14 de abr. de 2018

68) O Triângulo Amoroso à Luz das Constelações Familiares







1)  Heartbreaking – O coração partido

Qual o fio capaz de tecer um “novo” coração depois da vivência dolorosa de um triângulo amoroso? Eu não sei... 

Em que vértice você esteve? Do amante, do parceiro traído, ou do parceiro traidor? De alguma maneira você já esteve nos três lugares, mas ainda não se lembrou. Tomar consciência dos três papéis que desempenhou não vai aliviar sua dor. Porém, lembre-se, o Sol o/a aguarda fora destas três personagens. 

Talvez, descobrindo o roteiro que nos fez viver um triângulo amoroso, possamos seguir em frente. Ainda, assim, não ajuda a recuperar a fé no amor. Esta exige de nós uma briga feroz com a desesperança, até que o cansaço nos mostre que o amor nunca desistiu de nós.


2)  Dinâmicas ocultas 

Do triângulo dramático[i] [1] até o triângulo amoroso encontramos dinâmicas familiares atuando e pedindo para serem reconhecidas e transformadas.  Ao menos é o que parece estar presente no triângulo mais famoso do Olimpo, com o nascimento de Dionísio, filho da amante Sêmele e de Zeus, marido de Hera. 

As dinâmicas por trás de algumas triangulações dolorosas podem ser um filho/a no meio das brigas amorosas dos pais, por imposição deles, ou porque o/a filho/a se arrogou capaz de salvá-los. Como aquela menina ou menino "forçada/o" a dizer para um dos genitores que se separasse. Ou mais dramático, ainda, quando “faz a separação” dos pais, expulsando um deles de casa porque não consegue mais viver no meio da guerra.



Na vida adulta esta criança pode se ver, como por encanto, fazendo a mesma coisa: tentando salvar um homem ou uma mulher de um “casamento ou parceiro horrível”. 

Ou pode se transformar no próprio marido ou esposa, envolvido/a com um/a amante, porque assim deposita nele/a as dores lancinantes de sua criança interior ferida no meio da briga dos pais. Ou porque na posição de “algoz traidor” vai entender os sentimentos do pai ou da mãe que ele julgou erradamente. O que chamo de julgar erradamente é o próprio ato de julgar quando não temos a distância suficiente para ver. Em toda relação mais íntima, como família e parcerias, é muito difícil ter a distância necessária para avaliar. 

Pode também ser uma dinâmica mais violenta e covarde, como o namorado da sua mãe, que é ou não o seu pai, resolvendo namorar você sem seu consentimento. Ou até o momento em que você tem consciência do que era aquela mão em suas partes íntimas. Agora, acrescente ao estupro o ingrediente de uma mãe machucada, que, ao invés de lhe proteger, competirá com você porque esta dinâmica está presente no seu sistema familiar há gerações. 

Ou uma dinâmica mais arquetípica, como um pai projetando sua anima (seu lado feminino) na filha, a qual cede ao encanto de ser “melhor” do que sua mãe, para receber os carinhos do pai, que nada mais são do que a projeção da anima dele. Ou o filho que recebe a projeção do animus (lado masculino) da mãe e se vê maior e mais potente do que o pai. Estas crianças disputarão com um dos genitores, sem ter consciência, o amor do outro. E podem também ser alvo de muita raiva e inveja do pai ou da mãe, desprezados por conta desta projeção. 


As sereias são representações de animas dos homens,
segundo Jung.

Tem ainda outra dinâmica.  Por exemplo, nosso pai teve um relacionamento antes de se casar com a nossa mãe. Esta primeira parceira não foi devidamente respeitada. Se alguém da família fala rindo de uma ex-namorada do pai, pode ter certeza de que ali tem um vórtice tragando um dos filhos ou netos para as relações triangulares.  

- “Hahahaha, uma louca que meu pai trepou! Nada de sério! Meu pai era galinha, sabe como é!” Ou, “Era só sexo mesmo. Teve filho com ela, mas era só sexo mesmo”.  

Então, esta ex-parceira reaparece na amante do nosso marido ou esposa. Isso não dá desculpas para o "traidor" e a/o amante, mas mostra a face de alguém que precisa ser incluído e respeitado. A mesma dinâmica surge com um ex-parceiro da mãe, não respeitado. 

Mas, preste atenção! Nem sempre o fato do ex-parceiro não se sentir respeitado implica em triangulações nas futuras gerações porque pode ser apenas chantagens emocionais dele. A triangulação só ocorrerá quando se desrespeitar um ex-parceiro. 

Todas essas compensações nas triangulações não são punições cármicas. São uma forma de se perceber/tomar consciência de que ninguém pode ser excluído. Não é uma relação de causa e efeito. É amor cósmico mesmo.



