25 de fev de 2013

19) Convite à Jornada do Herói




Como os emaranhamentos familiares podem, na verdade, 
nos convidar à grande aventura da JORNADA DO HERÓI ?




A Jornada do Herói

"O chamado à aventura significa que o destino convocou o herói e
 transferiu o seu centro espiritual de gravidade do âmbito da sociedade 
para uma região desconhecida. Essa região profética de tesouros e perigos 
pode ser representada de várias formas: como terra distante, uma floresta, 
um reino subterrâneo, um local situado sob as ondas do mar ou acima do céu,
 uma ilha secreta, um imponente pico de montanha, ou um profundo estado onírico. 
Mas é sempre um local habitado por seres estranhamente fluidos e polimorfos, 
de tormentos inimagináveis, de feitos sobre-humanos e de prazeres impossíveis."

Joseph Campbell, 



E se nasce onde os aliados - forças que não sabíamos que tínhamos - estão para embarcar conosco numa grande aventura rumo à bem-aventurança.


Em toda família há um parente com rótulo de louco, “doente” mental, imprestável, banana, sem importância. Ele pode ficar viciado, se meter em brigas, parecer nunca sair do labirinto dos erros. 

Geralmente é o bode expiatório, causador de problemas ou receptáculo da culpa dos outros. Ou é apenas o diferente incompreendido. Se ele/a não for de fato um manipulador roubando toda energia do grupo, é aquele que tem em seu ser a força para integrar o que na família (e até na sociedade), há gerações, ainda não foi legitimado, compreendido, desenvolvido e amado.

Se há um irmão ou irmã, tio ou tia, avô ou avó, pai ou mãe “apedrejado” por todo grupo familiar, é bom parar e observar - principalmente se você for o que mais o odeia sem de fato ter porque odiá-lo, além de suas críticas inventadas para massacrá-lo. Ele/a tem latente a semente da cura, DA SUA CURA, que você não está nem um pouco disposto a se responsabilizar.

Quando ele (o herói adormecido) desistir deste lugar, todos os membros do clã terão de lidar com seu quinhão de responsabilidade e se transformar. Isto é bom, abre horizontes para a felicidade. Porém, como grande parte das pessoas é preguiçosa e temem despertar sua força na Jornada do Herói – quando se embarca na viagem interior em busca de tesouros nunca antes imaginados e lutas com monstros que se transformarão em talentos e potência -, farão de tudo para manter seu parente atado aos grilhões por meio de constantes julgamentos, sabotagem dos esforços dele/a e invasões violentas em sua vida. E, se não for o suficiente, consumam sua morte social excluindo-o sumariamente.

Mas ele/a, o/a “herói adormecido”, pode abrir mão da sua arrogância de salvador/a, abrindo mão das "moedas de ouro sem valor" que o faziam prisioneiro de um destino difícel. Entendendo que não faz bem aos seus pegando para si o destino e aprendizado de herói dos outros. Com isso ele consegue desatar o nó que o mantém "enforcado" e embarca em sua aventura.   




O Pendurado do TAROT 

Aqui o herói foi colocado na posição invertida para ver as coisas de outra maneira. Ele foi longe demais em alguma perspectiva que não lhe servia mais para seu desenvolvimento. Isto é representado pelas moedas e pelos galhos  (frutos de suas ações) cortados e sangrando do desenho.
 Ele  pode soltar  seus pés atados -  emaranhamentos - quando, com sua nova visão de vida, decidir soltar os sacos de ouro.


Ou pode-se dizer que ele se torna humilde, como se sua cabeça ficasse abaixo dos pés, para  ver de um ângulo diferente aquilo que o enclausurava. Esta nova visão dissolve o jogo dos emaranhamentos e permite que os seus familiares façam as suas escolhas. Ou aumentam a dose diária de anestesia, à venda em qualquer esquina com prescrição médica e tudo, ou se permitem embarcar em suas próprias aventuras magníficas.




ps: Em um sistema familiar, cada um de nós pode ser todos estes personagens (às vezes não). Não só o bode expiatório, mas o opressor. Não só o excluído, mas o que excluí, porque, como diz o mestre Shrii Shrii Ananda Murti, "Brahma adora drama!"


