1 de jan de 2018

64) A Jornada de Iniciação Masculina

JOÃO DE FERRO, BOYHOOD e CAPITÃO FANTÁSTICO

A Jornada de Iniciação Masculina


(tem spoiler)


O texto abaixo é sobre a jornada masculina, segundo Robert Bly [i] em seu livro João de Ferro, analisada nos filmes Capitão Fantástico e Boyhood. Para os homens, de acordo com relatos de amigos meus que leram o livro de Bly ou fazem o Movimento Guerreiros do Coração, é uma possibilidade de legitimação do seu processo de individuação. Para as mulheres uma esperança e reencontrar seus parceiros e lembrar que nós também temos nossos mitos para auxiliar nossa jornada de singularidade.

Como toda boa obra, o filme Capitão fantástico, dirigido e escrito por Matt Ross, fala da criação dos filhos contra a decadência da dessimbolização da civilização ocidental. Uma civilização que optou por banir as trocas simbólicas [i] que dão sentido à vida por trocas de mercado. E em paralelo revela outra história: a jornada extraordinária de deixar de ser um menino para virar um homem. O despertar de um homem começa cheio de potência já na primeira cena, e é desafiado até o final, como qualquer vida que se preste viver.











Em Boyhood, do maravilhoso cineasta Richard Linklater, a trajetória de um menino até a sua juventude termina com um horizonte um pouco vazio de sentido e muitas possibilidades a partir desta falta. Há uma certa melancolia no céu de fim de tarde. A história em segundo plano também fala da formação de um homem, mas no mundo dessimbolizado. Tanto é que a mãe do protagonista  está também sem  os aliados simbólicos para o seu processo de individuação, apesar de toda a emancipação conquistada num mundo machista de homens-crianças como foi mostrado ao longo no filme.

O que faltava em Boyhood não como filme, mas como sentido existencial era o elo com o mundo arquetípico masculino no protagonista e em seu pai. E o elo com o mundo feminino na mãe dele. Eu só entendi esta falta depois de ler o livro “João de Ferro” de Robert Bly. Então a passagem de um menino para a vida adulta na sociedade atual (inclusive porque foi filmado ao longo dos 12 anos da maturação do ator mirim), está sem a potência do pai e do marido, que é ausente. O filme parece que se passa todo naquela fase do conto João de Ferro, quando a bola de ouro do príncipe fica presa da jaula do homem selvagem e não pode mais ser resgatada, a não ser que ele busque a chave debaixo do travesseiro da rainha (mãe) e vá fazer a sua jornada masculina.


 Estas lacunas, brilhantemente reveladas na película de Linklater, pretendem ser superadas nos métodos de criação dos filhos do Capitão Fantástico.


Ellar Coltrane durante os doze anos de gravação do filme


Aquele rapaz sensível e receptivo, artista e carismático de boyhood foi lançado ao mundo sem a força do homem selvagem, que nenhuma barba lenhador vai conseguir suprir. Talvez esta moda seja uma esperança – que não funciona sem seu contexto simbólico e ritualístico - de poder acessar um elo perdido com a masculinidade, que a revolução industrial e a moral religiosa trancafiaram em seus porões. Há, segundo Bly, cinco aspectos da masculinidade que são representadas pelos cabelos do homem selvagem em João de Ferro, e que aparecem com força nas imagens do Capitão Fantástico. Elas foram suprimidas na civilização ocidental de diversas maneiras.

São elas, por exemplo, o espírito caçador que liga os homens aos seus ancestrais. Não é transpor esta faceta ao caçar mulheres ou virar caçador profissional.  É um estágio onde o menino quer caçar mesmo. Muitos de nós, eu inclusive, não suporta este estágio do masculino. Problema nosso. Mas ele surge em algum momento com estilingues e passarinhos caídos e, depois, é integrado. Há também o surgimento de um temperamento mais quente, como fogos de artifícios, que a gente não suporta porque fere os ouvidos dos cachorrinhos. E é um problema mesmo colocar os cachorros na nossa sociedade castradora tão perto das nossas neuroses. Se eles estivessem em seus lugares, que os mesmos homens trataram de destruir, não teria tanto problema alguns fogos de ano novo. Os mesmos que simbolicamente lembram dimensões masculinas, segundo Bly.

