11 de abr de 2018

67) Por que é tão difícil carregar a nossa Estrela - Marie-Louise Von Franz

POR QUE É TÃO DIFÍCIL CARREGAR A NOSSA ESTRELA?
Desde a Inflação do ego até os desafios da democracia





Trecho do livro:
Von Franz, Marie Louise e Boa, Fraser. O Caminho dos Sonhos. São Paulo: Cultrix, 1997: 60-63


Fraser Boa (FB)
(...) Que aspectos da psique a humanidade projetou nas estrelas, tornando-as simbólicas?



Marie-Louise Von Franz (MLVF)
O mundo das estrelas sempre foi encarado como um mundo de seres divinos e eternos. Por isso em várias partes do mundo ocorre a tradição folclórica segundo a qual o aparecimento de uma estrela cadente corresponde ao momento em que a alma desce à Terra e uma criança nasce. Na China e no antigo Império Romano, quando morria uma pessoa notável os astrólogos procuravam uma nova estrela no céu, acreditando que a alma do moribundo voltaria para o céu e novamente tornar-se-ia uma estrela. (...) Assim a estrela tem a ver com a eternidade do aspectos único da personalidade. É isso que foi projetado na estrela.

FB
A estrela de Belém teria o mesmo significado simbólico?



MLVF
Ela se encaixa perfeitamente em nosso contexto: quer dizer, quando uma personalidade extraordinária nasce, uma estrela nova e brilhante aparece no céu. Foi dessa forma que os três Reis Magos a interpretaram de imediato. (...) Uma nova estrela significava que alguém em algum lugar – um imperador, um grande governante, ou uma nova personalidade que mudaria o destino da humanidade – tinha chegado à terra.



FB
Poderíamos agora examinar o sonho do Rei Gilgamesh? Este poderoso soberano da murada Suméria chamada Uruk teve um sonho que foi considerado importante o bastante para ser gravado na pedra. Eis o sonho de Gilgamesh:

“No meio da noite, eu caminhava com orgulho por entre meu povo. O céu estava cheio de estrelas. De repente, uma estrela do deus celestial Anu caiu sobre mim. Tentei reergue-la, mas era pesada demais para mim, toda Uruk reuniu-se ao redor da estrela, e o povo beijava seus pés.”




MLVF
Este sonho tem certa de 4.600 anos. Ainda hoje encontramos paralelos modernos, pois a linguagem do inconsciente mudou muito menos do que a da consciência. Interpretando este sonho de um ponto de vista moderno, poderíamos dizer que até o momento em que a estrela caiu sobre Gilgamesh ele desempenhava o papel coletivo de um rei-herói. Ele é o homem típico que com ambição e sucesso segue um padrão coletivo. Na realidade, poderia ser um grande político ou um astro do cinema – um homem que trilhou certos caminhos coletivos e atingiu um alvo. De um prisma interior, uma pessoa desse tipo reage de modo bastante coletivo, desempenhando um papel coletivo de poder. Pessoas assim, em geral, não são muito individuais.



A estrela, por outro lado, representa o que há de único nele – cada alma tem uma estrela no céu. Podemos dizer que até o aparecimento da estrela, Gilgamesh, com todas as suas realizações coletivas de poder, não havia feito nada de único. Pelo contrário, apenas cumprira o padrão típico de um reo-herói. Nesse ponto, provavelmente por volta da metade da vida (porque é então que isso costuma acontecer), algo muda.

Enquanto ele caminha por entre os súditos, orgulhoso de sua própria condição de poder, uma estrela cai do céu sobre suas costas. A estrela acaba sendo um pesado fardo. É esse o momento em que seu destino se abate sobre ele, literalmente caindo-lhe nas costas. Isso quer dizer que, assim como Cristo precisou carregar a sua cruz, Gilgamesh agora precisa carregar o fardo de ter que se tornar o indivíduo escolhido e único que devia ser, tarefa esta que evitava sendo um homem coletivo e ambicioso.

Mas a estrela também significa a alma imortal. No Egito, por exemplo, aquela parte do ser humano que sobrevive à morte é a alma Bá, desenhada como uma estrela. É o núcleo eterno da psique e sempre representou o homem eterno e único dentro de nós. Assim, Gilgamesh deve agora seguir seu destino único em vez de desempenhar um papel coletivo – o que revela ser não um chamado glorioso, mas um pesado fardo.