19 de fev de 2013

18) A Nova Constelação Familiar e R...




O que um rapaz (R) de visão, porém diagnosticado com esquizofrenia, me ensinou sobre a Nova Constelação Familiar (que eu pensei ter começado a aprender em Munique)? Nós juntos...





Há algum tempo, Bert Hellinger, filósofo que tem alterado positivamente o rumo das relações humanas por meio de seu trabalho com as Constelações Familiares, se abriu a outros movimentos do amor nos sistemas constelados aprofundando sua forma de atuar, ou melhor, deixando-se atuar pelo o que surge numa vivência sem nem mais precisar de um tema para constelar.

(Para quem quer saber: O que é Constelação Familiar?)


Eu e mais 900 pessoas testemunhamos estes novos rumos no Seminário “Mulheres e Homens, como o amor poder dar certo na vida” em dezembro de 2012, aqui em São Paulo.  Segundo os professores deste seminário, Hellinger e Sophie, o "NOVO" significa que ultrapassamos a fase do "eu faço" para  "Nós Juntos".

Ele e sua esposa Sophie Hellinger, a quem atribui alguns dos créditos das mudanças  nas Constelações, alertavam durante o encontro: “sem intenções de curar, sem medo, sem preconceitos e sem compaixão abram-se ao Espírito e o deixe atuar.”

Eu estou tentando seguir esta orientação. Talvez por isso, agora, no carnaval eu peguei um casacão e uma mochila, num arroubo de quem não tem um Euro para pensar em ir para Teresópolis e fiz o Seminário Básico I - Mãe - em Munique com a Sophie. Ele já é fundado na Nova Constelação. (Falei sobre o tema da Mãe no posting anterior).




Seminário Básico I - Mãe, Munique, fevereiro de 2013

Querido Grupo dos Brasileiros, com Sophie Hellinger ao centro de blusa azul listrada  e cachecol rosa, Matias o sensível tradutor e Sascha o querido videomaker da equipe da Hellingerschule. Eu sou a terceira em pé da esquerda para direita.


Nestes dois encontros fomos apresentad@s à Nova Constelação Familiar, quando “simplesmente” nos centramos e deixamos algo se revelar sem falar nada. Já não havia mais perguntas como: “O que você quer constelar?” ou "Você perdeu alguém na família?".  Na verdade, já não havia muitas coisas e mesmo assim era mais intenso.


A pessoa se sentava ao lado do Hellinger ou da Sophie e era incentivada a abrir mão de toda expectativa, com a qual toda potencialidade de “cura” desapareceria. A ânsia de se ver livre de algum problema, como diziam, afunila, estreita e até impede a ação do Sublime. Desta forma, Hellinger (ou Sophie) se conectava - a partir do que chama de “seu centro” - à pessoa e se deixava conduzir ao essencial. Assim, algo surgia como uma frase, uma palavra, uma colocação de representantes sem que eles mesmos soubessem quem representavam. 


Os observadores, os constelados, os representantes e os consteladores seguiam o movimento com o coração e não com o intelecto e suas infinitas interpretações.

O Espírito, diziam eles, é uma convergência revelando os emaranhamentos e as soluções. Quando temos a pretensão de curar, quando sentimos medo e temos teorias ou preconceitos, ou mesmo quando sentimos compaixão pela dor do outro, o Espírito desaparece. Ele já não é mais necessário.

Neste caso, o Espírito não é um ser individuado entrando e saindo dos corpos, não é um senhor de barbas brancas, não é o Espírito Santo, nem um ser desencarnado dando conselhos. Mas é sim um Ser, como um campo onde todos convergem e por isso mesmo pode ser testemunhado. E nos testemunha.

