17 de nov de 2013

35) Helena e a Morte Social dos Afetos



Cate Blanchett

       

        Há, na fronteira borrada do compreensível, o mundo dos sentimentos. Aventura-se neste universo os que têm sede de viver o inconcebível sem as pranchas das racionalizações, e, bem de longe com seus martelos, estão os que explicarão e legislarão sobre ele. Uma mulher ou um homem mergulhados em seus sentimentos, sem a ansiedade do controle, acaba por romper as represas emocionais dos outros, mesmo sem ter esta intenção. Quando esta vocação vem acompanhada de beleza e destemor da inconsciência, a pessoa se torna Helena.

        Ela é uma personagem mitológica, constelada em tantos humanos e situações com o mesmo dom de catalisar, sem saber, mudanças em corações estreitos. Por que entendo Helena desta maneira?

Desde a infância foi desejada por homens como Teseu e seu próprio padrasto. Adulta, teve que casar por consenso social e questões políticas com Menelau e, sem nenhum escrúpulo, largou o marido para desfrutar do amor do belo e jovem Páris. Tudo isso graças a  mãozinha da deusa Afrodite em disputa com as deusas Atená e Hera, desencadeando a guerra de Troia e depois  a odisseia de Ulisses (Odisseu).

Helena e Páris, 1788
de Jaccques-Louis David


Nem toda beldade causa tantos transtornos, por que então os homens disputavam-na com tanto fervor? O que realmente buscavam quando lutavam por Helena, além de vingar Menelau e saquear as riquezas da cidade sagrada de Troia? Será que algo nela os impulsionava a entrar em contato com uma parte essencial de si mesmos ainda latente e encoberta pela brutalidade? Quantas cabeças precisavam ser cortadas e peitos abertos para chegar ao coração dos sentimentos?

Hoje em dia as Helenas, mulheres lindas e catalisadoras dos tesouros inconscientes para o processo de individuação, continuam sendo objeto de desejos de alguns homens poderosos. O que chamo de homem poderoso? Aquele que tem e consegue controlar alguns símbolos de poder de acordo com o que é valorizado em seu meio social.

 Eles a buscam para lhe dar o posto de outra personagem mitológica, Hera, a esposa ideal para manutenção do “estado”. Mas ela não é. Os próprios homens poderosos podem ter o dom de Helena, mas ter estas características (beleza e poder) não garante este potencial catalizador de dimensões profundas. Na verdade, nem precisa ser lindo/a ou poderoso/a, basta estar em sintonia com o inconsciente sem perder o contato com a realidade, mantendo-se fiel a si mesmo/a.

Alguns dos homens poderosos querem fazer de Helena um troféu, uma mulher enfeite, inclusive com a permissão da moça. Algumas cedem algum tempo, porque lhes convêm, e porque tanto ele como ela não têm clareza do potencial de transformação deste encontro, mas sentem algum perigo imediatamente protegido com a coisificação deles e da relação.  Neste caso, Helena e seu dom são saqueados como foi Troia.

A morte social dos afetos, principalmente os mais doloridos, com os remédios tarja preta e a ditadura da euforia deixam as Helenas à beira da loucura. Não da loucura dionisíaca que questiona o status quo, mas da loucura vinda do abafamento dos sentimentos sem nomes, das caveiras num cemitério clandestino em busca de suas famílias ou do seu lugar na história. É que o mundo dos sentimentos, onde as Helenas reinam, é rico de cantos sem cantores, emoções esquecidas de pessoas excluídas que não encontraram legitimidade no mundo. Lá eles são vistos e entoados pelas Helenas que enlouquecem quando este universo é soterrado.

Comecei a pensar sobre esta personagem insondável e a asfixia dos afetos depois de assistir ao último filme de Woody Allen, Blue Jasmine. Nele, Cate Blanchett interpreta uma bela mulher que se separa do marido rico perdendo todas suas posses, menos alguns dos símbolos da riqueza como algumas joias, roupas e malas de marca que garantiam a faixada do seu status. Ela precisa recomeçar sua vida em outra esfera social. Em seu casamento ela se comportou, como disse uma amiga minha, como a deusa Hera: mulher prefeita para os homens poderosos e, terrivelmente vingativa quando seu lugar ao lado do parceiro é ameaçado.




Na história, os valores de classes são confrontados, o orgulho da personagem – como bem pontuou outro amigo meu - é irredutível, e sua disponibilidade em encontrar um novo marido é acirrada ao longo dos obstáculos enfrentados. Em uma das cenas, quando percebe que conseguirá, novamente, o posto de "esposa enfeite de luxo”, expressa suas emoções tomando seus remédios. Seus talentos e o luxo, deixo claro, não são enfeites, são competências e linguagem, mas atrelados aos valores de classe ganham outras dimensões.

Há também na película as mazelas de qualquer personalidade que não são explicadas simplesmente porque se é rico ou pobre, se os motivos são nobres ou fúteis ou se nisso está o valor do que é mau ou bom. E, em nenhum momento, vi o diretor, também autor, explicando o sofrimento da personagem como o resultado de alguém sem capacidade de recomeçar ou de ser frívolo. Sim, Jasmine sofre muito.