Um movimento interrompido [ii] [2] do filho ou filha, com a mãe ou com o pai, fecha o coração da criança para qualquer contato autêntico com um parceiro/a na vida adulta. E esta é outra dinâmica por trás das relações triangulares: ser amante de uma pessoa casada, é equivalente à impossibilidade de se chegar até o/a genitor/a, embora houvesse amor. 

A pessoa casada pode até tocar aquela dor sufocante que interrompeu o movimento de amor na infância do/a amante, mas não ficará o tempo suficiente para a dor dele/a se transformar em solução.  Porém, a falta que o/a amante sente do seu/sua parceiro/a casado/a, quando ele/a está com a esposa ou esposo, servirá como um “aspirador de pó” às avessas, puxando para fora a dor da interrupção.



Este hiato que o triângulo proporciona empurra a pessoa para o próximo passo, aguardado há décadas. Há nele raiva, terror, medo, desejo e, logo depois, a terra ensolarada dos vínculos afetivos positivos.   

Assim, vemos que nem todo triângulo é a revelação de pessoas excluídas, ou a expressão de dinâmicas do triângulo dramático na infância. Pode ser uma tentativa de voltar a andar em direção à vida. 

E há também aquela falta terrível, da qual nunca se falou. A de um irmão gêmeo morto, não reconhecido, que surge em dois amores - o parceiro e o amante -, como se isto pudesse resgatar o morto do mundo de Hades (morte). 

Todas essas dinâmicas, e tantas outras, podem estar por trás de uma relação triangular, mas nem todo triângulo amoroso carrega soluções. Nos casos elencados aqui, o bloqueio amoroso na esposa, no marido e na amante é tão grande, que só um drama intenso pode derrubar os muros construídos em volta do coração.  

Como naquela carta do Tarot, a Torre fulminada, que diz: “desta maneira não dá mais”. Então, Dionísio precisa nascer. Dionísio, a faceta da psique anunciando um renascimento.

 

3)  O mito de Hera, Zeus e Sêmele 

O triângulo amoroso vivido por Hera, Sêmele e Zeus carrega forças arquetípicas e pistas para quem quer ajuda para sair desses emaranhamentos. Neste mito, Sêmele não quer se casar com o homem que seu pai arranjou para ela. Sente que viverá uma relação sem amor e monótona, como acha que foi a dos seus pais. Pede, então, para Zeus libertá-la deste fardo! 

Zeus se apaixona por ela e começam um tórrido romance, até que Hera, a rainha do Olimpo, descobre a traição do marido. Cuidadora dos filhos, da casa e da imagem do esposo diante de toda a sua corte, muitas vezes sozinha por longos períodos, se disfarça de ama e vira confidente de Sêmele. Consegue com isso fazer a amante pedir para Zeus provar o seu amor, revelando-se por inteiro para ela. Quando Zeus escuta o pedido da amante, intui as artimanhas de Hera! 

O que ele fará? 

Ele pode terminar o seu casamento, no qual os papéis são devidamente cumpridos, mas a relação de amor está congelada ou acabou. Ele pode virar o homem da mortal Sêmele, tentando ser feliz de novo no amor. Pode também terminar com Sêmele e tentar derreter as muralhas do seu coração, deixando um pouco das suas coisas de Estado de lado para se dedicar mais à esposa e seus filhos. Em resumo, ele pode sair das projeções dos pais sobre ele, aquelas que o tornavam divino, e não indivíduo, para viver um amor às claras em um casamento. 

Mas ele não escolhe nenhuma das opções. Em todas deixará de ser o deus do Olimpo, o onipotente homem de ação e do Estado! Não! Ele não vai redimensionar sua relação com os seus negócios e a sua imagem grandiosa para se ver mais vulnerável em uma relação de amor! Não mesmo! 

Se ele fizer isso, vai perder tudo aquilo que o protege do medo das mulheres e de tudo o que camufla: o fato dele se sentir um garotinho sem a força do pai. Pai que ele destronou para ser deus do Olimpo, a pedido de Hera, sua mãe-irmã-amante. Sim! Hera, a sua amante secreta, que depois vira sua esposa, quando os dois congelaram o coração. Hera, que tinha medo do pai e queria alguém para ajudá-la a sair do controle paterno (Jellouscheck, 2017).

Mas Zeus fez a sua escolha! Mostrou para sua amada amante a sua real natureza divina! Sêmele, tomada pela Hera, ou a vontade de casar e sair do triângulo amoroso, morre!  Um mortal não pode ver deus diretamente. Ou seja: não pode continuar ficando entre os problemas de seu pai e sua mãe. 