Esta é uma inversão filosófica fundamental para se entender o que fenomenologicamente nos é revelado numa constelação, e no Oriente já se comenta há milhares de anos (ao menos no Yoga).  Conseguimos ser testemunhas, porque somos testemunhados. E esta testemunha age em nós. Se interferirmos, perdemos a ação dela e ficamos sozinhos nos agarrando em boias teoréticas.

Por isso, acredito, Hellinger e Sophie afirmavam sistematicamente mais ou menos assim: quando alguém constela aqui, TODOS ESTÃO CONSTELANDO, é uma experiência de todos, porque todos compartilham o mesmo Espírito (Campo de experiência). Abram o coração e o sentimento para vivenciar este campo nos movendo.

... os surfistas devem ter algo a nos ensinar sobre isso...

Bem, saí dos cursos treinando: “se estamos todos neste oceano, podemos estar abertos a este estado o tempo inteiro... sem expectativas, sem intenções, medo ou teorias...” E o treinamento se aprofundou esta semana com mais intensidade:


Um rapaz tropeçou numa obra inacabada (tiraram todas as árvores do meu Bairro e não replantaram várias) e quebrou a cabeça no meio da calçada onde eu estava. Algumas pessoas se puseram a ajudar. Ele falava muito, ele mandava em todos e era exigente. Parecia ter algum “distúrbio mental”, se é que isto existe.


Eu sentei ao lado dele e era ordenada a fazer perguntas sobre multiplicação. Eu perguntava: 9 X 4, ele respondia, 36 (fiz na minha máquina de calcular agora). Eu perguntava: 30 X 5, e ele dava a resposta sem pestanejar. Se eu me calava ele me pressionava a continuar. Eu, muito “querida” quis mudar de assunto e  sugeri: "vou tirar fotos para você processar a prefeitura, ok?"

Eu mesma não sou  de processar ninguém, mas queria distraí-lo e pensei que talvez isto fosse do interesse dele. Imediatamente ele ficou calmo e uma voz cheia de amor e compreensão me disse: “Não! De que adianta? É vingança. Vingança não leva a nada”.

Qualquer pessoa poderia ter dito aquilo acionando em mim alguma reflexão, mas nele estas palavras pareciam surgir do "tal do campo". É como se ele soubesse além das fronteiras... neste estado não tinha nenhuma "doença mental".

Ficamos quietos por segundos e eu "vi" - não sei como -, através de seu lado direito sangrando e profundamente machucado, dois homens brigando. Dentro dele havia dois ancestrais, possivelmente um assassino e uma vítima ou um tirano e uma criança indefesa, que se digladiavam. Este conflito irreconciliável entre o morto e o homicida, entre o tiranizado e seu algoz, foi permeando as suas gerações até chegar nele.




Eu falei ao telefone com alguns de seus parentes um pouco impacientes com  as “brigas que ele fazia na rua” - o que fiquei sabendo ao pedir socorro para eles -,  até que uma de suas primas, mais compreensiva e carinhosa me disse (de vivo para vivo): Ele é esquizofrênico.

hum... 


...os dois ancestrais brigando nele, com os quais estava emaranhado porque  tentava "erroneamente" ajudá-los repetindo a briga - agora dentro do seu psiquismo para chegar a uma solução -,  lhe conferiram um diagnóstico psiquiátrico.

 Estamos na época da medicalização da sociedade, ou seja, tudo e todos com suas emoções e jeitos de se relacionar com o mundo podem ser interpretados como doentes e ter seu remédio correspondente para voltar ao "normal".  Será que ele era esquizofrênico mesmo?


O Hellinger já havia testemunhado o mesmo acontecimento em constelações com "esquizofrênicos".


Mas o mais importante é: o que esta nomenclatura diz sobre o que de fato acontecia? Nada! Até inviabilizava a visão e talvez a solução.