Cena de Blue Jasmine

O sofrimento não escolhe classe social, não é patrimônio só dos empobrecidos materialmente ou espiritualmente pelas aberrações políticas e sociais do capitalismo. E não há como desqualificar, chamando de fúteis os fatores que o precipitam em Jasmine, sem forçar uma mesma escala a todos os envolvidos. A complexidade humana exige um pouco mais da gente, como seguir juntos. É arriscado, não há a clareza do distanciamento, mas seguir junto não é estar misturado. Isto porque o próprio sofrimento, como um dos terrenos rochosos por onde todos inevitavelmente passarão numa vida, faz dos viventes parentes corroborando para esta postura contígua.

Cate Blanchett como Blue Jasmine

É neste sentindo que acompanhei o sofrimento da personagem Blue Jasmine: junto sem julgá-la. Nesta jornada me encontrei com o dom de Helena às avessas e sucateado no mundo prozac luxuoso. Não por Jasmine representá-la, mesmo sendo incrivelmente bela e fascinar alguns homens que não guerreariam por ninguém, mas pelo o que era mobilizado nela (e nos outros) até a sua loucura.

Os encontros geram mudança, é fato, mas com Blue Jasmine, triste Jasmine, o reencontro com sua nova velha condição de vida, ao perder tudo, desnudava sentimentos soterrados que não conseguiam dizer suas próprias palavras. A personagem virou muitas vezes o rosto para os conflitos da vida, por isso sua agonia recebia os mesmos diálogos - agora solitários - que estavam em sua memória, daquilo que perdeu, mas apontavam para dimensões emocionais mais profundas. Algo de verdadeiro e mais cheio de vida vinha à tona, nunca por linhas retas ou de forma agradável, ao mesmo tempo em que se transformava em velhas conversas que viravam o rosto mais uma vez.

Este confronto entre os sentimentos, a tentativa de escamoteá-los com a ajuda do orgulho e remédios e de dar vozes do passado para eles, também mobilizava algo nas pessoas, como aconteceu com o dentista, sua irmã, com o namorado da irmã, no próprio marido, no diplomata, e em seu enteado.

Não estou dizendo que uma dor e a incapacidade de lidar com as perdas não desencadeie a loucura, mas prefiro acompanhar a insanidade nela mesma. Será que  há sentimentos na loucura buscando seus rostos e nomes, buscando serem vistos e nomeados por quem nunca, nunca?

Nem seu orgulho imenso, nem seus genes maravilhosos, segundo sua irmã e mãe adotiva, puderam deter ou teriam tanta força para precipitar a miserável angústia do seu abandono e a sua falta de ar. Nem mesmo suas belas roupas ao final da película podiam confortá-la. Havia algo mais. Havia diálogos que ela repetia ao Deus dará como se pudessem dar palavras aos "sem vozes" dentro dela. 

Dores remotas a assombravam? De quem eram e desde quando? Talvez por ter sido abandonada pela mãe e pai e depois ser adotada.  Este precipício de amor que não pode ser tampado pela frase “quem cria é a mãe e não quem pari”, e que não pode ser explicado com os nomes de pais biológicos e de pais adotivos, mas está lá.  Talvez por ter desejado fugir vorazmente de si mesma, como se sua intensidade pudesse tragá-la e atrair aqueles de quem deveria fugir com algum Páris. Acho que ela não fugiria com nenhum Páris porque está longe de ser fiel a si mesma. Talvez pelo medo e anseio dos mimos que não aplacavam nada, mas estavam lá como amparos e contornos.  

 Sabe-se lá! 

Para além do filme, penso que se produz muita invisibilidade quando queremos explicações ao invés de acreditar em nossas vivências, ou quando estamos no pensamento abissal, aquele que separa quem tem direito e lugar na sociedade e quem pode ser morto e saqueado, inclusive com as bênçãos da lei, da religião e do saber científico (Boaventura da Souza Santos, 2007). Por isso há tantos sentimentos abafados, pessoas desconhecidas, vidas esquecidas e até invisíveis que não puderam ter suas faces e direitos legitimados, que precisam do dom de Helena para ser vistos. 


Quase ao final do filme (não vou contar nada, mas pule este parágrafo se você ainda não o assistiu), é revelada mais uma ação desesperada de Jasmine com a qual outros rostos velados e as consequências de virar a cara para eles são confrontados: os que foram saqueados  e os exploradores se encaram nesta atitude da personagem. Havia neste ato não só a vingança dela contra o marido, mas a vingança de muitos contra ele e ela. E a punição aos saqueadores não recaiu só sobre o magnata, mas na própria vida de Jasmine desde então. Nela todos existiam, vigaristas e vítimas e suas punições e recompensas.

Muitas vozes de muitas pessoas falam na loucura. O louco é aquele que as acolhe.

Por que eu escrevo estas coisas em um blog de Constelação Familiar? Por causa da fluidez dos muitos sentimentos e rostos vistos e vividos nas dinâmicas das constelações sem a necessidade de elucidação ou da lei que diz quem pode ou não existir. Como Helena nós apenas acompanhamos o movimento indecifrável do encontro dos nossos sentimentos com os do que não foram assistidos, sem precisar tratá-los como "nunca" nas grades de um hospício, de uma prisão, do esquecimento ou de milhares de explicações. 

6 de nov de 2013

34) A Reconciliação




 Não falarei a seguir da justa justiça necessária às vítimas 
e aos agressores, mas de liberar o caminho em 
nosso coração para a reconciliação.