Tem também a impulsividade apaixonada, segundo Bly, que é muitas vezes punida rigorosamente em algumas religiões ou medicada como DDA. Há a espontaneidade, o ciúme de tigre e a força de um leão. Todos estes “estágios” encaixotadas numa cadeira de escola que fixa nosso olhar num quadro negro, aos cuidados de boletins enviados aos pais. 

Algumas de nós a partir dos anos sessenta também, como mulheres, e eu me excluo totalmente deste desejo, começamos a querer e criar um homem com o lado feminino mais desenvolvido para contrapor aquele que nos reprimiu. Nem o homem se sentiu mais integrado em seu masculino positivo por meio desta estratégia, nem nós.

Nem o rifle dado pelo avô, no filme Boyhood, pode fazer esta passagem para o masculino adulto, porque ele não estava contextualizado em um ritual e não entrelaçou a convivência com os pai e avô do adolescente. Talvez até o prenda naquele lado sombrio da masculinidade que torturou o planeta, dominou as mulheres e que funda o imperialismo. Sim, o masculino e o feminino têm suas sombras.

Os avós, ou anciãos, segundo as antigas tradições e o Bly, são os reservatórios de sabedoria e a ligação com os ancestrais capazes de ajudar a tarefa de individuação. Eles e as anciãs são desprezados em nossa época. Até pelos motoristas de ônibus que não param para os idosos. 


O próprio carro que o pai do protagonista prometeu para ele, símbolo desta passagem da força masculina, foi vendido numa quebra de acordo e justificativas ultrapassadas. O pai neste filme ainda não aprendeu nada e ainda joga a culpa nas esposas. A presença forte de sua mãe também não pode ajuda-lo nesta tarefa de virar homem, embora tenha lhe garantido a sobrevivência e outras riquezas indispensáveis. No final ela também quer saber onde esteve este tempo todo que não acessou um sentido de vida. Só lutou para criar seus filhos e quem sabe achar um bom homem que nunca encontrou. Agora eu entendo aquela cena memorável e mínima, quase ao final do filme, que rendeu um Oscar à Patrícia Arquette.


Ellar Coltrane e Ethan Hawke - o pai.


Ela também não encontrou em nossa cultura um caminho para a sua feminilidade. O Feminino e o masculino não são o fim da nossa jornada, mas os meios da individuação. E isto não tem a ver com tutoriais de maquiagem e times de futebol que, dessimbolizados não cumprem a função de nos alçar ao nosso centro.

Patrícia Arquette - Boyhood

E por falar em todas as mães que têm que criar seus filhos sem a presença do pai: como mulheres nós não entendemos nada da iniciação masculina, mas o Robert Bly entende e o Capitão Fantástico também. Este é um filme para os homens (não importa a orientação sexual) e sobre as suas iniciações no mundo de sua masculinidade, o que lhes foi roubado e ainda lhes causa dores. Feridas que o empurram em busca da solução.

A primeira cena do filme, e a forma como a câmera é usada, nos coloca dentro da selva em um ritual de iniciação masculina. Joseph Campbell diz que os homens a partir dos anos 1930 do século XX não passam mais por rituais que possam lança-los a sua esfera masculina, permanecendo crianças. Milhares de mulheres descontentes com este cenário tentaram suprir esta lacuna em vão. Bly não só concorda com isso, como fala claramente que o conto dos Irmãos Grimm, João de Ferro, ensina sobre a saída da esfera da mãe para a esfera do pai, ao encontrar o Homem Selvagem por meio do contato com anciões. Com isso ele não diz que as mães são culpadas de nada, só mostra que todos os filhos e filhas têm que sair da esfera da mãe em algum momento para ir para a esfera do pai e depois, se for homem, ir ao mundo e se for mulher, retornar à mãe e, então, seguir para o mundo.

