21 de set de 2012

6) Do Amor




No Yoga se diz que os universos, os seres animados e inanimados, foram feitos de mil braços e abraços em redemoinhos de redemoinhos do amor dos princípios originais Cognitivo e Operativo -  Shiva e Shakti.
Na ilustração Krshna e Radha, "versão mais atualizada" (3.500 a.C.) deste Círculo do Amor.


Este assunto exige a delicadeza das nuvens e a profundidade do eterno. Não tenho nenhuma destas competências, mas uma experiência, um pequeno desenho da PIXAR, o Gibran e o Bachelard.

Nas vivências das constelações, quando um dos representantes sente uma dor imensa no peito e o choro se agarra na garganta como uma videira emaranhada nos rochedos, a primeira impressão é a de que lá, por trás de tantas barreiras, tem uma tragédia insustentável, um desafeto a ser vingado.

Com amabilidade direcionamos o olhar do “doente do peito” para a pessoa excluída, que também sente a mesma dor. Como espelhos separados por gerações elas sentem as mesmas garras afiadas e sufocantes. Pode ser a primeira namorada do pai que gerou um/a filho/a não reconhecido/a (um irmão desconhecido), ou o noivo da mãe, antes que ela se enamorasse pelo seu pai e largasse o primeiro quase no altar. Pode ser também aquele homem ou mulher que você amou e encarcerou o sentimento por medo de se machucar, ou a incapacidade de se doar a qualquer um, ao contrário de Gus, meio nublado, e seu fiel companheiro Peck, a cegonha (De Peter Sohn / PIXAR).



Na maioria das vezes, o reconhecimento do amor bloqueado por aquela pessoa, em algum ponto da eternidade, e sua libertação, desafoga o peito. O coração de pedra faz dela – as rochas e seus desfiladeiros – contatos para dançar e improvisar, e não mais se aprisionar. A “dureza desdenhosa da pedra” (Bachelard, 2001:169), não foi em vão, criou atrito para um dia ser vencida em uma ação de amor mais potente.

“Quem pode saber o que o rochedo batido pelo mar ensinou de firmeza ao pescador?” (Emerson in Bachelard, 2001: 160).

E como diz Humberto Maturana, o amor é uma emoção que funda o social e, por sua vez, gera uma ação de “legitimar o outro como legítimo outro na convivência”. Não se trata de tolerar.

Como a espada afiada escondida nas plumagens da poesia de Gibran, a legitimidade dos sentimentos abre caminho para o amor fluir como um oceano sem fim. Aquela dor no peito, a falta de ar e a visão turva, aquele “ódio” ou “aversão” pelo pai ou mãe, eram na verdade o amor em direção ao totalmente outro (bloqueado) que precisava ser encarado, incluído e reverenciado.



Do amor
Gibran Khalil Gibran, tradução Mansur Challita

Quando o amor voz chamar, segui-o,
Embora seus caminhos sejam agrestes e escarpados;
E quando ele vos envolver com suas asas, cedei-lhe,
Embora a espada oculta na sua plumagem possa ferir-vos;
E quando ele vos falar, acreditai nele,
Embora sua voz possa despedaçar vossos sonhos como o vento devasta o jardim.
Pois, da mesma forma que contribui para vosso crescimento, trabalha para vossa poda.
E da mesma forma que alcança vossa altura e acaricia vossos ramos mais tenros que se embalam ao sol,
Assim também desce até vossas raízes
E as sacode no seu apego à terra.
Como feixes de trigo, ele vos aperta junto ao seu coração.
Ele vos debulha para expor vossa nudez.
Ele vos peneira para libertar-vos das palhas.
Ele vos mói até a extrema brancura.
Ele vos amassa até que vos torneis maleáveis.
Todas estas coisas, o amor operará em vós para que conheçais os segredos de vossos corações e, com esse conhecimento, vos convertais no pão místico do banquete divino.
Todavia, se no vosso temor, procurardes somente a paz do amor e o gozo do amor,
Então seria melhor para vós que cobrísseis vossa nudez e abandonásseis a eira do amor.
Para entrar num mundo sem estações, onde rireis, mas não todos os vossos risos, e chorareis, mas não todas as vossas lágrimas.
O amor nada mais dá de si próprio e nada recebe senão de si próprio.
O amor não possui, nem se deixa possuir.
Pois o amor basta-se a si mesmo.
Quando um de vós ama, que não diga: “Deus está no meu coração”, mas que diga antes: “Eu estou no coração de Deus.”
E não imagineis que possais dirigir o curso
Do amor, pois o amor, se vos achar dignos,
Determinará, ele próprio, o vosso curso.
O amor não tem outro desejo senão o de atingir a sua plenitude.
Se, contudo,
Amardes e precisardes ter desejos sejam estes os vossos desejos:
De vos diluirdes no amor e serdes como um riacho que canta sua melodia para a noite;
De conhecerdes a dor de sentir ternura demasiada;
De ficardes feridos por vossa própria compreensão do amor
E de sangrardes de boa vontade e com alegria;
De acordardes ao meio-dia e meditardes sobre o êxtase do amor;
De voltardes para a casa à noite com Gratidão;
E de adormecerdes com uma prece no coração para o bem-amado,
E nos lábios uma canção de bem-aventurança.
(O Profeta)


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