Nos movimentos de amor que curam, aquilo que se opõe encontra no outro sua completude, serenando. Pode ser o encontro de um homem com uma mulher em seu filho ou no relacionamento do casal; ou do Céu e da Terra em nosso corpo; do grande (avós e pais) e do pequeno (filhos) em nosso trabalho e sucesso; do passado e do futuro no presente de nossas escolhas; de dois homens ou duas mulheres em seu amor, e tantas outras esferas - verso e reverso de uma mesma imensidão. 

Quero dizer, as oposições são mais as dobras de uma mesma substância onde tudo é, do que instâncias separadas. Se são do mesmo estrato, de um único tecido, opõem-se em diferentes desdobramentos de si mesmo para se reconhecer na diferença. Por isso, a reconciliação não é um objetivo, mas um acontecimento seguindo em frente como se fosse latente, como se estivesse dentro de nós prestes a desabrochar nos encontros e a nos socorrer durante os desencontros, costurando amores, remendando as dores.

 Vivenciamos esta conexão entre tudo e todos quando acompanhamos o movimento de amor na Grande Alma numa constelação, sem agir, nos deixamos atuar por algo que acompanhamos, desembocando na reconciliação.

Nós, como oposição do totalmente outro, como avesso senciente de outro avesso senciente, também geramos energia quando nos atritamos, ou quando buscamos encontrar novos horizontes nas terceiras vias, caminhos ou soluções para duas necessidades aparentemente díspares.

Mas há oposições difíceis de reconciliação: quando a mãe abandona ou quando o pai é cruel, se a esposa é isso e o marido é aquilo, quando um país ataca e rouba outro, ou quando há um assassinato, um aborto e a morte traumática no parto. Ou, “simplesmente”, quando o que é proibido em uma família ou povo acaba por determinar a exclusão dos membros do clã. Por exemplo, ainda hoje, casar com alguém de outra classe social, outra religião, outra nacionalidade, ter afinidades sexuais e afetivas diferentes do que se espera tornam-se oposições muitas vezes difíceis de reconciliar num grupo. Estas proibições fecham a garganta do movimento do amor.

Idealmente, como diz o filósofo P.R.Sarkar, precisamos manter e alimentar nossa cultura para termos nossa identidade tanto na família como nos povos, mas é necessário abrir mão dos sócios-sentimentos (só a minha religião e crenças são certas) e  geo-sentimentos (o meu país é melhor e tem mais direitos que o teu) que impossibilitam a convivência dentro do próprio grupo e com outros, causando injustiças.

Como se vê, não só os abusos, as mortes prematuras e assassinatos dificultam o movimento de reconciliação na alma, mas também a consciência de grupo. A  menos que se expanda para a consciência do espírito que se abre para tudo e todos sem distinção. E é isso o que fazemos durante a Constelação: nos centramos, nos afastamos para ver melhor e colocamos todos no coração sem distinção ou julgamentos, principalmente os excluídos. Tanto a aceitação do que aconteceu, como a reconciliação com o oponente ou situação de exclusão fica livre dos entraves e assim podem atuar (Hellinger, 2012). 

Neste sentido, a reconciliação, quando a alma encontra a sua cura, é um caminho sereno e fértil no meio de dois polos aparentemente separados. 


Foto de Osvaldo Luiz da página Lá no pé da serra 








18 de set de 2013

33) Qual o seu roteiro de vida?



Qual o seu roteiro de vida?
Você é o autor ou somente um dos personagens?




          Qual a sua história predileta ou a que mais te impressionou até os seus sete anos? Escolha apenas uma. Pode ser uma canção, conto de fadas, etc. E nos últimos 2 anos, qual o filme,  ou romance, poema, conto, música, ópera, etc., predileto ou que mais te marcou? Novamente, escolha apenas uma, porque ela  vai te ajudar a trazer algo à luz. Consegue encontrar alguma semelhança entre o enredo da primeira narrativa com o da segunda? 


         Antes de seguir a leitura no próximo parágrafo, sugiro que, com paciência, você encontre estes dois roteiros. Compare-os. Há algo de parecido nestas duas histórias? Com qual dos personagens se identifica?

Pesquise se quiser o que interpretaram sobre eles e veja se há alguma relação com uma situação de sua vida e história familiar dos seus pais, irmãos dos pais, avós ou bisavós maternos e paternos. Este processo revela para quem olhamos, com quem estamos identificados, com qual destino estamos entrelaçados sem saber, nos dando opção de reformulá-lo. Como? Olhando com carinho para o enredo e incluindo a todos.

Observe também em seu entorno os diversos roteiros representados: algum é parecido com Jonas, Orfeu, Dionísio, com Ofélia de Hamlet, a Branca de Neve, Chapeuzinho Vermelho, Orestes ou com os escafrandos sedentos de amor de Chico Buarque?

Este exercício ajuda a revelar os scripts (roteiros) encenados por nós apontando destinos em ressonância com histórias familiares, muitas vezes desconhecidas.

É verdade que Bert e Sophie Hellinger já foram além dos roteiros nas constelações das famílias, nos apresentando soluções e posturas de humildade diante de um Campo Maior, mas ainda assim os scripts revelam situações, descortinando enredos e soluções durante a observação do Movimento do Amor numa Constelação. Isto é, para onde nos movemos motivados pelo “amor cego” ou pelo “amor que enxerga” reproduzindo destinos de antepassados sem nem saber.

O amor cego é aquele que não olha nos olhos daquele que segue e assim repete o mesmo destino, recriando a mesma sina para incluir quem não é visto. “Olhem para esta pessoa que viveu o que vivo agora!”