Eu, ao telefone, respondia a todos os parentes: "ele não brigou com ninguém, ele caiu e está muito ferido, precisa de ajuda, não é cena e nem brincadeira". 


De repente, chega um primo  sinceramente preocupado, mas ao mesmo tempo visivelmente bravo com mais esta aporrinhação de R. Como era médico, fez todos os exames no local e o colocou no carro para leva-lo ao hospital. 



Imagino que poucos, numa família com "esquizofrênico(s)", saibam que ele vivencia um “distúrbio” familiar e não pessoal.


R, ao mobilizá-los com seus problemas "pessoais" de brigas na rua, quedas e ferimentos graves,  os convidava a olhar para algo que lhes pertencia também. Um “peso” coletivo. O problema é que mesmo R emaranhado e tentando mostrar algo com seus distúrbios não ajudava a si e nem o seu sistema familiar. 


Ele entrou no gol do primo dizendo: “Mônica, vem comigo. Mônica vem comigo”.

Eu não fui. 
Como diz Hellinger, às vezes, basta que se veja algo do outro sem julgar, e, ao deixar isto agir sem nem precisar falar, a própria pessoa - de quem se viu algo - encontra a solução. Esta ação sem ação gera um movimento. 

E eu não estava lá como consteladora, estava como pedestre ajudando um cidadão ferido, no entanto, nós dois, eu acho, dividimos a mesma visão por um instante. Se isto causará algum resultado nele, jamais saberei. 

Em mim causou. A experiência de testemunhar algo que testemunha além do tempo e do espaço me  deixou ver com ele. Eu e ele sabíamos que ele não era esquizofrênico e sim humano, muito humano.



Nise da Silveira e Antonin Artaud  têm muito a dizer sobre a esquizofrenia e seu talento de desbravar horizontes humanos.





Antonin Artaud - escritor, ator, dramaturgo francês, diagnosticado erroneamente como esquizofrênico. Inspirou a psiquiatra Nise da Silveira a fazer uma revolução na psiquiatria do Brasil graças a sua obra e de suas declarações sobre sua "doença", 









 Talvez R se ferisse, brigasse na rua se machucando, traduzindo o ódio entre estes dois homens ancestrais, um deles de sua família. Mas ele sabia, e eu não, que não adiantava a vingança contra o assassino, contra a prefeitura, contra o destino. Nele os dois teriam que ultrapassar o irreconciliável alimentado pela fúria e a dor, e se unir.


Numa dimensão, para além dos julgamentos e dores, no coração de R os dois podem encontrar o caminho para se uniriam e fazer a paz ...  Nele, na doçura e força de R, ainda havia chances de concordarem e se responsabilizarem pelo o que aconteceu.


Por isso eu não precisava ir com ele, nem ter pena ou compaixão. Mais do que todos nós, ele tinha a força, a compreensão e  a solução de acolher aquele destino, caso um campo se abrisse para trazer-lhe esta solução latente dentro dele.


Centrando-se e abrindo-se à ação deste Campo (Grande Espírito), Hellinger e Sophie nos convidavam à Nova Constelação (Nós juntos), esta entrega ao deixar-se constelar por algo que nos escapa, mas permeia a tod@s.





Let The Sunshine in

2 de fev de 2013

17) De Japeri a München, Iemanjá!



Qual a relação entre a mãe, o amor de casal e a vocação?


                                         Foto de Sebastião Salgado

Central. Peguei o trem de Japeri para buscar o passaporte que me “levará” a Roma. Nova Iguaçu me recebia com muito afeto.


Na Itália, terra dos meus ancestrais, embarco em outro trem para Munique (München), mas antes de chegar lá fico três dias em Bolzano com uma irmã amiga. Faço este voo transoceânico nas asas de Zéfiro para participar do curso “Mãe” e os fundamentos da Nova Constelação Familiar no HellingerSchule.