Com um só golpe ele se vinga de Hera e queima a amante até o inferno. "Nenhuma delas vai me acessar!", pensa ele. Voltará para casa e punirá Hera com mais desprezo ou falsas promessas e dirá para si mesmo que a Sêmele não teve a menor importância. Ou era muito nova, ou era de outra classe social, d eoutro reino etc. "Era só química de pele mesmo!" 

Mas a história continua: o filho da amante com Zeus, Dionísio, é colocado na perna do pai. Quando fica adulto vai até o inferno buscar sua mãe. É que Sêmele precisa deste tempo para nascer mulher e deixar de ser a menina-amante (Jellouscheck, 2017).



Jupiter e Semele - Gustav Moreau
Nesta pintura está retratado o momento em que Semele, encorajada pela Hera, esposa de Zeus, convence Zeus a se revelar em todo seu esplendor. Quando ele aparece, radiante como deus do trovão e dos raios, Semele é consumida pelas chamas.

4)  Do Olimpo às Constelações Familiares


Antes de entrar nesta nau, vamos deixar os relacionamentos abertos para outro texto, que nunca vou escrever.  Por quê? Porque nestes relacionamentos são duas pessoas que concordaram em dizer não para todas as outras com quem (não) vão se envolver. Isto não é triângulo amoroso, é dois contra um. No triângulo amoroso é um contra todos: todos os seus bloqueios de amor. 

Mentira! Toda relação aberta é um Zeus e uma Hera que se unem para se defender mais ainda do coração partido, pensando que juntos podem controlar a espada do amor que vai surgir com uma Sêmele. Ou o James Fraser sussurrando Sassenach (Outlander [iii] [3]).

É por isso que não me interesso pelas relações abertas. Porque é Hera e Zeus bloqueados, elevados à potência máxima, se mancomunando para passar a perna em uma das protagonistas do trio olímpico: Sêmele!  A vulnerabilidade. 

James Fraser e Claire Beauchamp: Outlander - Diana Gabaldon
Atores: Sam Heughan e Caitriona Balfe


4.1  Zeus 

Mulheres e homens podem ser tomados pelo arquétipo de Zeus. Sua versão bloqueada usa todo o seu poder de dedicação às suas coisas e causas, mesmo querendo verdadeiramente se entregar e manter uma relação de amor e família, contra um encontro autêntico de amor, numa relação a dois e às claras.  

Os mais familiarizados com Zeus sabem do seu apetite e gosto pelas moças e moços, embora fosse casado com o seu primeiro e grande amor, Hera, sua irmã e mãe. Coisas da nave do inconsciente coletivo, os mitos. Significa dizer que Zeus, embora em sua face transformada seja um arquétipo do bom homem para o casamento, ainda tem uma ligação muito forte com uma irmã, também sua mãe, quase como um amante inconsciente, preso na esfera da mãe. 

Por isso, Zeus ainda não sabia amar às claras. Para se entregar ao amor precisava do aconchego secreto, longe do domínio feminino de sua mãe e irmã, como fazia com Hera quando não eram casados.  

Por que só neste esconderijo de amante se permite ficar vulnerável? Porque alguns homens são excelentes empresários, chefes de família, bons pais, bons amigos dos amigos nos bares, esportistas dedicados à barriga tanquinho, mas em casa, com a sua esposa, não conseguem ser o homem-amante da sua mulher. 

Por que alguns homens se casam e esquecem de conquistar a sua namorada na esposa? Por que alguns homens acreditam que trabalhar pela família, dia e noite, assegura o amor de uma mulher? Por que alguns homens se permitem ser vulneráveis e humanos com as amantes e namoradas e se tornam de aço e dos negócios (desde o escapismo até os bilhões) com as suas esposas? Por que alguns homens, quando sua mulher vai ter seus filhos, se sentem rejeitados como um bebê saindo para trepar com outra bonitona? 

Onde estava o homem que precisou do amante da sua esposa para despertá-lo do seu descaso com ela? Que precisou de um divórcio, depois de anos de dicas que a esposa deu, para ver que ela queria o seu homem de VOLTA?! 

Sim, nem tudo o que guia a sua esposa são os seus atos, Zeus! Há na alma dela algo que pode levá-la a outro homem, ou se afastar de você e não tem nada a ver com você. Mas estamos falando de triângulos amorosos e não de uma guiança que a levou para outro rumo (outro homem, ou se fechar para o amor de vocês). 

No livro, “Sêmele, Zeus e Hera: o papel da amante no triângulo amoroso”, o psicanalista junguiano Hans Jellouscheck[iv][4] faz uma análise profunda e esclarecedora dos desafios de cada uma dessas personagens ao se envolverem em um triângulo amoroso.  

