Para mim, O Agente Secreto
foi o melhor filme que vi em anos.
Ele retira uma venda dos olhos ao confrontar dois Brasis, representados por Armando e seu filho Fernando. A cara deles – literalmente falando - pode até ser a mesma, mas as memórias que os conectam são sucateadas – por alguns trocados – através do desmantelamento daquilo que poderia nos libertar.
Parto do princípio de que a astrologia não explica nada. Ela não opera no pensamento linear de causa e efeito, que diria “sou assim porque minha Vênus está em tal lugar”.
Esse raciocínio não faz sentido para a astrologia, que se orienta pelo pensamento sincronístico.
A sincronicidade busca correspondências simbólicas entre acontecimentos para revelar relações de sentido. Assim, ela perguntaria: que relação existe entre um evento que vivi, minha Vênus – ou qualquer outra configuração astrológica - e outras experiências semelhantes?
Essa leitura só é possível quando a memória entra em relação com os acontecimentos. Sem memória, não há possibilidade de conectar os pontos para refletir sobre a própria condição.
Um dos possíveis mapas astrais do Brasil tem o Sol em Virgem, signo do trabalho, da saúde, do pensamento complexo e das escravizações. Justamente aquilo que um agente - que não vemos e por isso é secreto - tenta retirar ou impor ao país.
Se na Revolução Francesa o trabalho passa a definir quem pertence à sociedade, com a Revolução Industrial a força de trabalho torna-se mediada ou apropriada pelos donos das indústrias. O resultado do trabalho já não nos pertence.
Uma saída possível é tornar-se também meio de produção, por meio da pesquisa e da tecnologia. Esses sentidos dialogam com Virgem - trabalho, competência e criação - em oposição a Peixes, signo das forças sociais ocultas que nos aprisionam enquanto não as vemos.
É justamente esta venda que O Agente Secreto retira dos nossos olhos, contando o que acontecia em 1977 em forma de ficção – o que não por acaso aconteceu em exatos 40 anos depois, em 2017 com o sucateamento nossas universidades públicas que fez com que perdêssemos a patente internacional da pesquisa brasileira da polilaminina.
Sem recuperar as memórias brutalmente apagadas, não conseguimos conectar os Brasis para imaginar saídas para as opressões que atravessamos - coletivas ou individuais.
Mônica Clemente (Manika)
@manika_constelandocomafonte
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