Até a estrela cair sobre ele, Gilgamesh, considerava a si mesmo um grande homem. Ele era um rei, um herói, a fortaleza do seu povo. Mas agora ele deve perceber que não é grande coisa. O que o povo cultua é a estrela de pedra, aquele algo maior que há nele, e não seu poder coletivo. No sonho, o povo beija os pés da estrela, não os do Gilgamesh. O povo prostra-se diante da estrela, que é a sua verdadeira grandeza. O sonho contém, portanto, uma pequena lição para Gilgamesh: “Não tome pessoalmente as honrarias e os elogios que o povo lhe faz. É a estrela sobre você que ele cultua. Você tem o dever de tornar-se um indivíduo único. É isso que é cultuado em você, e não sua pessoa. E esse será seu fardo mais pesado.”. Assim, desse ponto da épica em diante, Gilgamesh torna-se servo da sua missão heroica e única, a busca da própria imortalidade.

FB
Por que é que é tão pouca gente segue sua própria estrela? Por que é ela um fardo tão pesado?



MLVF
Porque seguir a própria estrela quer dizer isolamento, não saber para onde ir, ter que descobrir um caminho completamente novo para si mesmo em vez de simplesmente seguir o mesmo caminho pisado que todos usam. É por isso que o ser humano sempre teve uma tendência a projetar o aspecto único e a grandeza do seu ser interior sobre personalidades exteriores e a tornar-se seu servo, seu devoto servo, admirador e imitador. É muito fácil admirar uma grande personalidade ou tornar-se discípulo ou seguidor de um guru ou um profeta religioso, ou admirador de uma grande personalidade oficial – o presidente dos Estados Unidos – ou então viver a serviço de um general que você admira. Isso tudo é muito mais fácil do que seguir a própria estrela.



FB
Que tipo de pessoa atrai a projeção da estrela?



MLVF
Aquele que nasce com qualidades extraordinárias, como inteligência ou algum outro talento. Essas pessoas superdotadas estão sujeitas a projeções, e a devoção alheia cria nelas uma tentação a desenvolver uma inflação. Ora, a inflação é uma supervalorização de si mesmo. Em vez de dizer: “Eu não sou meu talento, eu não sou minha inteligência. Nasci com um bom computador é isso é tudo. Não há mérito nenhum nisso”, essas pessoas tendem a se identificar com seus dons e ficam cheias de si, infladas como um balão. Sempre que alguém tem algum sucesso pode-se observar uma inflação em pequena escala, pois logo em seguida a pessoa adota maneirismos arrogantes e condescendentes. Como é natural, muitos dos que fizeram história eram inflados. Alguns imperadores romanos, por exemplo, sofriam do que se convencionou chamar de loucura dos césares.



FB
Inflação então é ter uma opinião irreal a respeito de si mesmo. Mas seria possível não ficar inflado? Será que as pessoas conseguem estimar com alguma precisão o próprio valor?



MLVF
Bem, a dificuldade é que por natureza ninguém pode fazer uma avaliação correta do seu próprio valor. Ninguém sabe direito o muito ou o pouco que vale. Quer dizer, pergunte a alguém: “Vamos lá, honestamente, você é uma grande pessoa em comparação com os outros?” Todos acabariam admitindo que não têm a menor ideia. Trate-se de um sentimento subjetivo. Ou a pessoa tem um sentimento de inferioridade e sente que é o último dos vermes, ou então ela tem um complexo de superioridade e se sente eleita, acima da média. A maioria oscila entre dois polos. Nos neuróticos isso é mais extremado do que nas pessoas normais, mas todos passam por dias em que se sentem ninguém e dias em que estão no topo do mundo. Essa é a oscilação normal e poder-se-ia dizer que a personalidade é normal quando a autoestima se aproxima daquilo que a pessoa é, do que conseguiu realizar, das características do ambiente, etc. Mas trata-se realmente de algo muito indefinido.



Qualquer falta de equilíbrio nesse aspecto, abaixo ou acima do nível certo, provoca uma irritação no ambiente. Para saber se uma pessoa tem uma inflação, basta observar se ele ou ela deixa os outros nervosos. Caso isso se dê, a pessoa em questão está se valorizando um pouco demais, ou então se diminuindo – pois a inflação liga-se a sentimentos de superioridade ou inferioridade. Este último é uma inflação velada. Quem se sente inferior, na verdade tem ambição e quer ser maior do que é, quer ser grande e sabe que não é. A inferioridade é uma inflação e, portanto, irrita.

Às vezes as pessoas dizem: “Bem, a senhora sabe, não consigo. Por que a senhora acha que sim? Não sou capaz, sou burro não consigo pensar”, e assim por diante. Então eu respondo: “Pare com estas bobagens. Faça o que você tem que fazer.” Na verdade, essas pessoas estão se exibindo ao se considerarem inferiores e incapazes, o que é muito irritante. Portanto a única coisa que se pode fazer é adotar uma perspectiva extrema – perante Deus, por assim dizer – e concluir que ninguém sabe que é importante e que não é.