As cartas que ele escreve para a esposa, o marido e a amante, no início do livro, já nos levam para além das culpas, traições e salvadores. Porque, quando entramos num triângulo amoroso somos as três dimensões ao mesmo tempo: a esposa, o marido e a/o amante. Ou, somos ao mesmo tempo a vítima, o algoz e o traidor.  

Nos dois triângulos (dramático e amoroso), só o centro nos liberta. Significa sair destes papéis depois de ter tirado deles todos os ensinamentos. 

Jellouscheck pergunta a Zeus se ele é capaz de manter a chama do amor que o uniu à Hera em noites tórridas de amor, escondidos de todos, no mundo às claras do casamento. Ou se ele vai se defender da projeção e do medo da sua mãe, projetados nela, trabalhando sem parar assim que se casar? Ou ficando só com os amigos, ou bebendo na frente da televisão. 

Sistemicamente falando, podemos perguntar a Zeus: “destronar o seu pai, Saturno, e se casar com a sua mãe, Hera (sua irmã e mãe porque o criou), fez você mais homem ou o manteve na esfera materna como um filhinho da mamãe”? 

“A sua esposa não é a sua mãe! Pare de projetar isso nela!” 

Se sentir melhor do que seu pai foi para a sua mãe, virando o deus do Olimpo, deu a você mais ou menos força em relação a tomar a sua esposa num encontro de amor?  

É possível você aceitar o seu pai exatamente como ele foi e fez, sem julgá-lo, e saber que a sua relação com ele não tem nada a ver com o homem que ele foi para a sua mãe? 

Você consegue deixar o encantamento de ser melhor do que o seu pai para a sua mãe, para ter uma mulher de verdade ao seu lado? E consegue fazer isso, sem brigar com seu pai e sua mãe e sem buscar milhares de amantes para se sentir mais masculino? 

Já passou pela sua cabeça que ficar com muitas mulheres é ainda estar, psiquicamente, na esfera feminina? 

Ah, tudo bobagem! Nada como a sensação de poder decidir o destino de duas pessoas que estão sob o nosso domínio!   

E você não está mesmo sendo afetado por este enredo, Zeus? O seu coração terno e a sua paixão realmente desapareceram depois do casamento? 




4.2  Hera 

Mulheres e homens podem estar tomados pelo arquétipo de Hera. Sua versão bloqueada usa todo o seu poder de dedicação às coisas, pessoas e causas do outro, fazendo este outro atender a seus desejos depois. Mesmo querendo verdadeiramente se entregar e manter uma relação de amor e família, usa sua doação "abnegada" (e possessiva) contra um encontro autêntico de amor numa relação a dois e às claras.  

Hera, ciumenta e vingativa, escondia outros motivos diante das suas lutas contra as amantes de Zeus? Um movimento interrompido com o seu pai, por exemplo? Uma falta de conexão com a sua mãe? 

Hera, o símbolo da mulher casada, toma que contornos quando entra uma amante na jogada? Se para a amante ela é uma megera, talvez a amante esteja projetando a sua mãe nela. Se para o marido vira uma interesseira que só casou por conta do dinheiro, então ele talvez se sinta como o pai, sem importância nenhuma. Ele morreu cedo? Ele foi desprezado em casa? 

E nós, como é que olhamos o status de mulher casada? Com inveja, desprezo ou respeito? Já reparou que Hera não representa o arquétipo da mãe? A mãe tem outras deusas para representá-la, como Deméter. 

 Será que uma mulher no papel de Hera pode ser vista e se ver como uma mulher linda, poderosa, profissional, gostosa, cheia de sonhos e possibilidades? Hein, Hera? Como você se vê como mulher casada? 

Por favor, se a sua autoimagem não for boa nesta posição, não venha com a desculpa da baixa-autoestima. Isto é irritante porque coloca você no lugar da vítima que você não é. Você é a grande deusa do Olimpo! Deusa de Zeus! O problema é que como deusa ou deus nós vivemos ainda sob o domínio de projeções e não o nosso destino bem normal de humanos. 

"Hera e Zeus", símbolo do casamento, a instituição social que coloca todos a favor do amor e da relação entre duas pessoas, ao menos neste tempo em que estamos tentando unir casamento e amor, sem reduzi-lo a estas dimensões. 

Hera, quando você era criança, seu pai viajava muito e você ficava muito tempo sem vê-lo? Ele dizia que ia visitar você e não aparecia? Quis que você fosse um homem bem sucedido porque mulheres e crianças são muito irracionais? Valorizou o seu logos, capacidade de pensar e estudar, mas desprezou o seu Eros, capacidade de sentir e se regozijar, sem precisar de explicações científicas para isso? Sua mãe, Hera, deixou você ter pai, ou fazia chacota dele o tempo todo, fazendo você desprezar a força dos homens? Ela disse para você nunca depender de um homem? Sabe o que isso realmente significa?  

