26 de ago. de 2020

174) O Sol Nasce Sem Rancor da Noite

 


Eu to ficando louca! disse ela para os pais. A mãe e o irmão caçula não viraram o rosto e trancaram a respiração. Lá vinha a filha problemática lhes tirar a atenção da novela.

 

O pai, no mesmo aposento, estava fixado na tela do computador e não se virou. Chegaram a se mimetizar com a mobília antes da moça repetir: Eu to ficando louca! Me ajudem?!

 

A esperança arrancada dos pulmões turvou sua visão. Talvez devesse saltar do sexto andar e acabar logo com isso. Mas algo a impediu.

 

Eram as costas dos seus pais com seus monólogos.

 

Cala a boca, sai daqui! Chorona, sai daqui! Malcriada, sai daqui! Vai para o castigo! Fiquei grávida de você sem querer! Quer enlouquecer a sua mãe? Deixa o seu irmãozinho em paz! 

 

Soterrada pelos cuidados materiais excessivos, não ousava acreditar que precisava mais do que as costas.

 

Um dia, depois de buscas em diversas terapias, descobre que tem que achar o seu terapeuta e não uma linha de cuidados especificas. Não era Constelação Familiar, Bioenergética, Reiki, Astrologia, Psicanálise ou Análise transacional e Frequência de Brilho. Nem era yoga ou budismo. Era o terapeuta. Só podia chegar nele se continuasse procurando.

 

Um dia, um deles disse nos primeiros minutos de entrevista, que se tornaram anos de desabrochamento:

 

- Você é escrava da sua família. 

 

Era o miniconto da sua vida. 

 

Ela não era escrava porque cuidava dos pais. Era desprezada para nunca sair do ninho, para nunca saber do seu brilho. E, assim, suprir o vazio dos seus velhos com a seiva de sua mocidade. 

 

Não é assim que nascem as sombras, da luz bloqueada de um ser inteiro? 

 

O microconto teve efeito porque o terapeuta sabia como tirá-la do soterramento. Não eram palavras memorizadas de um manual.  Com o tempo, aprendeu com ele a cavar fundo para resgatar os seus eus.

 

O Sol nasce sem rancor da noite que o escondeu.

 

#Psicanálise #Minicontos #Desespero #SíndromeDePânico 

 

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