12 de mai. de 2021

291) A Poética da Escuridão e o Feminino

 


Ilustração Keith Mallet 

Sabe, mamãe,

me disseram que os monstros aparecem no escuro, as mazelas ficam na sombra e o perigo mora na noite. Mas nossas mães ancestrais, dos povos originários, vieram me contar que existem outras versões mais aconchegantes da escuridão.

Aquela de onde se fez a Luz e surgiu o mundo inteiro. A mesma que eu invoco quando fecho os olhos em meditação. A morada não vista do amor verdadeiro.

Foi por isso que o poeta e cineasta indígena Carlos Papá disse que queria ser cego como a noite, para aprender amar.

Já que no escuro não se pode fazer distinções, as mesmas que o amor nunca fará.

Sua esposa, a professora indígena Cristine Takuá remendou: a escuridão é o ventre da mãe. O silêncio antes da fala, que é a base da boa comunicação.

Mas nos disseram que a Noite Escura da Alma era o nome de todas as angústias! O derradeiro caminho da depressão. O quitute mais querido dos demônios endiabrados dos jovens em erupção.

E todos estes julgamentos contra a noite, como disse Ailton Krenak, desembocaram nos ataques ao desconhecido. Ao apego à iluminação. Às noites insones cheias de distrações.

E isso, sem que a gente soubesse, nos separava das nossas mães. Porque atacam diretamente o feminino, princípio do que não se pode ver.

Mas as mães ancestrais me disseram, na madrugada quieta do dia das mães, para eu deixar a noite me guiar até o ventre do tempo sem tempo.

Para eu não ter mais medo do escuro, porque sou mulher. Para eu não ter mais medo na noite, porque ela é feminina.

Para eu não ter mais medo da madrugada, porque ela é a mãe de todos os dias. Inclusive do dia das mães.

Obrigada, minhas ancestrais!

Obrigada, mamãe, pela noite me apoiando e despertando a cada dia desde então.

 

Felicidades a todas as mães!

Mônica Clemente @manika_constelandocomafonte

Ilustração de Keith Mallet

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Este texto começou numa meditação, na qual, com medo de escuro, na madrugada do dia das mães, eu pensei no feminino. Muito angustiada, decidi escutar mais um vídeo do ciclo de estudos sobre a vida do “Selvagem”,com Ailton Kerank, Anna Dantes, Carlos Papá e Cristine Takuá. Lá eles fizeram a poética da escuridão que me tocou profundamente, como se as mães ancestrais estivessem me escutado e me encaminhado até eles.



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