Mudando de assunto: é mais fácil trabalhar com o seu pai do que ser filha dele? Ou a relação com o seu pai era muito melhor do que com a sua mãe? Você podia mesmo sentir que era melhor do que ela para ele?  

Quando foi, Hera, que você desistiu de caminhar para ele apenas como filha? Nunca caminhou para ele? Ou nunca caminhou para ele como filha? Como você caminha para o seu pai? Como amante oculta, advogada de divórcio da sua mãe, empregada da firma dele, sócia majoritária, filha de pai ausente? Qual dessas personagens você usa para não ter pai? 

E a sua mãe, Hera? Por que é que você não respeita sua mãe? Será o machismo de tantas eras? Pode ser, pode ser. Por que você julga tanto aquela mulher casada? Ela é sua mãe! A mulher casada com o seu pai você nunca vai conhecer. Você é a filhinha do papai, Hera? Melhor que sua mãe? Se sim, você vai casar com o filhinho da mamãe.  

Ah, a sua mãe ficou fazendo confidências das dores de amor dela com o seu pai? E você ficou escutando!? Por quê? Era pequena demais para se desvencilhar? Entendo. Mas agora você é adulta, já mandou ela parar? Ela não parou e até te excomungou? Entendo! 

Já tentou conversar racionalmente, ou brigou, chorou, já a excluiu do seu coração ou a mandou fazer terapia e não adiantou? 

Claro que não! Ela é a sua mãe e não sua amiga ou sua paciente, ou algum réu que mereça seus julgamentos. 

Por que até agora você não saiu para tomar sorvete toda vez que ela torturou você com as dores dela de mulher? É proibido para uma filha escutar as dores de amor da mãe. 

Se a mãe insiste em torturar os filhos com isso, saiam para tomar sorvete, sem brigas, até ela se tocar que precisa de um terapeuta. Não digam isso para ela! 

E aí, Hera?! Aquele gostoso do Zeus apareceu e fez você se sentir mulher desde o meio das pernas até o coração?! Tempos maravilhosos que parecem impossíveis agora? E aí ele ainda trocou você por uma mulher mais jovem?!  

Bem, ela não o conheceu jovem como você, meu amor! O que vocês têm é muito valioso. Se você ainda ama ele, como vai conquistá-lo novamente? 

Ah, não?! Tem orgulho? Sei como é. E por trás deste orgulho tem uma menina ferida com o pai? Já está na hora de resolver isso! 

Ah, não?! Você casou porque ele servia para salvar você de uma vida infeliz com a sua família? Aí você decidiu casar com ele?! Bem, e tem certeza de que não há amor de mulher para homem como ele? Não?... Então, porque se vinga da amante que tem o amor que você ainda não viveu?  

Ah, Hera! Você é corajosa nestes tempos em que o casamento virou piada e descrédito! E depois de tudo o que você passou! Minhas reverências! A esperança sobreviveu às experiências. Mas a Sêmele também tem algo para dar, a Sêmele que existe em você! 

 Ah, você o amava muito e ainda o ama? Mas por que você trancou o coração assim que se casaram? Afinal, ele ia tirar a dominação (ou a falta) do seu pai sobre você.  Foi aí que você esqueceu de amá-lo, quando se viu trocando seis por meia dúzia? Quando você projetou nele o pai ausente? Ou tirânico, ou o péssimo marido da sua mãe? 

Ele não é o seu pai, Hera! Para de projetar isso nele! 

E quando foi que você deixou de ser a mulher casada para virar a mãe do seu marido? 

Então vocês dois se casam e você faz a lista de todas as expectativas que ele precisa atender? Para você, quem sabe, adiar o dia de abrir o coração fechado há tanto tempo, quando a relação com seu pai era muito difícil ou nem existia?  

Ou a relação com a sua mãe era difícil demais porque ela ficava em casa cuidando de tudo, ou trazendo o sustento para casa, mas não era respeitada como foi o seu pai em seu coração? 

E aí?  

Para compensar tudo isso você cumpre todo o protocolo de excelente esposa, socialmente falando, e a mãe adorável e competente?!  E todas estas tarefas também têm ajudado você a não acessar o seu coração ferido? 

Cadê a sua mãe nesta história toda? Cadê a sua conexão com o mundo feminino?  Embora ela tenha estado todo o tempo ao seu lado, foi com seu pai, por falta ou excesso dele, que você se construiu. Como tomar o pai, como filha, se ainda falta a sua conexão com a sua mãe, Hera? 