FB
Falamos sobre o perigo da inflação para a pessoa que atrai a projeção da estrela. Mas o que acontece com a pessoa que projeta a sua própria estrela – o Self – sobre outrem?



MLVF
Vejamos primeiro o lado positivo. Se o Self estiver projetado, cai-se num tremendo estado de admiração pela pessoa sobre quem recaiu a projeção, um incrível fascínio e devoção por aquela pessoa. A vantagem é que se pode aprender algo quando se projeta o Self sobre alguém realmente sábio e superior. Esse é o segredo de muitas curas milagrosas; as pessoas projetam o Self sobre uma personalidade com poderes terapêuticos e devido a seu fascínio e a sua fé são curadas de doenças psicológicas ou psicossomáticas. De modo que essa projeção funciona como um veículo para a cura. O mais comum, porém, é que essa fascinação seja negativa e acabe levando a pessoa a infantilmente abdicar de si mesma e curvar-se perante outrem, cultuando o grande líder, o grande guru espiritual ou seja lá quem for. Como essa projeção a pessoa perde-se e permanece infantil. Quem está nessa situação costuma ser fanático em sua admiração, defendendo o outro de seus inimigos e usufruindo da glória do seu mestre através de uma identificação. A projeção os poupa de fazerem um esforço próprio.


O grande homem ou a grande mulher farão tudo por eles, e sua tarefa resume-se a aplaudir e admirar. Eles não fazem esforço algum para se tornar mais inteligentes, mais esclarecidos ou independentes. Uma projeção desse tipo acaba aniquilando a personalidade. Naturalmente, isso também depende da pessoa sobre quem recai a projeção do Self. Se esta tiver uma inflação e manipular o poder para incentivar admiradores e seguidores, as consequências serão devastadoras. No Oriente há mestres que conhecem muito bem os perigos da dependência infantil e não aceitam projeção – eles remetem os novatos e discípulos de volta ao seu próprio trabalho interior.

FB
A psicologia individual costuma refletir-se na sociedade. O que pode então ocorrer quando todo um grupo coletivamente projeta o Self num único indivíduo?



MLVF
Bem, nesse caso você tem monarquias ou ditaduras. Os reis de todas as épocas chegando até o chefe de uma tribo primitiva. São todos portadores do símbolo do Self. A vantagem é que essa tribo ou povo tem um símbolo unificador que agrega as pessoas. Esse tipo de projeção de um símbolo vivo do Self corresponde a uma necessidade profunda do ser humano. É por essa razão que o rei deve ser virtuoso e generoso. Ele deve ostentar todas as qualidades de um homem superior. Se ele de fato as possui ou não, é outra questão – espera-se ao menos que ela as exiba. O estudo da história do poder mostra que este fenômeno atinge níveis profundos. Os membros de tribos primitivas acreditam que o rei, ou aquele a quem chama de chefe, encarna a própria vida da tribo; portanto, caso se torne impotente, ele é morto. Caso contrário, a tribo inteira ficaria impotente e a Terra perderia a fertilidade. O rei é a garantia da vida.



Se adoecer, um chefe primitivo é executado, pois não se pode ter um rei inválido. Ele é o princípio vital, a encarnação do princípio divino e totêmico da tribo – ou seja, um símbolo projetado do Self. E como esta necessidade existe, quando as monarquias foram abolidas ditadores como Napoleão e Hitler receberam a projeção. Isso indica que as pessoas têm necessidade de projetar o self sobre alguma figura de liderança. Mas esse gesto é infantil e só ocorre porque queremos permanecer infantis. Não queremos assumir a responsabilidade.

A democracia é uma tarefa difícil, porque atribui responsabilidade política ao individuo e a maioria não quer assumi-la. Aqui na Suíça, por exemplo, apenas 25 % da população vota. O resto não quer ser incomodado. Esses não querem dor de cabeça – preferem achar que o Estado-pai resolve as coisas para eles. “Afinal, dizem eles, temos um grupo de líderes, que são figuras paternas, que são o Self, e eles farão tudo certo.” Tudo se resume a preguiça mental e psicológica.

FB
Preguiça...?



MLVF
Quando a pessoa tenta, fugir dos seus problemas, você deve em primeiro lugar perguntar se não é por preguiça. Jung certa vez observou: “A preguiça é a grande paixão da humanidade, maior até que o poder, o sexo ou qualquer outra coisa”.



Trecho do livro:
Von Franz, Marie Louise e Boa, Fraser. O Caminho dos Sonhos. São Paulo: Cultrix, 1997: 60-63

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