Bert Hellinger, um ancião quando descobriu as Constelações Familiares, mostra como o caminho para o pai, tanto para os meninos como para as meninas, é uma conquista e não algo dado e fácil de fazer. Não adianta dizer que o pai é quieto, não fala, não nos procura ou é agressivo e mandão. Este é o desafio dele. Nós como filhos e filhas temos o nosso desafio de procurar como chegar em nosso pai e construir uma relação só nossa com ele. Qual a melhor forma? Como será este caminho? É arte pura e muitas vezes precisamos de ajuda de um bom psicanalista. E, às vezes, é impossível se o pai ou a mãe atrapalham a própria vida que nos deram. Ainda assim não podemos excluí-lo do coração e não podemos caminhar para ele como se fôssemos amantes, terapeutas, mãe, pai, juízes, capangas da mãe ou vítimas vingativas. Se podemos ir até o pai é só como filhos ou filhas. Até quando cuidamos deles ao final das suas vidas caminhamos até eles como filhos e filhas.

Como você caminha em direção ao teu pai?
E o pai, quando vai entender a sua inestimável importância na criação dos seus filhos e filhas?  Nunca é tarde para tentar.

É neste sentido que a não aparição da mãe em nenhuma cena do Capitão Fantástico, a não ser na memória de seu marido, ou morta e enterrada, eleva a jornada de Bo, um dos filhos do capitão, à conclusão de sua transformação para o homem adulto. O adolescente tem que se despedir da mãe e ir para o pai e isto se dá, segundo Bly, quando a mãe solta o filho, ou o filho tem coragem de soltar a mãe. Então um ancião leva o menino para longe da família por um tempo ensinando coisas de homens e também o desafiando a ponto de machucá-lo fisicamente.  
Neste filme, o avô dos seis filhos do capitão é o pai da mãe falecida. Ele também se vê fracassado na criação da sua filha, projetando a sua culpa no pai fantástico. Desta forma, imagina poder ter  uma nova chance ao exigir a guarda dos seus netos. Se a princípio ele é o “vilão” do enredo, com o tempo se torna o catalisador do processo de individuação do capitão, do seu neto  mais velho Bo e do Rellian, o neto mais novo. 

Por meio do confronto com este ancião, o capitão fantástico questiona pela "primeira" vez os seus métodos, às vezes, radicais. Lembrando que radical é tudo aquilo que eu não aceito no outro. A radicalidade, então, não está no que um pai ou mãe escolhem para os filhos, mas de achar que ele, o capitão, na condição de pai pode emancipa-los sem que chegue o momento de confrontar a si mesmo, seus erros e acertos, e ser confrontado pelos filhos. 

O avô também é poderoso e bem adaptado ao mundo que o capitão tenta negar, personificando tudo o que a família fantástica aprendeu a desprezar. Com ele, o pai encara os efeitos da sua própria rebeldia e arrogância. Os caprichos do rebelde o prendem aquilo que ele rejeita, assim como a arrogância quebra uma árvore ao meio. Sua família corre o risco de se dividir, mostrando que tudo o que vem da família da mãe foi negado e agora pede uma reparação.


As cenas em que os dois brigam, de alguma forma me fez pensar na falta de respeito que o próprio capitão poderia ter pelo seu pai e toda autoridade. Como é que ele, ou um pai, pode pretender emancipar seus filhos sem prepará-los e sem soltá-los para as outras facetas e fases da vida? O ator Viggo Mortensen é tão bom que fica visível sua infantilidade amedrontada diante dos erros que fez revelados pelo avô autoritário.