Quantos trilhos se vencem, quantos ventos se enfrentam para tomar a mãe, a matriz, Deméter, Iemanjá em nosso coração? Quantas de suas faces desafiam o amor da Grande Mãe?

“Quanto nome tem a Rainha do Mar?” Pergunta a canção de Pedro Amorim e Paulo César Pinheiro na voz de Maria Bethânia.


Aqui, nesta terra da madeira da cor dos braseiros, Dandaluna, Janaína, Marabô tem vários nomes e nela, a convergência entre os elementos da cultura africana, ameríndia e europeia dá luz às marés brabas até a mansidão do sol vermelho.

Festejada em diferentes dias - na Bahia dia 2 de fevereiro, no Rio de Janeiro dia 31 de dezembro - seu manto azul bordado de espuma reflete diversos atributos femininos, desde a Mãe dos Orixás Africanos à Afrodite Brasileira, desde Nossa Senhora dos Navegantes às Sereias e seus sonetos (Beth Cruz, 2009: Iemanjá Lenda e Mito de Beth Cruz).


É sobre as suas faces de matriz e de guardiã dos amores, e algumas experiências em constelação sobre a mãe, o amor e a vocação que quero lhes falar.

Qual é o filho ou a filha capaz de vencer os mares profundos da mãe amorosíssima que não pode existir sem derramar suas garras sobre seus rebentos de 50 anos? E que, por sua vez, foi ela mesma tragada por dores ancestrais? Há um oceano indiferenciado envolvendo a todos. Um útero de água de coco? Porém, para alguns, o cálice beatífico pode estar assombrado por feras marítimas e, não importa a direção do seu nado, sempre acabam no fundo do mar.

Ah! O canto das nereidas...

Iemanjá, a mãe e o mar, é arquétipo da matriz de onde vem a vida e para onde ela retorna para ser renovada. Suas ondas lambem as terras nesta dança de vai e vem. Emblema do carinho e da proteção materna é também austera e possessiva quando seus filhos atingem a maturidade sexual.  Mar-ia (outro de seus nomes) não tolera o voo das suas crias, transformando-as em jovens eternos (Bernardo, 2009:145-7, e Ligiéro in Bernardo, 2009:145-7).

Talvez por isso Adoniram Barbosa cantasse:

               E, além disso, mulher, tem outra coisa, minha mãe não dorme enquanto eu não chegar! Sou filho único, tenho minha casa pra olhar, não posso ficar nem mais um minuto com você. Sinto muito, amor, mas não pode ser. Moro em Jaçanã, se eu perder este trem, que sai agora às 11 horas, só amanhã de manhã.  ” (O Trem das Onze).


Foto da série Sueña Conmigo de Luis Beltrán


        Mas será mesmo que esta faceta do arquétipo e a mãe excessivamente protetora e cheia de apego, a ponto de limitar a vida de sua prole, não têm outra saída para sua intensa ação maternal e nutridora? Será que para os/as filhos /as a  saída é “matar” a mãe dentro deles/as, ou colocar a incontinência das águas em ferrovias definitivas? Onde entra o pai nesta história? (Isto já foi falado no texto "Sobre Paz e Homens").


        O filósofo indiano e mestre de Tantra Yoga P.R.Sarkar, ao falar sobre a mulher e o princípio feminino alerta, veementemente, que muito pouco se sabe sobre as águas , suas emoções e como se processa o infinito mundo dos sentimentos. Há pouco espaço para a manifestação de tal oceano. Ele usa o exemplo dos afetos de grupo dos Dugongos, mamíferos parecidos com leões marinhos, que de longe parecem mulheres com rabo peixe, para tentar mostrar como a “mente”, que em sua totalidade contém as emoções, se organiza pelo princípio feminino –  não apenas atributo da mulher. Perde-se com isso riquezas em diversas áreas do conhecimento, desde a arte da cura até as relações com o totalmente outro (Sarkar, 2006).


