26 de jun de 2013

27) Máquina ou Poesia?


Máquina ou Poesia? Como nos tratamos quando constelamos?
Escrevo este texto para compartilhar o que tenho refletido 
sobre a ação das Constelações em relação à postura 
do constelador, constelando e participantes.


          Como eu me trato quando adoeço ou sofro, como uma máquina que precisa ser consertada ou como uma poesia em busca de um verso mais harmônico? Como eu constelo, como um mecânico em busca do melhor encaixe ou como uma alma de carne e sentimentos?

         Ao longo dos meus últimos 20 anos a resposta desta pergunta foi surgindo antes mesmo de sua formulação. Como eu trato minha vida, relações e corpo?

Para responder a estas perguntas me deparei com outra questão: Afinal de contas, eu vivo emaranhada em qual paradigma? Será que sou refém de algo que eu nem sei?


                           “Tempos Modernos” (1936).



No itinerário intelectual ocidental a concepção de corpo foi perdendo suas sutilezas e se “grossificando” reduzindo sua multidimensionalidade a um punhado de carne manipulável. Atualmente somos um corpo máquina, sem alma. Ou, em outras concepções, uma alma dentro de um corpo impuro. Ou, uma alma, às vezes infestada de pensamentos negativos, adoecendo o corpo.





A vida, neste percurso, passou a ser uma incógnita diante do corpo cadáver ou máquina. A alma virou mente e a mente passou a ser colonizada pelos pensamentos positivos repetitivos, na maioria das vezes para conseguir riquezas e um bom partido. Se antes não havia separação corpo e alma e tudo era vida, agora estas duas esferas parecem ser irreconciliáveis e viver passou a ser um risco insuportável que necessita ser controlado.

Temos remédio para tudo e ninguém mais aguenta sofrer. Imagina amar, experiência extasiante, porém carregada de facas, dores e incertezas?




Neste sentindo, se o constelador tratar as constelações como uma chave de fenda capaz de arrumar uma disfunção, qual o papel dele e destas dinâmicas? Como ele olha para vida, para a alma/corpo, para aquele “a quem” constela? Se um constelando e/ou participante vai a um encontro de Constelação e se coloca como objeto a ser consertado, que tipo de visão de vida, alma e corpo eles estão submetidos? Quais resultados colherão? Como eles veem o constelador e a si mesmos? Que conexão estabelecem com a própria vida?





Por outro lado, se o constelador, o constelando e os participantes se conectam ao Campo que se abre nas Constelações naquele momento e se deixam guiar pelo o que acontece, sem expectativas, sem se preocupar em definir qual o horário da sua constelação e sem desconsiderar as conexões das outras pessoas presentes, que tipo de experiências poderão vivenciar? Quais são as suas visões de corpo, vida e alma? Como se relacionam com seu viver?

Hellinger e a Sophie têm sido enfáticos quando dizem que todos os presentes constelam, que o Campo escolhe quem vai constelar, a hora e a melhor forma. Isto porque todas as constelações se organizam como uma sinfonia criada para quem está presente.  Se é assim, imagina nos abrirmos para receber todas estas dádivas?


Eu mesma experimentei esta abertura nos diversos encontros com Bert e Sophie. Num dado momento ele me escolheu para ser constelada, mas as constelações anteriores me prepararam e as posteriores aprofundaram a minha constelação que constelou outras pessoas, sem que qualquer um de nós tivesse controle. Do começo ao fim tivemos a sensação de que tudo foi orquestrado como um livro escrito para cada um de nós. Claro que damos sentido ao que acontece, mas também somos conduzidos por algo que nos escapa.


As dinâmicas, nossa vida, nosso corpo, relações, podem ser trancafiadas no paradigma mecanicista e virar uma técnica, uma ferramenta, algo a ser usado, ou podem ser entregues à autopoiese, que, por meio de nossa entrega, se auto-organiza como acontece com todos os presentes nas Constelações.

Nos nossos encontros, eu como Consteladora, por exemplo, pedimos para que as pessoas cheguem 15 minutos antes do início e fiquem os dois dias inteiros no horário proposto. Ou se for inviável que fiquem, ao menos, ou todo o sábado ou todo o domingo. Assim, este novo paradigma experimentado no Movimento do Amor permanece. Passamos a constelar o tempo todo: incluindo, aceitando, sentindo onde tem potência onde não têm. O que se pode fazer e o que se tem que entregar.

Coreografia de Pina Bausch


É como uma disciplina sem grilhões porque permanecemos centrados e guiados por algo que nos anima em direção à felicidade. Em última análise, é um processo de sabedoria exercitado ao longo da vida, porque concordamos com o que acontece no AGORA:


"O sábio concorda com o mundo tal como é, sem temor e sem intenção. Está reconciliado com a efemeridade e não almeja além daquilo que se dissipa com a morte. Conserva a orientação, porque esta em harmonia, e somente interfere o quanto a corrente da vida o exige. Pode diferenciar entre “é possível ou não”, porque não tem intenções. A sabedoria é o fruto de uma longa disciplina e exercício, mas aquele que a possui, a possui sem esforço.  Ela esta sempre no caminho e chega a meta, não porque procura. Mas porque cresce (Hellinger, 2008)."

13 de jun de 2013

26) Uníssono



        


       
Shiva Shakti em eterno movimento de criação


       Para o Tantra Yoga o princípio operativo (energia - E) e o cognitivo (consciência - C) fundam toda criação. Este fundamento pode ser entendido como Deus, na equação: D = E + C. A Suprema Subjetividade, então, não é só energia ou inteligência. 