A bola de ouro na gaiola do João de Ferro 
O elo com o Homem Selvagem perdido

Segundo Bly, o adolescente masculino em algum momento tem que ficar longe do pai e da mãe e ir para os anciões para serem iniciados. Os iniciadores sábios, então, mostram aos meninos ou meninas que eles são mais do que ossos e sangue quando os levam para cavalgar ou contam algum causo. Ou os colocam carimbado papeis enquanto eles/as comandam uma empresa ou os fazem misturar tintas quando pintam a fachada de um prédio ou uma mesinha de canto. Meu avô materno me colocava em sua oficina lixando madeira, enquanto fazia um escorrega para nós. E minha avó paterna fingia que não nos via pular a janela para ir paquerar os meninos no meio da noite. Sua cumplicidade nos dava coragem para voltar correndo se algo de errado acontecesse. Ela não ia nos punir nem nos dedurar por estarmos virando moças. 

 Pode parecer antiquado quando dizem que uma separação quebra o coração, afinal vivemos neste mundo de relações desfeitas a cada pequena frustração, mas falam de um lugar que nos conecta com Fontes profundas que nos levando além.

Estes encontros com os avós são mostrados em Capitão Fantástico no meio de uma grande perda e disputas ideológicas, a mesma que funda toda dinâmica bipolar. A mãe, no filme, sofria de bipolaridade, preço pago com o primeiro parto, mas que está permeando todo o filme quando a esfera da família da mãe rejeita os métodos do pai fantástico e vice-versa. 

A alienação parental dobrada, ou quando o pai rejeita tudo o que vem da mãe e a mãe rejeita tudo o que vem do pai cria esta gangorra onde a criança diante de um não pode ser o que vem do outro, alternando seu temperamento para se adequar. Nós também quando rejeitamos a diversidade das culturas e crenças para impor a nossa religião e a nossa visão de mundo criamos uma cisão intransponível que só a bipolaridade pode alcançar.

E quando o feminino tenta educar o masculino para ser homem e o masculino tenta educar o feminino para ser mulher, também precisaremos de gangorras de resgate. Inclusive, o corpo da mãe, às vezes, quando a relação mãe e filho tem que mudar, cria uma explosão física. O pai também, chega um momento em que se afasta um pouco da filha, fisicamente. Isto é bom, não é rejeição. É um ciclo necessário.

Nenhuma guerra pode solucionar este impasse. Mas no Capitão Fantástico houve uma solução: há uma cena em que o pai e os filhos entram pelo corredor de uma Igreja, numa cerimônia de despedida da mãe morta, vestidos com cores alegres e ornamentos feitos de peles e flores pelas próprias crianças. Se para o avô velando a sua filha isto é uma afronta e representa o fracasso total daquele pai vestido de “clown”, para a jornada do masculino é a chegada ao mundo dos avós, pela porta da frente das crenças que os separaram até então.

Ainda assim, o antagonismo chega a tal ponto que o velho acerta uma flecha bem perto do capitão, revelando que ele mesmo, adaptado à sociedade industrial, encontrou um caminho para o masculino dele. Que ele tem a potência anciã necessária para fazer a passagem do menino ao homem. Ele está conectado aos ancestrais de alguma forma.

Robert Bly enfatiza mais ainda, que não são as gangues que garantem a passagem do menino para a vida adulta de um homem, mas o vínculo com os ancestrais. Se não são as gangues que nutrem o nascimento do homem adulto, embora sejam necessárias quando o iniciador não está presente, derrubar o pai para tomar uma empresa, por exemplo, é muito pior. Desafiar o pai, ou uma pessoa mais velha como se nós fôssemos muito melhor do que eles, então, é um corte em nossos nervos mais profundos. Como se a gente fosse fantástica. Mas é verdade, os mais velhos também perderam sua conexão com esta missão de iniciadores e enchem os netos e os mais jovens com preleções e medos desnecessários.