São tantas as dinâmicas nos levando a fechar o coração, não é? Qual seria a sua, a minha, a de todas as mulheres corajosas que, como faz Hera, resolvem levar uma relação de amor ao casamento? 

Por que muitas de nós preferem a segurança financeira à vulnerabilidade do amor? Seria por medo da vulnerabilidade mais do que por interesse? Por que algumas de nós mulheres deixamos de seduzir o namorado em nosso marido, mas exigimos dele toda a atenção? 

Por que algumas mulheres escolhem um homem só para ser o pai dos nossos filhos, mas não os nossos homens amantes? Não há problema se vocês concordam em ser assim. Mas se você quer viver o amor na relação, algo tem que mudar. 

Por que algumas mulheres esqueceram das suas “coisas de estado”, assumindo as “coisas de estado” dos seus maridos com tanta abnegação que podem explodir uma galáxia inteira de tanto rancor? 

Sim, é cultural como ainda construímos o casamento onde a mulher não é incentivada a cuidar das coisas dela. Aliás, as mulheres são incentivadas a pensar que o casamento é coisa delas, enquanto os homens não recebem este incentivo, fazendo crer que o matrimônio é responsabilidade da mulher e não do casal. 

Desde pequenas nos falam sobre a felicidade proporcionada pelo casamento. E para os homens dizem a mesma coisa: como as mulheres serão felizes casadas! Mas olha que coisa incrível! Tem muito mais homem casado do que mulher que quer casar novamente. 

A Hera que está dentro de cada mulher tem a sabedoria para mexer nesta balança.  Quando é que você deixou de cuidar de você e das suas coisas? Não me venha dizer que marido e filhos são as suas coisas. Marido é coisa do casal, como esposa e filhos também. 

Os homens cresceram achando que tudo o que fazemos para o amor se manter no casamento é natural. Que saco, né?! E eles mesmos não precisam fazer tanto. É cultural... Esta mesma cultura, que exige dos homens outras coisas desafiadoras, mas não exige que sejam bons maridos. 

Por exemplo: em família, um pai virar chacota, embora possa ser um excelente marido e pai. Mas não é culturalmente aceito isso deles. Por isso que as alienações parentais são muito mais contra o pai do que contra a mãe. Não porque os homens abandonam as famílias, deixando com as mulheres todo o cuidado dos filhos, mas porque nem a gente acredita que possa haver bons maridos e bons pais. Mas estamos falando de você, Hera! 

Se durante o casamento a mulher cuida das coisas dela, geralmente não é vista, respeitada ou valorizada, não é? Ela GERA a vida e, no capitalismo, gera uma riqueza não remunerada, cuidando de tudo o que os homens e seus trabalhos remunerados não cuidam. E mais, acham que eles não têm que cuidar. 

Por isso, Hera, viva o feminismo, que tenta igualar o papel de homens e mulheres nas diversas esferas de convívio e troca. 

 E como você é a vitória da esperança sobre as experiências, onde está aquela jovem cheia de sonhos e paixão que agora você enxerga no rosto daquela sirigaita amante do seu marido? 

Xinga ela, sim, aquela brega, puta, exibida e vulgar! 

Quando você se esqueceu de ser tudo isso também? Puta, brega, exibida, vulgar, sentimental, apaixonada, feliz consigo mesma, e normal? 

Deixa a Sêmele que mora em você beijar a primeira boca gostosa de um homem que olhar você com carinho! Talvez assim, como amante de outro, você se torne tão vil como seu marido e aquela estraga-lares! E só assim possam retornar à relação. Afinal, gambá casa com gambá, mas Santa não casa com galinha. 

E o perdão, pelo amor de Deus, não, né? Se vinga com amor do marido traidor. Vingança com amor significa revidar um pouco menos, pois assim o equilíbrio se restabelece. (Hellinger, 2007).




              
                         4.3  Sêmele

Mulheres e homens podem estar tomados pelo arquétipo de Sêmele. Sua versão bloqueada coloca todo o seu amor profundo e verdadeiro em uma relação "impossível", assim foge da monotonia que imagina encontrar no casamento. Mesmo querendo verdadeiramente amar e casar, é mais salvadora, vítima e algoz, do que mulher-amante. Precisa de tempo para escolher e estar pronta para um encontro autêntico de amor às claras, numa rotina onde se é protagonista.

Sêmele também teve emaranhamentos familiares que a levaram a se envolver com um homem muito mais velho e casado. 

Não precisa ser mais velho. Só precisa ter algum impedimento que garanta a ele se manter a menina-amante, até estar pronta para virar uma mulher e assumir a Hera nela. A amante que quer também se casar. 

