem saber receber nada. Portanto, há REGRAS PARA A AJUDA gerando movimento. Quando estas regras não são observadas começam os emaranhamentos que desorganizam a ordem no sistema familiar e social.


Bert Hellinger chegou a estas ORDENS DA AJUDA (livro publicado em 2005)[i] observando os movimentos da alma e as ações que tinham força nas Constelações Familiares.  Pode-se dizer que elas “hidratam” os vínculos pelo correto ato de dar e receber, que acontecem em dois níveis:

1) entre pais e filhos, ou entre superiores (ex: professor, babá, bombeiro) e necessitados (ex: aluno, criança, acidentado). Neste último caso não há equiparação, mas um rio que recebe as águas da ajuda, e não podendo devolver à fonte, deixa as suas águas fluírem para nutrir algo adiante;

 2) e o de igual para igual, quando há reciprocidade. Como no caso dos casais e amigos;

 “O ajudar dessa maneira aumenta o que foi presenteado. Aquele que ajuda é tomado e inserido em algo maior, mais rico e duradouro” (Hellinger, 2008: 14).

Se, realmente se toma a vida e o cuidado dos pais, aguentando o sentimento de  culpa de receber a vida sem poder pagar isso para eles, tem-se a necessidade de passar algo de bom para frente, e quem recebe esta ajuda deve realmente necessitar e querer o que se tem para dar. Não se pode impor a nossa ajuda a alguém. Nesta condição se sustenta a primeira Ordem da Ajuda.

Eu tomei a liberdade de dar alguns nomes para as ordens, mantendo o cerne do que o Hellinger observou e compartilhou:

1) PRIMEIRA ORDEM DA AJUDA -  IMPECABILIDADE ENTRE O DAR E O RECEBER

Dar o que se tem, “e somente esperar e tomar o que se necessita” (Hellinger 2008: 14).  Dar o que não se tem ou tomar algo que não se precisa causa desordem. Também exigir de alguém o que ela não pode e não quer dar ou dar para alguém algo que ela mesma pode dar para si mesma ou tem que carregar e fazer por si mesma desrespeita o equilíbrio entre o dar e o receber.

Assim, aquele que se submeter aos limites do dar e receber cria força, porque trata a todos e a si mesmo com impecabilidade.

Como disse Don Juan Matus, mestre de Castañeda, "os Guerreiros não se ajudam, não tem compaixão por ninguém. Para ele, ter compaixão significa que você desejava que o outro fosse como você, e você o ajuda só para isso. A coisa mais difícil do mundo é um Guerreiro deixar os outros em paz. A impecabilidade do Guerreiro é deixar os outros como são, e apoiá-los no que forem. Isso significa, naturalmente, que você confia que também eles sejam Guerreiros impecáveis.”

Com isso, chega-se a segunda ordem:

2) SEGUNDA ORDEM DA AJUDA  -  A ARTE DA ESPREITA

 Esta ordem se funda no aceitar e se submeter às circunstâncias da pessoa, sem compaixão. Isto não quer dizer frieza diante das doenças hereditárias, consequências de acontecimentos, da culpa de alguém, mas apoiar até onde o destino dela permite. Isto é discreto e tem força.  

Esta força está lá no silêncio da relação entre ser vivo e suas circunstâncias. Nisso, como diz Maturana, se conserva a correspondência estrutural entre o organismo e meio (Maturana,  1997: 72) . Ao negar as potencialidades criativas entre a pessoa e seu destino - suas circunstâncias -, enfraquece-se a ajuda, o ajudante e aquele que busca a ajuda. Neste caso o ajudante se acha maior que o que busca ajuda, como se fosse os seus pais, e não se pode mais ajudar.

Portanto, o ajudante nas Constelações Familiares nunca é maior ou menor do que aquele que busca ajuda. E é por isso quem constela não é o constelador, mas o constelando. Diz-se, “eu fiz a minha constelação”, não se diz “eu fui constelado”.

Eu diria que aqui a frase seria: Eu te vejo e às tuas circunstâncias, sem reduzi-los aos meus desejos de te ajudar e aos teus desejos de ser salvo do que pode te dar força.

Nesta postura, chegamos à terceira ordem:

3) TERCEIRA ORDEM DA AJUDAMOVIMENTO DA ALMA

Esta é a ordem que diferencia a Constelação Familiar e seu movimento da alma da psicoterapia habitual.

O ajudante se coloca como adulto e trata aquele que busca ajuda como adulto. Com isso ele não faz o papel dos pais, e recusa que a pessoa o coloque na posição de filho ou necessitado. É preciso CORAGEM, muito AMOR e RESPEITO, para desapontar a pessoa que busca o pai e a mãe no terapeuta, assim como coragem e humildade para ser criticado como duro e insensível ao fazer isto. Porque não é dureza, é fazer aliança com o que escapa ao nosso controle, onde tem mais força. Toda pessoa que força o outro a cuidar dela atua como uma criança exigente em relação aos seus pais.

Onde está a maior força, no adulto que se faz de criança exigindo o que o terapeuta, cônjuge, amigos, não podem dar? No terapeuta, cônjuge, amigo que trata o que precisa de ajuda como criança, indicando mil técnicas para que ele “melhore”? Ou naquele que aceita o seu próprio destino e no terapeuta que o apoia em seu destino se abrindo para um movimento que leve à solução?