      Estas duas dimensões também podem ser entendidas como princípios feminino e masculino, respectivamente, como verso e reverso da mesma folha permeando todos os objetos animados e inanimados (P.R. Sarkar, 2006). 

      Durante as CONSTELAÇÕES FAMILIARES estas dimensões se revelam na linhagem da mãe e do pai. Na parte de cima ou baixa do corpo. Do lado direito e esquerdo. No corpo e espírito, passado e futuro, morte e vida, assim como nos relacionamentos (Hellinger, 2011). Para operarem em sua potência ótima, as múltiplas facetas destes dois lados inseparáveis não deveriam ser excluídas ou cindidas para não desorganizar a existência, afetando, inclusive, a quietude da saúde. Ao entrar em Uníssono se vivencia a Fonte, ou ao se mover com a Fonte se entra em Uníssono.


4 de jun de 2013

25) Um homem e uma mulher sós


1)  Do movimento interrompido para o pai e 
2) do finalmente, não!



1)      Desde muito pequeno ele aprendeu a esperar o pai sem saber ao certo se, na volta dos negócios, teria tempo para o filho. No início, seu sentimento de solidão era avassalador. Quanto afastamento uma criança pode suportar até criar fugas do desejo de intimidade que nunca aconteceria?

               Mais velho, depois da adolescência, conseguindo entender um pouco do universo que encantava o pai, pôde abrir algum caminho com ele no trabalho. A infância continuou a soprar suas senhas sem sentido: “não precise de ninguém emocionalmente, mas se fizer tudo certinho quem sabe entra no mundo dos céus?”.

               O céu é um lugar sem pai, só das mães...

2)      Desde pequena ela aprendeu a sufocar sua personalidade ainda mal formada para satisfazer a voracidade da mãe possessiva. No início seu anseio por liberdade das invasões do buraco negro a levaram a se isolar com arame farpado, disfarçado de palhacinhos. No escuro pareciam espantalhos. Quanta proteção uma criança pode erguer quando não é respeitada em seus limites?

               Mais velha, depois de se impor a perda do primeiro filho ainda na barriga, entendeu sua disponibilidade inconsciente de ser invadida pela mãe que passara pelas mesmas perdas auto-impostas e quase enlouquecera. A infância continuou a soprar suas senhas sem sentido: “nunca abandone o seu cercadinho, assim vai salvar a mamãe do desespero da culpa. Você é maior que Deus!”.

         Quem não diz não para as Fúrias[i] se assoberba para além dos deuses. 
         Uma voz sábia (Hellinger) disse: Vai para o pai que lá é mais seguro.


Orestes Perseguido Pelas Fúrias, Adolphe William Bouguereau



      Um dia, sem que pudessem escolher, Eros, deus do amor, uniu este homem a esta mulher enclausurados em suas solidões. Como seus critérios de relacionamento estavam duramente alinhavados com as suas defesas, recusaram a flechada do Cupido.  Assim, a indisponibilidade de um e o arame felpudo da outra desafiaram os pés no chão dos instintos divinos.

 O primeiro deu a sentença: “ela não serve aos meus ideais”, e a segunda afirmou a sua queixa: “ele me deixa sozinha”. Separaram-se, e como ninguém deveria bater no Cupido com um mata-moscas, acabaram sofrendo de repetição compulsiva dando as mesmas desculpas para si mesmos em outros relacionamentos.

         Tempos depois, ainda movidos pelo veneno do deus, se reencontraram. Só então a verdade se revelou. Ele teria que ir para o pai, emocionalmente, sem os disfarces de ter que ser igual aos ideais de sua tribo para ser aceito. Ela teria que deixar o arame farpado de pelúcia, sua mãe, com Deus. É em vão chantagear o Uníssono com a culpa destruidora. Não se salva alguém se sacrificando em seu lugar, só aumenta a dor.

       Nunca se soube se enfrentaram o verdadeiro desafio ou se, como zumbis, continuaram a repetir seus códigos de proteção. O que se sabe é que Eros não perdoa, Apolo[ii] que o diga. Quem pisa na felicidade grande acaba dormindo com os caquinhos.





[i] As Fúrias ou Erínias são as deusas encarregadas de castigar os crimes dos mortais, fazem sua justiça fundadas no desejo da vingança sem contextualizar as ações que levaram a tal ato, sem um "justo" julgamento. Quando alguém carrega uma culpa imperdoável se pune com a sentença máxima, a morte, sem entender que esta aumenta o sofrimento do que aconteceu. Ou, como quero retratar neste texto, impõe este sacrífico a um/a dos/as filhos/as que assume a culpa e a punição em seu lugar.

[ii] Apolo fez chacota de Eros, dizendo-se melhor com o arco. O filho de Afrodite, em represália, lançou uma flecha de ouro despertando em seu inimigo uma paixão avassaladora pela ninfa Dafne. Ela, por outro lado, foi atingida pela flecha da rejeição, fugindo desesperadamente do Deus da Razão até se transformar em um loureiro.   É este mesmo deus, Apolo, que inspira a defesa de Atená para libertar Orestes da condenação das Fúrias, quando o "leva para o pai".           


78) Depressão

Quando eu li pela primeira vez que a depressão, segundo as observações do Bert Hellinger nas Constelações Familiares, era, geralment...