Quando foi que você, homem ou mulher no lugar de Sêmele, resolveu salvar o seu pai e ou mãe do casamento deles? Quando você descobriu que sorrir, assim de lado, seduzia mais o seu pai do que as reclamações e insatisfações de sua mãe com ele? Quando você começou a dizer que ela competia com você, sem perceber que seus pais usavam você para as brigas ou hiatos pessoais deles? 

As Sêmeles sempre ficam no meio das rajadas de amor insatisfeito, mantendo o que o casal não consegue fazer: se amar. Sim, seu amor é verdadeiro, Sêmele! E você desperta o amor, mas não tem coragem de leva-lo a cabo numa relação de casamento. Ainda... 

No caso de um rapaz no lugar da Sêmele: quando seu corpo jovem e musculoso, ou sua inteligência, começaram a ser muito melhores do que o seu pai bêbado ou desatencioso? Ah, ele ser bêbado ou frio com a sua mãe justifica você ser melhor para ela do que ele foi? Já parou para pensar que você não deve ser o homem da sua mãe a não ser que queira ser engolido pela esfinge? 

É mais seguro ser filho do que amante dela.  

Quando foi que o seu pai expulsou você de casa ou disse que não ia bancar vagabundo, filhinho da mamãe? Quando foi que você achou que tinha problemas sérios com o seu pai, sem perceber que estava no meio das insatisfações da sua mãe com ele? 

Quando foi, Sêmele (moço ou moça), que você quis ter uma mãe boa, porque a sua a atacava tanto como se fossem rivais?  

Ou: quando você quis um pai bom, pelo mesmo motivo, menino? Você nunca percebeu que flertava com o genitor do sexo oposto, como uma criança que não tem ideia do que tudo isso significa? E que o seu pai ou mãe, “amante de mentirinha”, depositava em você tudo aquilo que esqueceu de tentar no casamento e em sua própria vida? 

Quando é que o seu pai ou mãe pegou você a serviço das frustrações dele/a? 

Como diz Marie-Louise Von Franz:

 

“A atmosfera invisível é muito mais poderosa do que aquilo que se vê. Por isso Jung nunca escreveu muito sobre pedagogia. Ele dizia que não faz muita diferença o que você diz ou faz com os filhos. O que importa é que você seja saudável, irradiando assim uma atmosfera saudável e positiva. Nesse caso, não faz muita diferença o que se diz. De qualquer forma, os filhos não ouvem mesmo. Eles reagem ao que está por trás. As crianças, por assim dizer, ainda estão nadando no inconsciente, na atmosfera de uma situação, e é a isso que reagem.” 

Ser traída em um casamento e depois virar amante de um homem (ou mulher) casado, não fez você lembrar da dança das cadeiras? Uma hora você é a sua mãe se sentindo desprezada pelo seu pai, ou, como você se sente agora com seu marido e a outra. E na próxima cadeira, você é a amante, ou aquela menina que você foi e sobre a qual o pai depositou toda a atenção que não dava à esposa, a sua mãe. 

Está pronta para sair desta triangulação imposta: vítima, algoz e salvador? 

Está pronta para ser tomada pelo seu lado Hera, projetado em sua mãe, e assumir o desejo de uma relação mais inteira? 

Está ficando pronta para propor para o seu amante casado um namoro sério, só você e ele? Vai aguentar a culpa? Ele não é seu pai, é um homem. E você está pronta para aguentar a culpa da dor que vai causar na esposa do seu amante? 

Ou você acha que não causou nenhum dano até agora, se mantendo escondida? Ela não é a sua mãe, é uma mulher como você. Ela não é a sua rival, porque o seu amante, marido dela, não é um prêmio.  

Se vocês três estão nesta relação, os três estão sendo forçados a aprender algo. Pode até ser que decidam viver o triângulo às claras, solenemente, o que não impedirá a dor e nem resolverá a questão.  

A mulher ou homem rejeitado no triângulo doloroso terá que refazer a vida afetiva como todos os outros dois. O traidor ou traidora terá que lidar com a dor que causou em alguém que ama. Terá que bancar o golpe que executou e fazer uma nova relação com a esposa (ou marido) ou o/a amante! 

A amante, ou o amante, se conseguiu o parceiro de outro para si terá que ter coragem de não sabotar a futura relação com ciúmes doentios, por conta da culpa de fazer o antigo parceiro sofrer e perder a relação. 

Todos sairão feridos, mas livres do encantamento inconsciente que os levou a esta situação. Ou não. Às vezes, repetimos este jogo dramático várias vezes até nos libertarmos dele. 

Mas Sêmele, você foi rejeitada por Zeus. Está pronta para deixar o inferno da rejeição fazer efeito em você?

 


Consegue sentir esta dor e ao mesmo tempo reconhecer o amor dele por você?  