Por isso, quando os filhos começam a questionar o capitão de diversas maneiras, ele se confronta com a sua própria arrogância e fracassos. Por exemplo, como um pai pode emancipar as filhas sem o veículo feminino? Como foi escrito acima:  o menino sai da mãe, vai para o pai e dele para os anciões e o mundo. A menina sai da mãe, vai para o pai, retorna para a mãe e de lá segue para as anciãs e o mundo.

Sem a mãe, resta às filhas do Capitão falar esperanto em uma cena na qual não se sentem compreendidas pelo pai. Uma forma delas se manterem no universo feminino sem a intrusão do princípio masculino. Em outra cena, o filho mais novo questiona o pai e seus métodos, querendo matá-lo e escolhendo viver com o avô materno. Esta escolha o fixa na esfera da mãe, negando a sua própria e necessária jornada para a esfera do pai. A presunção deste menino, que se torna melhor do que o pai para a sua mãe, só se compara à presunção do seu próprio pai. E a mesma arrogância dos dois cede quando o seu ferimento na alma é visto como o mesmo ferimento no pai. Diante da doença da esposa (e mãe) eles não puderam salvá-la.

Esta impotência, segundo Hellinger, é o que nos torna adultos, enfim. E humildes. Nosso amor não pode salvar quem a gente ama de seus destinos e “defeitos”. Aquela visão fantástica de que salvamos nosso pai e mãe de suas dores, colocando sobre nossos ombrinhos de três anos de idade toda aquela dor, se desfaz quando deixamos a impotência fazer o seu serviço. Se não deixamos ela atuar vamos enfrentar um chefe ou um emprego que vai nos mostrar como tratamos os nossos pais e mães.

Mas como ficam nossas cicatrizes de infância criadas pelos erros de nossos pai e mãe, da escola, da cultura, da sociedade em que vivemos? Esta mesma ferida que o filho mais novo e o mais velho, enfim, escancaram para o pai agora não tão fantástico assim? Estas dores que são nossas mesmas e não mais dos nossos pais?

O ferimento cobre o homem de vermelho, como a mulher fica menstruada. Segundo Bly, os ferimentos na iniciação ganham poderes. Sabe aquelas marcas de pequenas queimaduras que os extraterrestres deixam nos pés das crianças para elas se lembrarem de onde vem? Pois é. Os ferimentos são o mapa que a gente pensa que não tem. Podia ser menos doloroso?!!!! Sim, mas somos feito de carne para lembrar.

Não estou dizendo que as feridas são necessárias, porque os sádicos não entendem nada do que estou falando, estou dizendo que são inevitáveis. Então você mergulha na sua dor na relação com a sua mãe, porque ela foi muito autoritária, ou na dor com o seu pai, porque ele foi muito ausente. E então, ensimesmado, pode passar toda uma vida no divã de um mal analista que vai lamber com você a sua ferida, sem nunca encontrar uma solução. Ou, se tiver um Eugenio Davidovich em sua vida, vai ver que isto te levou além.

E se tiver um Joel Weser, constelador especializado em dores e doenças, te levando da dor pessoal da solidão para o avô morto na infância de seu pai e, quem sabe, daí para os povos indígenas dizimados, se em sua família tem ancestrais indígenas, verá que a tua dor na relação com teu pai te conecta com algum bisavô ou bisavó, e que se conecta à humanidade e, com eles todos, você resgata um parentesco que tem de tudo menos o vazio existencial constelado em Boyhood.

Saímos da dor egocêntrica para dor do não pode mais ser assim.  Elas, as dores, são os nossos gênios, nossos talentos, nossas vocações.  E nelas há muita força represada para emancipar-nos. Então, quando os filhos esfregam na cara do ‘pai nem tão fantástico assim’” os ferimentos que ele criou, e a filha mais velha sofre um acidente ocasionado por ele, seu mundo desaba. Ele errou muitas vezes, embora tenha acertado muito mais.