Esta atitude gera mais dor no sistema. O amor que enxerga, olha nos olhos e por isso é incapaz de repetir o enredo, porque não quer colocar mais uma pedra em cima da dor do seu parente esquecido. Basta imaginar aquele que é seguido vendo algum descendente recriar a sua dor. Como ele/a se sentirá, honrado ou como a causa da repetição do sofrimento? O que traz paz a ele/a, a repetição da sua “tragédia” ou novos destinos e soluções?

Quantos finais um mesmo roteiro pode ter? Não é melhor criar sua vida sem roteiro pré-definidos? Qual a melhor saída para você? Como ser autor de seu próprio roteiro de vida? Há quem trabalhe com scripts e mitos e, por meio deles, escreve soluções surpreendentes com destinos mais felizes. Segundo Hellinger e o Tantra Yoga proposto pelo filósofo Sarkar, a tendência nos movimentos da vida é o crescimento da felicidade e a finalização da infelicidade, por isso estamos sempre buscamos outras soluções quando procuramos ajuda ou um caminho espiritual. E o espaço criado na relação com o outro em uma terapia é um dos  terrenos férteis para a cura acontecer.

Quando se vai a uma constelação familiar, mesmo que não se constele um tema pessoal (sempre constelamos se estivermos no processo como observador, participante, constelando, não há diferença nenhuma), nosso próprio roteiro é revelado de alguma maneira nas dinâmicas familiares que vêm à luz, pelos sentimentos que sentimos, assim como um movimento em direção à felicidade começa a acontecer conscientemente.

Por isso, com relação ao trabalho com roteiros, Hellinger é literal, ou seja, ao pegar o enunciado de um conto, por exemplo, o “O Lobo e os 7 cabritinhos” a mãe diz: “não deixem seu pai entrar”.  O Lobo representa um pai ou avô, ou bisavô excluído pela mãe e os cabritinhos representam os seus filhos. Seja lá qual foi a razão da expulsão, veremos mais tarde, nas futuras gerações o desdobramento desta ação com uma neta ou bisneta casando com um “Lobo” igual ao pai, avô ou bisavô excluído para incluí-lo no sistema. Pode ser que ela também represente a mãe, avó ou bisavó, expulsando o próprio pai de casa, ou ela estará identificada com o sofrimento de um dos “cabritinhos” ao ter expulsado o próprio pai, a mando da mãe, por mais que houvesse justificativa para o ato.  

Não estamos interessados em julgar o pai, a mãe, as crianças, a expulsão ou os atos que levaram a tal dinâmica, mas em ver a repetição do roteiro e como isto afeta a pessoa, porque muitas emoções ficam no "ar" por séculos esperando ser vividas...

Aí está o roteiro montado e o adubo (emoções) ideal para escalar os atores para um determinado destino. Mas há vários desdobramentos destas identificações quando fazemos a Constelação.

De qualquer maneira, não é o enredo o foco das dinâmicas, nem o constelador se prende a isto para sentir as solução. Por isso, não é importante dizer o conto predileto quando se vai constelar, a não ser que o Constelador pergunte.  O importante do que se está falando aqui é que vivemos histórias com destinos premeditados se não conhecemos o emaranhamentos onde ficamos presos.

Óbvio que há movimentos muito maiores, que escapam ao “poderio” das escolhas. Quando pensamos na sociedade como um todo, em determinado momento da sua história vemos que seus personagens são escalados para viver algo que escapa ao controle, como multidão e não como indivíduo. Qual será a dimensão desta experiência coletiva para a expansão da alma?

A humildade, o extraordinário... ?

No livro “Ah, que bom que eu sei. A visão sistêmica nos contos de fadas” de Brigitte Gross e Jakob Schneider (Atman, 2005), as repetições de destino, por meio da escolha dos episódios literários significativos num roteiro de vida são amplamente demonstrados e depois solucionados em Constelações Familiares.  

No conto “A bela adormecida” é constelado o roteiro da “mulher abandonada”:  a 13ª  fada não é convidada à festa de casamento do Rei. Mais tarde, a filha do  Soberano ao chegar na puberdade – idade das iniciações nos relacionamentos amorosos - é “abatida” por um sono eterno. A fada excluída representa um/a (ou vários/as) parceiro/a da mãe ou do pai que sofreu muito com a separação e não foi reconhecido/a ou honrado/a, fazendo com que tivesse perdido sua vida já que não tem valor, como a bela adormecida. Mais tarde, alguém do sistema do pai ou da mãe que abandonou ou foi abandonada por este parceiro pode reviver este mesmo destino e ser largada sucessivamente, sem perspectivas de refazer a sua vida amorosa.

Já em a “Pequena Sereia” o roteiro é do "amor não correspondido". A “Gata Borralheira” representa alguém que "trabalha duro sem direito a prazer" - como muitas mães de hoje em dia -, ou a pessoa que escolhe este conto está identificada com umas das irmãs da Cinderela que têm destinos difíceis. Em “João Felizardo” um homem perde tudo e em “Um Alfaiate Corajoso” há um charlatão. No conto “João meu pé de Feijão” um homem entrega seus bens por uma bagatela (Gross e Schneider, 2005).

É claro que as interpretações não são tão determinantes assim. Estas informações surgiam nas falas ou posturas corporais durante as constelações e variavam. O importante é a solução, já que nunca procuramos o problema, mas a saída. Por isso, às vezes, nem entendemos o que aconteceu, mas algo se move para felicidade e mudanças surpreendentes acontecem.