              ... aaah, se eu bebesse o mar... 

     Nas constelações testemunha-se o "tomar" como  possibilidade do fluir. Com as águas? Mais tarde este "encher-se" transborda atraindo o amor com um/a parceiro/a e o sucesso profissional. Mas onde começa o tomar? Hellinger diz: com a mãe e mais, “o AMOR começa com a mãe”:

“Onde inicia o amor? O amor começa com o tomar. Na Bíblia se diz que dar seria mais bem-aventurado que tomar. Isso não é certo. O que dá, se sente grande. O que toma, fica no chão. Toda vida é tomar, tomar, tomar, tomar, tomar. O que se interpõe no caminho do amor? Que nos neguemos a tomar. Isso é estranho. Onde começa nossa negação de tomar? Com a pessoa mais importante de nossa vida, da qual recebemos a vida. A negação a tomar começa com a mãe. Esse é o início da desgraça.” (Hellinger, 2012: 75)  

Se experiências traumáticas com a mãe acontecem na infância, este movimento de receber se interrompe. Por isso, Hellinger enfatiza o essencial, o chegar até ele. Como? Lembrando do nosso coração batendo com o dela dentro do cálice uterino. Quando o corpo, recebendo do corpo de outro (pai), foi o mesmo do/a filho/a que nasceria. 

Este é o essencial e já é imenso. A impossibilidade de retribuição da vida recebida leva à gratidão e a doação deste presente para outros. Não há como pagar aos pais a não ser se doando ao mundo. E como todos têm esta dívida, viva as trocas! Não importa nem se a mãe rejeitou a gravidez, se doou para adoção, se abandonou ou foi cruel, porque, se ela teve seu filho/a, o que venceu foi a vontade de tê-lo/a.

Tomar isso. E tomar tudo mais, sem julgamentos, porque este é o tesouro. Transbordar-se a ponto de atrair um/a companheiro/a para quem doar, ou seja, criar o caminho para chegar o outro. E depois, levar o amor de casal às últimas consequências tendo filhos/as, passando para eles tudo o que se recebeu. Tomar a ponto de encontrar sua vocação e ter necessidade de compartilhar com o mundo seus talentos. Tomar, tomar, tomar, para poder dançar com o universo. Fazer sua Liila (Dança Cósmica).

Aquelas pessoas oferecendo migalhas de amor, porque se “recusam” a tomar de seus pais, cederão lugar a quem tomou tudo, sem julgar, sem exigências, apesar de toda dor e traumas. Não significa que continuaram sofrendo agressão dos pais (pai e mãe), ou ficaram cegos às injustiças e tiranias que muitos deles fazem, mas aceitaram o que aconteceu e tomaram o essencial, a vida e o que nem se consegue ver diante de tanta dor, o amor por trás de tudo.


Com todo respeito: que as mães se sensibilizem que seu dom, ainda profundamente desconhecido e desrespeitado, não lhes dá o direito de afogar seus filhos/a ou retê-los/as em seu seio, não lhes dá o direito de injuriar o pai de seus filhos/as de maneira sutil ou escancarada.

Então, Eros, deus que antecede toda criação, filho de Afrodite, atingirá o alvo, o amor.


E, aqueles atados aos trilhos da solidão ondearão para  reverenciarem, humildemente, a Grande Rainha, a Deusa de toda criação: Odoyá Iemanjá!  


Foto de Sebastião Salgado 

Ou, simplesmente, sem o intermédio "homeopático" dos deuses, farão de fato uma longa reverência em seus corações dizendo milhares de vezes, QUERIDA MAMÃE, GRATIDÃO!








77) Portas Místicas para a Reconciliação

Seminário de Constelação Familiar em Porto Alegre - 22 a 24 de novembro 2018 “No More Galaxies for Today, Timmy!" by Eugenia L...