1 de set de 2017

60) Onde mora o Trickster ou por que nos sabotamos?





O Trickster é um arquétipo, muitas vezes encarnado em nossos atos desastrados, que prega peças na gente, ou desobedece às regras, para nos despertar do que não estamos vendo. Como é que a gente é vítima deste malandro que muitas vezes nos faz sabotar as melhores intenções?

Jung observou que cada um de nós se adapta melhor à realidade de uma certa maneira: pela intuição X sensação, ou pelo pensamento X sentimento. Esta adaptação é executada de forma bem sofisticada e elaborada, mas sua contrapartida fica no polo oposto mergulhada no inconsciente se portando de forma barulhenta, muitas vezes. É lá que o Trickster mora, para pregar peças na gente.

Por exemplo, se sua intuição é muito desenvolvida, então sua observação dos detalhes e sensações corporais não ficam muito conscientes para você, porque está no polo oposto da intuição, alojada em teu inconsciente. Você se adapta muito bem no mundo seguindo o teu faro, mas esquece o casaquinho se está frio.

Sabendo disso, você registra todos os passos que dá se precisa resolver um problema com uma empresa, por exemplo, anotando protocolo, datas e horas e escrevendo o que falaram, porque sua memória e lembrança dos detalhes te dá rasteiras. Ou você simplesmente ignora esta “fraqueza” e não anota detalhe nenhum ficando sem ter como te proteger futuramente. Pode também se cansar rapidamente dos assuntos burocráticos, até se tornando extremamente irritadiço ou com um sentimento de impotência diante da vida. Este é o trickster te dizendo alguma coisa, te pregando peças para você olhar para aquilo que não quer ver, ao mesmo tempo em que te faz perder o prazo daquela bolsa de doutorado. E aí, alguns intuitivos dirão: "não era para ser".


Se, ao contrário, você se adapta melhor com a sensação, então é capaz de entrar numa festa e se lembrar da roupa de cada pessoa (o Intuitivo vai sentir o clima). Ou vai conseguir embarcar em muitas aventuras sem nem pestanejar, se divertindo muito. Se alguém te falar em energia ou até te perguntar o teu signo é capaz de ter um chilique, desconsiderando totalmente estas idiotices, porque são coisas de gente fora da realidade, lunáticas mesmo. Isto porque, aquilo que é traduzido para o mundo por vias irracionais pelo faro intuitivo é o polo oposto da sensação. Que por sinal é irracional também, porque é instintiva e não passa pelo crivo do pensamento nem do sentimento, funções racionais da consciência, segundo Jung.

Aí a pessoa adaptada melhor na sensação, que nega sua polaridade intuitiva, pode sofrer de pesadelos sistemáticos e ter até uma crise nervosa. Pode também, se arrogar e fazer interpretações esdruxulas do que acontece em seu inconsciente, tomando decisões erradas por conta disso. São os mais propensos a ter ataques de fobia, porque seu inconsciente o invade com visões que ele nega. O trickster dele está lá, no medo das coisas que ele não pode tocar com seus órgãos sensoriais. Os que já aprenderam algo sobre seu polo oposto dizem: "eu não acredito nas bruxas, mas que elas existem, existem!" Uma pessoa polarizada demais na função sensação pode casar mil vezes antes de parar e escutar a intuição um pouco.


O desenho que ilustra esta publicação, “está errado”, se entendemos que muitas mulheres se adaptam ao mundo pela função pensamento e muitos homens se adaptam à realidade pela função sentimento, funções racionais que classificam e julgam, respectivamente, criando padrões. Embora culturalmente esperem da gente o que a ilustração propõe: que o homem aja de forma dita racional e a mulher de forma emocional. O sentimento, para Jung é bem racional, porque ele gera valores, então, razão não tem só a ver com classificações, mas com o que fazemos com nossos afetos.

Mas ele, o desenho, “está certo” ao nos mostrar como ficamos de costas para aquilo que não nos é familiar. E como ficamos vulneráveis e encolhidos em nossos mundos, com medo do outro lado negado. Sabotar vem de sabot, tamanco em francês, e tem a ver com isso: colocar o tamanco nas engrenagens para impedir o trabalho de seguir em frente.  Se uma maneira de estar no mundo não é mais adequada o Trickster, que mora na função inferior da nossa consciência, joga o tamanco no meio de nossa caminhada para chamar a nossa atenção.

É de lá que ele grita: É por aqui! É por aqui que você vai ver o iceberg de cabeça para baixo e inteiro, embora não possa ficar muito tempo sem se afogar.

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