Dentro desta mesma temática, fazendo uma pequena digressão, eu gosto muito de estudar as relações entre os Florais de Bach e os contos de fada, porque as flores têm histórias de vida e também gestos, danças, destinos. Eu mesma tenho feito algumas correlações ao longo dos anos de trabalho.

O Floral é um composto que capta energeticamente os hologramas das histórias das flores e pretende dar uma saída, como fez a flor, para quem entra em contato com seu mapa hologramático. O próprio Edward Bach (Barnard, 2004) relacionou o Floral Clematis, com “A Bela Adormecida”, uma vez que ele é indicado para aqueles que não sentem nenhum interesse neste mundo cheio de contradições e sem perfeição. Esta pessoa vive na Lua de mundos distantes, vislumbrando o invisível, sonhando acordada, como se quisesse morrer aos pouquinhos e reencontrar um grande amor. São pessoas que a gente chega e diz oi, e ela não nos reconhece porque o mundo real não tem o apelo do além – ou da pessoa que não está mais lá.

Esta história está  inscrita na própria maneira como a planta se organiza em seu habitat. Seu caule fraco (coluna com problemas), suas raízes escondidas, onde fica o esquecimento, sua polinização ao vento, e a postura diáfana da flor.

Muitas relações entre as flores e a postura de vida podem ser feitas, sem que isso encerre as múltiplas interpretações e possíveis reduções que possamos cometer. Julian Barnard (2004) relaciona a flor Rock Rose, indicada para o estresse daqueles que entram em pânico, com o conto da Pequena Sereia. Na constelação este enredo desemboca em um amor não correspondido. Há meses tento relacionar estas duas observações escrevendo um conto sobre isso (ainda tem um ano de trabalho pela frente para ficar pronto). Mas tenho uma hipótese: a Sereia não quer realmente encontrar uma relação amorosa porque esta gera muita angústia. 

No conto, ela briga com o pai, larga a sua vida no mar para virar humana (como fazemos na travessia de uma fase da vida para outra) e doa sua bela voz para uma feiticeira em troca da transformação da sua cauda em duas pernas.  Com isso, ela almeja buscar e entregar seu amor ao jovem que salvara do naufrágio. Imagina a dor envolvida neste processo de perder suas origens, a sua voz e enfrentar o medo da sexualidade para poder ter uma relação. 

Como ficou muda, não consegue dizer ao seu amado o que se passa em seu coração (como se a voz fosse o único recurso para conseguir se expressar).  Apesar do amor não precisar de palavras para se manifestar, a garganta e o ventre são dois centros que se fecham quando se tem medo da entrega. Conversas, inclusive, podem encobrir a verdade. A famosa DR (discutir a relação sistematicamente) pode matar um grande amor, como não falar nada, também.

Se alguém está identificado com o enredo do conto “A Sereia” pressuponho que precise, inconscientemente, atrair pessoas que não correspondam ao seu amor (ou até correspondam, mas sentem alguma barreira intransponível) para  não enfrentar a angústia apavorante do bloqueio de sua sexualidade ligada ao coração e de  sua  voz - manifestação no mundo e aceitação de sua verdade (quem ela é). Bem, esta visão está mais relacionada aos padrões pessoais do que aos movimentos sistêmicos da alma familiar, mas não se excluem porque podem ser os caminhos de energia apreendidos por meio dos enredos de gerações passadas. No entanto, se for buscar na família, encontrará alguém que teve o mesmo destino de “amor não correspondido”, e que talvez esteja ainda identificada.

A saída? Em uma constelação ela surge, não é padronizada, mas olhar para quem perdeu este amor por ajudar: “agora vejo o teu imenso amor, ele tem um lugar”.

Já a flor Centaury, minúscula e "invisível" aos olhos desatentos, está relacionada às personalidades com dificuldade de dizer "não" por conta da sua ânsia em agradar. Esta flor vista de perto se parece com um céu cheio de estrelas e é muito resistente. Ela tem afinidade com a personagem Gata borralheira/Cinderela, escravizada e sem identidade para saber quem é e qual o seu lugar.

Holly e Willow são as flores das Bruxas, seres à beira do amor universal, que ainda não conseguiram abrir mão da vingança como solução das injustiças que viveram. Não precisam perdoar, isso é arrogante. Não se perdoa uma pessoa porque não se retira dela a responsabilidade do que fez, mas deixamos com ela seus atos, e com a gente o que fizemos por conta disso. Ganha-se força, capacidade de escolha e de amar coletivamente, quando até aquele que errou, depois de compensar o seu erro positivamente, pode ter uma nova chance.

E assim sucessivamente. O que quero salientar com toda esta digressão, é que esta forma de ver o mundo, por meio de roteiros dos contos de fada ou das flores, não pretende ser determinante, mas criativa (somos co-autores) em busca de novas soluções. Histórias que caminham juntas e encontram várias saídas. E que os acontecimentos da vida parecem mais com scripts cheios de emoções e possibilidades do que com hormônios, ou com programas de computador ou com porcas e parafusos. Freud agora me diria: fale mais sobre isso.

- Sobre o quê?

- Porca e parafusos ...

Eu mudaria de assunto levando a questão para o coletivo: “Branca de neve e os Sete Anões que o digam”.

- Sete?