 "Muitas vezes a solução propriamente dita não vem à luz, mas apenas o movimento em direção a ela. Isso já é o suficiente. Não se procura, portanto, um fecho. Quando o decisivo vem à tona, isso atua. O trabalho se torna muito mais modesto, muito mais forte, com muito mais respeito pela pessoa e também pelas forças maiores que determinam as nossas vidas e as dos outros" ( Hellinger, 2008).

A sensação desta ordem me soa como o amor: “não dá para explicar as razões do coração, só se sabe que o amor atua e com ele algo acontece”.

E o amor se sustenta na alma coletiva:

4) QUARTA ORDEM DA AJUDA: TODOS TÊM DIREITO AO PERTENCIMENTO

 Não se pode ver a pessoa que é ajudada como um ser isolado, mas como parte de um sistema onde todos devem ser honrados e têm o direito ao pertencimento. Para isso é preciso saber quem pertence e quem não pertence ao sistema. A desordem aqui começa quando se exclui alguém, como talvez toda a família da pessoa ajudada faça, aprofundando a dor sistêmica. Se esta empatia sistêmica for sentida como dura pela pessoa que está constelando, porque inclui quem ela acha que deveria ser excluída, ela se coloca como criança e não como adulta.

Num caso dificílimo e extremo, quando um pai abusa de uma criança, se o constelador julgar este pai e o excluir, não há solução. Ele tem que saber que este pai pertence ao sistema, tem seu lugar, é responsável pelo o que fez, e é o pai desta criança. Não se trata de perdoar – isto é arrogante – nem de encobrir o que foi feito. Trata-se de não excluí-lo nem julgá-lo no coração, mesmo que a criança tenha que conviver afastada do pai por segurança. Esta é uma visão sistêmica e não pessoal. A criança se sente mais segura com quem coloca o pai no coração do quem julga seu pai como criminoso. Ela é filha dele. Ele pode pagar a pena do que fez, mas no coração do ajudante ele tem um lugar, não por benevolência e santidade, mas porque sistemicamente ele pertence e a alma busca reconciliação.

A melhor postura que consigo imaginar para esta ordem é  abrir o coração para todos da família, sem julgar, porque no nível da Grande Alma todos têm o direito de pertencer e de arcar com o que fizeram.


5) QUINTA ORDEM DA AJUDA – A RECONCILIAÇÃO

A reconciliação, sobretudo com os pais. O ajudante ao colocar a pessoa excluída no coração o aceita como ele é. Quando, por diversos fatores, o ajudante escolhe ficar contra um dos pais, até porque a opinião pública assim o determina, ele favorece o conflito. A Reconciliação não é cega e não retira de ninguém sua responsabilidade, mas ela une no coração o que estava separado.

As tragédias são sempre pautadas em situações onde a reconciliação é impossível. Ela tem uma chance, quando no coração - sem nenhum sentimento de compaixão, perdão, pena ou negação – todos pertencem.

Assim, eu tenho aprendido que a reconciliação, quando a alma encontra a sua cura, é um caminho sereno e fértil, ou árduo e duro, no meio de dois polos aparentemente separados.



Finalmente, COMO SE DEIXAR ATUAR POR ESTAS ORDENS?

A postura do facilitador da Constelação e da pessoa que constela se abre a estas ordens quando se centra e abre mão do querer saber, do medo, da intenção e da compaixão. Escrevi mais sobre isso aqui.

As Ordens da Ajuda acontecem por meio da percepção durante o processo e não por meio do pensamento, portanto não devem ser aplicadas de forma rigorosa nem metódica. Elas surgem como um rio seguindo o seu próprio curso. Para isso, como foi dito acima, é necessário estar centrado, sem pressupostos, intenções, medos ou compaixão. É preciso não saber e principalmente não saber o que virá e se expor aos acontecimentos. Isto não é fatalismo, mas se abrir para dimensões ainda não conhecidas onde algo atua.

        É como aquela pequena poça, que um dia foi o mais corajoso dos rios desbravando vales e montanhas. Ele só se abriu a novas soluções depois de ter enfrentado sem sucesso o indecifrável deserto escaldante, que secou quase toda a sua água. Nesta hora, uma nuvem, totalmente diferente do que ele jamais sonhou, surgiu levando-o acima do deserto até o topo de outro desfiladeiro onde desaguou como chuva.

A Arte da Ajuda, então, não é um manual de regras, mas um rio  que se sustenta no próprio exercício 1) da impecabilidade entre o dar e o receber, 2) da arte da espreita que vê e aceita sem compaixão ou julgamentos, 3) do movimento da alma, quando algo atua porque não se tem intenções nem se busca explicações, 4) do direito ao pertencimento de todos e 5) da reconciliação, que não é “fofinha” nem cega, mas aceita o fato de todos pertencerem e que, em um nível muito profundo, tudo se harmoniza no amor do Espírito.



foto: não sei quem é o autor

       





[i] HELLINGER, Bert. Ordens da Ajuda. Tradução de Tsuyuko Jinno-Spelter. Patos de Minas: Atman, 2005.

Nenhum comentário:

Postar um comentário