Quando é que a gente se toca que os nossos pais acertaram MUITO mais do que erraram? Quando é que aquela mágoa pode ser o veículo de uma iniciação ao invés de uma barreira em relação aos nossos pai, mãe e vida?

O capitão viúvo diante dos seus fracassos entrega os seus filhos para o avô, o sábio ancião. Mitologicamente, é como se ele dissesse aos meninos que aceita que eles entrem no mundo do homem adulto. Pega seu ônibus e segue a jornada sozinho. Raspa a sua barba, o cabelo original, o que mostra a sua chegada, enfim, ao mundo dos homens maduros. Quando o homem selvagem está integrado, os mais velhos são respeitados. Mais tarde o filho mais velho faz a mesma reverência numa cena simples e sem palavras. Como os homens gostam de se comunicar.

As crianças, no entanto e apesar das suas dores e cicatrizes, não aceitam ficar sem o pai. Elas voltam para ele cumprindo sua missão de caminhar para o pai abrindo mão de toda a expectativa de como ele deveria ser. Este é o caminho para o segundo pai, ou segunda mãe, quando encontramos os verdadeiros reis e rainhas exatamente como eles são.

É quando aprendemos que não foram as feridas criadas pelos nossos pais que nos impediram de seguir em frente. Elas são os nossos gênios se somos iniciados. Foram as nossas expectativas de que podia ter sido diferente que bloqueia o caminho.

Finalmente, tem a cena mais bonita do filme. E a mais triste e alegre, sensível e dura. A saída do mundo da mãe é sempre um funeral em nossa alma e está dissolvida em nosso inconsciente coletivo, como as cinzas espalhadas nos ralos do mundo. Não é qualquer mãe que liberta seus filhos de sua esfera. Nem mesmo se ela estiver morta. Mas esta mãe garante isso em seu testamento, homenageando o ciclo da vida, como nos rituais de ano novo.  Em Capitão fantástico[i], o filho mais velho é lançado ao mundo como homem desde a primeira cena. Depois chega ao avô, confronta o pai, caminha para o segundo pai, se liberta da mãe com o aval dela e parte para a sua vida - o desconhecido. 

Um caminho para os anciãos também foi criado para as filhas mais jovens, que precisarão da sua avó para fazer a sua jornada ao feminino.
Uma mensagem importante não escapou: não morra! 
Ou como o Hellinger diz: fique vivo!
“Eu fico vivo!”



Shree Crooks em seu personagem Zaja Cash - Capitão Fantástico


__________________________

[i] Meu agradecimento ao professor Matthias Bronk que me indicou este livro quando falávamos do Capitão Fantástico. 

[ii] Segundo Dany-Robert Dufour em “A arte de Reduzir as Cabeças”, as trocas deixam de ser simbólicas, carregadas de sentido, e passam a ser trocas de mercado. Tudo vira mercadoria e perde seu sentido.

[iii] No filme é citado algumas vezes o linguista  Noam Chomsky com suas posições políticas e o pediatra Benjamim Spock, mas eu conheço muito pouco da obra deles para poder entrar a fundo nesta discussão. Embora muito das ações do Capitão estejam alicerçadas nestes autores.

2 comentários:

  1. LI.
    OBRIGADA CARA MANICA, POR ATERRAR NOSSAS RAÍZES, as vezes,sem chão.
    OBRIGADA por fazer compreender que sempre estamos NO PROCESSO, e então, VIVOS e ,então, cheio de possibilidades de cura. FELIZ 2018! Espero e desejo poder estar na tua frequencia e desmitificar ,pouco a pouco, a vida, que parece poder ser mais bela ainda . carinho
    da gema

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    1. Oi Gema, obrigada pelo incentivo!
      Por estar aqui no blog, acompanhando! Pelos votos que recebo com carinho! Desejo a vc e sua família um 2018 maravilhoso! Beijos!

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