- Bem, a Branca sem o pai e a mãe para protegê-la, acaba cooptada junto com seus amigos num esquema forte. Mas, como não há cartéis de licitações na área do transporte em São Paulo que não sejam descobertos pelo espelho mágico da Rainha, a questão é se os “vilões” serão  descobertos, uma vez que estão no poder. A solução? Para o Brasil eu diria que é necessário cada vez mais reintegrar os excluídos, tirar os Amarildos da invisibilidade, desmilitarizar a polícia, mais política, governar para o bem comum e não para o umbigo..., entre outras coisas. 

Freud me mostraria que sou eu a filha alienada do sistema, como todos os excluídos e a Branca de Neve, e eu estaria novamente amarrada em contos de fadas buscando a  solução para os roteiros da vida.  Qual a solução?

Para cada caso uma saída que não pode ser padronizada, mas entre elas sempre tem o olhar para quem foi excluído/a, com quem se cria a identificação, reconhecê-lo/a, aceitá-lo/a e a sua história. Deixar com ele/a seu destino, com amor, humildade e gratidão. Olhar para frente e deixar o passado fazer o seu milagre, porque “liberados somos concluídos” (Hellinger).

"Somente quando a fruta madura cai à terra desprende aquilo que serve ao futuro"
Bert Hellinger


Futuros Amantes




17 de set de 2013

32) A Quarta Função e os Amores Místicos




Com quantos nãos se faz um esquecimento?





          Quando alguém tem a experiência de se defrontar com a sua Quarta Função, explico mais abaixo, poderá vivenciar uma experiência mística, onde vários conteúdos negados desde a mais tenra infância emergem em novas configurações do Si mesmo. Salta-se a um novo (pat)amar de existência, mais ao centro, onde não se pode mais negar a eterna dança das polaridades.

No Ocidente a supervalorização e o desenvolvimento unilateral de uma função psíquica, desconhecendo as outras funções e o paradoxo da existência, lançam muitas das nossas riquezas psíquicas ao entorpecimento. Portanto, junto à quarta função, alocada no inconsciente, estão os tesouros ocultados por repressões e negações antigas, aguardando um movimento de aceitação e inclusão. Estas riquezas e fraquezas podem estar submersas há gerações no inconsciente familiar. Antes desta liberação, que tipo de amor é possível viver?

Quando este movimento de inclusão é sistematicamente negado - e o itinerário intelectual ocidental com sua negação do Eros ou intuição a favor do intelecto tem muito a ver com isso -, algo nos assalta em sonho e na vida abruptamente, principalmente depois da meia idade, 40 anos em diante. Um desejo imenso e desconhecido por tudo o que foi negado nos devora.


 O encontro súbito e desconcertante com a “bruta flor do querer”, depois de anos soterrada sob as camadas arqueológicas do alheamento, é como uma viagem de barco em alto mar  na companhia de um tigre. Na história “As Aventura de Pi”, de Yan Martel “inspirado” na obra “Max e os Felinos” do nosso Moacir Scliar, a fera, um tigre, e o jovem náufrago dividem um mesmo bote depois do naufrágio do navio que os levava para outro continente. Eles só  conseguem equacionar a insólita convivência depois de perceber que um não podia sobreviver sem o outro num bote a deriva nas intemperanças do mar (da vida?).  O lado bruto, se interpretado como aquela parte inconsciente dentro de nós, assombra os dois viajantes. No menino é a conexão oculta com as caudas ancestrais que o liga a um processo milenar de transformações e no tigre o que ainda é latente.  Quase ao final da história, já em terra firme são e salvos, o felino segue mata adentro sem olhar para trás. Cada um pertencia a polaridades ou universos diferentes, e que, durante sua jornada, descobriram-se como partes inseparáveis de si mesmos.

Este encontro entre nossa adaptação consciente ao mundo com a dimensão desconhecida ancorada no inconsciente (a quarta função, segundo Jung), e tudo o que está preso a ela e negamos, evoca o extraordinário podendo ser chamado de místico nas tradições espiritualistas orientais, se bem conduzias. Quando não há práticas sistematizadas para tal fim, ou formas criativas de viver que acolham este encontro como a própria cultura, os dramas da vida vêm em auxílio aos excluídos. Eles, os dramas, seriam a noite de núpcias dos amantes cósmicos, quando enfim eles se encontram pela primeira vez na forma de paixões ou crises avassaladoras, e cada um de nós e o que nos tornamos depois deste encontro, o êxtase.


Foto Christina Hope, 1989


Qual é a sua “bruta flor do querer”?

O que te devora?

 A QUARTA FUNÇÃO

O psiquiatra suíço Carl G. Jung observou como cada um de nós se relacionava com o mundo. Já escrevi sobre isto aqui.  Ele observou pessoas mais voltadas ao mundo exterior (extrovertido) e outras mais familiarizadas ao universo interior (introvertido). Este é o movimento da libido, impulsionando em direção à melhor adaptação ao mundo. Esta escolha tem a ver com tendências pessoais no contato com o entorno social, cultural e familiar.  Podemos dizer que o que é permitido e negado dentro de um sistema familiar e da nossa cultura contribui também para as adaptações aceitáveis e as recursivas negações.

Se uma pessoa se sente energizada com o contato com o mundo, ela tem tendência à extroversão. Caso ela fique muito cansada com o contato direto e sistemático com seu entorno sua orientação é a introversão. Tanto uma tendência como a outra terá necessidade de atuar o seu oposto, mas em menor escala.