Mesmo não tendo ficado com ele, está pronta para deixar esta dor transformar você em mulher-amante? 

Para o homem que é amante de uma moça casada é a mesma pergunta: está pronto para virar homem ao invés do menino-amante?


Colagem de Mariano Peccinetti

O que você buscava em um homem que tinha uma esposa? O que você buscava em uma mulher que tinha um marido? A mãe boa ou o pai bom que você não consegue com seus pais verdadeiros porque virou rival deles sem saber? 

Se o seu amante estivesse sozinho, disponível só para você, o que faltaria? A visão redentora da prisão invisível onde você aporta seus relacionamentos triangulares? Faltaria a visão da amante de mentirinha de um genitor frustrado, que você virou? Da rival de mentirinha do outro genitor, que a ataca como se você fosse uma amante real? 

Na verdade, se este for o caso, talvez seja hora de você refazer o caminho de amor para os seus pais e não ser mais o para-raios das brigas amorosas deles. Eles, seus pais, não precisam mudar, mas você, sim. 

Por isso, Sêmele, você foi atingida em cheio pelos raios orgulhosos do medo de Zeus. Foi um raio divino, como o raio que atingiu a Torre, no baralho do Tarot, para tirar você daquelas brigas que não lhe dizem respeito. Para acabar com uma ligação invisível, na qual o seu pai depende emocionalmente de você. 

Pode ser também que seus pais nunca brigaram, mas seus avós sim. A Constelação Familiar já nos mostrou que os emaranhamentos podem ser mais antigos e a gente nem era nascido, embora atinjam em cheio os nossos destinos. 

Esta é a sua chance de renascer como mulher, Sêmele. Todo nascimento dói e leva tempo, o tempo de Dionísio, seu filho, ficar adulto. O tempo dele é a força regeneradora para tirar você daquele inferno. Ao menos foi o que Jellouscheck falou amorosamente para a Sêmele em seu livro. 

Ainda dói depois de todos estes anos, não é Sêmele? Talvez a reconforte saber que você estava, como Zeus e Hera, no caminho do amor verdadeiro, porque ninguém sai como antes depois de vocês três. Então, siga em frente e dê o próximo passo, chegue ao quarto.







[i][1] Triângulodramático: Jogo transacional que explica os papéis de vítima, algoz e salvador.  Geralmente atuamos os três papéis, mesmo que nos identifiquemos mais com um deles. 

[ii][2] Amor interrompido ou movimento interrompido: Bert Hellinger observou que se, por algum motivo, a criança não pode acessar o pai ou a mãe quando ainda era muito jovem, para não sofrer, e muitas vezes para não enlouquecer, interrompe o movimento que a levaria ao pai ou à mãe que não está presente. Pode ser a morte prematura dos pais, pode ser que a mãe, o pai ou a própria criança ficou internada sem poder ter contato. Pode ser uma viagem longa, que separou a criança dos pais etc. 

[iii][3] Acho que na série Outlander somos conduzidos muito mais para os ensinamentos do conjunctio – casamento interior –  na jornada feminina, do que para a triangulação amorosa, embora a Claire Beauchamp, em sua jornada no tempo, quando casou com o James Fraser no século XVIII, era casada, no século XX, com Frank Randall. 

[iv][4] Hans Jellouscheck. Sêmele, Zeus e Hera: o papel da amante no triângulo amoroso. São Paulo, Ed. Cultrix: 1987.



6 comentários:

  1. Manika!
    Esse teu texto está fabuloso, cada parágrafo é um oceano de amor. Gratidão imensa por teres parado para escrevê-lo! Sobre Outlander, meu casamento nunca mais foi o mesmo depois de ler os oito volumes, cada um foi quase uma vida vivida mas tantas reflexões viscerais sobre o casamento, o ser homem e o ser mulher, o ser homem para aquela mulher e o ser mulher para aquele homem... nossa, tantas coisas... E o livro do Jellouscheck que me indicaste na minha constelação individual e sobre o qual falaste e citaste aqui é um manual de cabeceira agora!! :) Namastê!

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  2. Oi Renata! Muito obrigada pela tua participação aqui! Sim, o Outlander é uma história sobre casamento e outras temáticas, mas principalmente o casamento. É incrível mesmo. E o livro do Jellouscheck é maravilhoso. Amo! Leio sempre que posso. Namastê e obrigada! <3

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  3. Meu Deus!!!
    Que texto FABULOSO :-)
    Gratidão, eu vi minha história sendo recontada através desses mitos.

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  4. Ola Mônica. Seu texto é espetacular mesmo. Fiquei curiosa sobre qual é o livro do Jellouschech a que se refere ;)

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    1. Achei a referência do livro. Semele Zeus e Hera. Tinha passado despercebido. :)

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