O jogo de interações entre a pessoa e o mundo empurrando sua libido para o universo interior ou exterior também busca adaptação por meio de funções da consciência. Segundo Jung, são 4 as formas de se  adaptar vezes 2 (introversão e extroversão).

As 4 funções são compostas por duas adaptações racionais capazes de julgar (Sentimento e Pensamento), e duas irracionais capazes de perceber sem se preocupar com valores ou um conhecimento prévio (Sensação e Intuição). O relacionamento com o mundo se dá, então, ou pela aptidão do julgamento ou da percepção.

 Tanto a função sentimento quanto a função pensamento podem julgar a sua maneira e, portanto, são racionais, porém elas se polarizam entre si. Quando o pensamento é a primeira função ou a principal, o sentimento cairá no inconsciente se tornando a QUARTA FUNÇÃO ou função inferior – sem nenhum ajuizamento de valor nesta afirmação. O nome de quarta função se dá porque as outras duas funções da consciência que também se polarizam entre si, no caso a função intuição e a função sensação, se tornam a segunda e a terceira função ou as funções auxiliares deste primeiro esquema.

Há 16 combinações possíveis, esta é apenas uma delas (Ao final deste texto tem links sobre o assunto)*:




Em outro esquema, se a sensação ou a intuição que percebem o mundo por impressão ou revelação respectivamente, e, portanto, são irracionais, são a função principal e a quarta função, o pensamento e o sentimento se tornam as funções auxiliares.



Cada um de nós se adapta ao mundo com uma destas 4 tendências da consciência, somada à orientação para dentro (introversão) ou para fora (extroversão), mais a função auxiliar, alternando a direção da libido (16 esquemas psicológicos). Uma pessoa pode se orientar na vida muito mais pelo pensamento extrovertido, como muitos executivos, enquanto outra se relaciona com o mundo pelos sentimentos introvertidos e sua incrível capacidade de curar, ou ainda pelas impressões no aqui e agora (sensação extrovertida) ou por insights que ainda ninguém vislumbrou no inconsciente coletivo (intuição introvertida).

Só para ilustrar,  um intuitivo introvertido terá vislumbres sobre o inconsciente e todo seu mundo imagético falando coisas bizarras para uma dada era, que se confirmam algum tempo depois. Já o intuitivo extrovertido vislumbrará o primeiro passo na Lua e um computador na palma da mão quando todos diziam ser impossível. Um pensamento extrovertido será capaz de colocar uma empresa em pé com estratégias bem objetivas e ampliar seu capital podendo dar conta de muitas frentes de trabalho, uma pessoa com adaptação da consciência pela Função Sensação Introvertida terá uma atenção ao detalhe quase desconcertante para os humanos mais estabanados com o seu próprio corpo, enquanto o sentimento extrovertido fará a melhor festa do mundo entrosando tribos díspares entre si.

O que Jung também observou, como bom intuitivo introvertido (desbravador do inconsciente coletivo), é que nossa tendência foi supervalorizar a função principal e a secundária ou auxiliar e esquecer as outras e o constante jogo entre elas. Então, se uma pessoa tem como função principal, por exemplo, a sensação, e esta é extrovertida, se sentirá bem desajeitado com sua polaridade ancorada no inconsciente (quarta função), a intuição introvertida.  Quando alguém perguntar o signo astrológico dela, por exemplo, chegará a ter “urticária” e dirá que odeia estas charlatanices. É verdade que uma pessoa pode ter preconceitos em relação à astrologia e não ter a função sensação extrovertida como sua adaptação principal, mas quem tem esta função da consciência mais desenvolvida não terá tantos interesses semióticos quanto sinestésicos. Já aquele com a função Intuitiva introvertida mais desenvolvida, que tem como a quarta função a sensação extrovertida, não se importará muito em pagar uma aposentadoria e dirá, como que vivendo em um mundo de sonhos e arco-íris, que nunca envelhecerá.

Pintura Erik Alos


 Por outro lado, estas polarizações, se devidamente consideradas,  geram movimento e amadurecimento psicológico. Quer dizer,  caso a pessoa consiga ir desenvolvendo algumas atividades de sua segunda e terceira função e ter, bem de leve, algum treinamento para a quarta função. Não é aconselhável forçar, ou pular direto para o treinamento da quarta função, isto seria como fazer uma sereia andar de bicicleta no ar.  Ela nasceu para o mar... (até conhecer o náufrago!).

Mas, durante a metanoia, quando na meia idade as  polaridades se invertem para expandir a existência, se uma pessoa nega demais tudo àquilo que se refere à sua quarta função, haverá uma inversão desconcertante dos polos. O que estava submerso eclode como assombração trazendo consigo, descontroladamente, facetas ocultas da totalidade do ser.

Como diz Jung, “….A união dos opostos num nível mais alto da consciência, (...), não é uma questão racional e muito menos uma questão de vontade, mas um processo de desenvolvimento psíquico, que se exprime em símbolos. Historicamente, este processo sempre foi representado através de símbolos e ainda hoje o desenvolvimento da personalidade individual é figurado mediante imagens simbólicas” (Jung, 2001).




Four Mandalas: 14h centaury tibetan thangka painting anonymous tibetan painter
Um Thangka é uma arte budista com valores simbólicos.


A tal de crise da meia idade vira uma provação avassalante. Um problema no trabalho, uma nova configuração na família, uma doença, um acidente ou uma nova paixão com alguém tão diferente podem se mostrar insuperáveis exigindo toda uma nova maneira de ser no mundo. O que estava soterrado vem à tona, e o que era luz desce ao mundo das trevas.

De repente, aquele bico de papagaio inofensivo paralisa a pessoa na cama que se depara com problemas nos negócios, com os filhos indo embora, ou uma gravidez aos 45 do segundo tempo, com o casamento desmoronando ou uma nova profissão que não pode mais esperar e, finalmente, com uma paixão descontrolada por uma pessoa muito diferente. Estas situações, “normais”, são a ponta do iceberg, agora de ponta cabeça trazendo, e de alguma maneira personificando, toda a sombra negada, alojada no inconsciente e grudada à quarta função.  

Tudo o que família, cultura e a própria pessoa negou veementemente rompe o dique. Alguns tentarão  fechar o estrago com chiclete, arriscando reduzir este encontro quântico, esta iniciação ou descida aos infernos, com o mesmo chavão apaziguador de outrora: “é só uma trepada”, “é minha alma gêmea (a quinta nos últimos 10 anos)”, “é uma crise nos negócios que se resolve com mais um empréstimo”, “o filho vai voltar ele sempre volta”, etc. O problema é que no lugar da paz almejada com as velhas explicações aparece o tigre.

Como é o seu tigre? Que tesouros ele traz?

A função principal, por sua vez, diminui sua força e já não trabalha a pleno vapor. Ela cede lugar ao que nunca teve espaço de ser.  Está-se perdido em alto mar. Já não se intui como antes, ou não se pensa mais com aquela lógica cortadora de cabeças capaz de salvar qualquer empresa da falência, ou não se sente com a mesma desenvoltura carismática e sedutora nos meios sociais, ou se descuida das coisas práticas da vida que se fazia de olhos fechados com 5 iphones e 1 micro-ondas.

Estamos dentro de um barquinho unilateral avesso aos jogos das polaridades, no meio de um oceano inóspito aos medicamentos controlados, encarando uma fera faminta cheia de garras e dentes pontiagudos que reluzem nossas facetas adormecidas.  Quantos de nós, ao tentar controlar o processo respondendo a ele como um disco arranhado nos códigos de outrora, seremos devorados pelos próprios fiascos?

Eu!

A primeira função acostumada a ser um grande e feroz rio desbravador de vales e montanhas cederá diante do desconhecido deserto escaldante? Nunca!  E quando virar uma pocinha?   

Em todo o caso, o tigre está a serviço do resgate dos tesouros perdidos no inconsciente.  Por isso, às vezes, não ficamos com a paixão da nossa vida ou não conseguimos reverter um desmoronamento no trabalho ou no casamento, eram só pretextos para nos tirar de uma vida insustentável. 


Como a fera, é preciso voltar para o mundo selvagem sem olhar para trás e deixar o náufrago (nós mesmos) acordar para a sua nova vida. Ganhamos algo diferente depois desta provação, o amor místico que não nega nem projeta  em seu amar sem fim.





O QUERERES (Caetano Veloso)
intérprete Maria Bethânia

Onde queres revólver, sou coqueiro
E onde queres dinheiro, sou paixão
Onde queres descanso, sou desejo
E onde sou só desejo, queres não
E onde não queres nada, nada falta
E onde voas bem alto, eu sou o chão
E onde pisas o chão, minha alma salta
E ganha liberdade na amplidão
Onde queres família, sou maluco
E onde queres romântico, burguês
Onde queres Leblon, sou Pernambuco
E onde queres eunuco, garanhão
Onde queres o sim e o não, talvez
E onde vês, eu não vislumbro razão
Onde o queres o lobo, eu sou o irmão
E onde queres cowboy, eu sou chinês
Ah! Bruta flor do querer
Ah! Bruta flor, bruta flor
Onde queres o ato, eu sou o espírito
E onde queres ternura, eu sou tesão
Onde queres o livre, decassílabo
E onde buscas o anjo, sou mulher
Onde queres prazer, sou o que dói
E onde queres tortura, mansidão
Onde queres um lar, revolução
E onde queres bandido, sou herói
Eu queria querer-te amar o amor
Construir-nos dulcíssima prisão
Encontrar a mais justa adequação
Tudo métrica e rima e nunca dor
Mas a vida é real e é de viés
E vê só que cilada o amor me armou
Eu te quero (e não queres) como sou
Não te quero (e não queres) como és
Ah! Bruta flor do querer
Ah! Bruta flor, bruta flor
Onde queres comício, flipper-vídeo
E onde queres romance, rock?n roll
Onde queres a lua, eu sou o sol
E onde a pura natura, o inseticídio
Onde queres mistério, eu sou a luz
E onde queres um canto, o mundo inteiro
Onde queres quaresma, fevereiro
E onde queres coqueiro, eu sou obus
O quereres e o estares sempre a fim
Do que em mim é em mim tão desigual
Faz-me querer-te bem, querer-te mal
Bem a ti, mal ao quereres assim
Infinitivamente pessoal
E eu querendo querer-te sem ter fim
E, querendo-te, aprender o total
Do querer que há, e do que não há em mim

*Os analistas junguianos podem ajudar nesta jornada de autodescoberta. Há também testes para pesquisar a nossa adaptação da consciência ao mundo (função principal) e a segunda, terceira e quarta função, mas leva algum tempo para descobri-las e confrontá-las com a nossa realidade. Coloco abaixo alguns links se interessar:



       

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